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Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto

"Monte Alegre: Dos Tempos do Café à Faculdade de Medicina."

 
 
"O país que não faz esforço necessário para dar à ciência o lugar que lhe corresponde e o prestígio merecido àqueles que a cultivam, mais cedo ou mais tarde se transformará em colônia."

Jalliot, Prêmio Nobel de Física

A partir dos anos cinqüenta do século XIX o perfil do Brasil sofreu alterações substanciais. Vários fatores de ordem econômica, social e política, interligados e conseqüentes, amalgamaram-se para esculpir este novo perfil. Foram alguns deles: as tarifas alfandegárias Alves Branco, a exaustão das terras produtoras de café do Vale do Paraíba, o deslocamento do eixo econômico para São Paulo, os primeiros passos à industrialização, o desenvolvimento de centros urbanos, a campanha abolicionista, as sucessivas leis libertárias, a imigração européia e seus efeitos étnicos e culturais, e ainda, maior consumo, em nível mundial, do café brasileiro com forte reflexo no comércio exportador e na sociedade do país como um todo.

Este perfil emergente, multifacetado, não foi em tempo hábil percebido pela instituição monárquica, uma vez que as propostas renovadoras do Ministério Ouro Preto não impediram que ocorresse no país, pacificamente, no último lustro da década de oitenta, a substituição do sistema político do governo. Foi o fim de um sistema centralizado e o início de um governo republicano descentralizado, presidencialista, onde a federação seria uma das maiores conquistas para os Estados recém constituídos, tanto em nível político como em nível econômico.

Alguns dos fatores que contribuíram para as mudanças do país serão neste trabalho tangenciados por falarem de perto ao seu objetivo que é dizer um pouco da antiga Fazenda Monte Alegre, onde hoje, em terras que foram dela, situa-se a Faculdade de Medicina, integrante do conjunto do Campus da USP em Ribeirão Preto.

Os cafezais das terras cansadas da região fluminense e paulista que margeiam o Vale do Paraíba passaram a oferecer baixa produção. Tornaram-se não rentáveis, os lucros deixaram de fluir, os moradores empobreceram-se, as terras caíram de preço e o capital existente migrou para novas áreas, e com ele migraram também alguns fazendeiros de maior visão. Muitos, no entanto, optaram por enfrentar o sabor amargo da decadência econômica, paradepois o do alijamento político.

As novas terras desbravadas para as plantações de café pertenciam ao interior da Província de São Paulo e a região foi chamada "oeste paulista", embora, geograficamente, ficasse a nordeste. A tradição histórica prevaleceu sobre o real geográfico. Era um solo fértil, mais tarde chamado pelos italianos de terras "rosas", daí a corruptela de "roxas".

Obviamente, os primeiros cafezais desta região foram anteriores ao empobrecimento das fazendas do Vale do Paraíba, mas, o impulso da grande lavoura cafeeira no chamado "oeste paulista" só ocorreu a partir dos anos setenta do século XIX.

Ribeirão Preto integrou este conjunto. Na Sessão da Câmara Municipal de 22 de dezembro de 1878 considerava-se demonstrar "...que este Município é exclusivamente próprio para o plantio de café, e que apesar de já ter milhões de pés de café plantados teria um número muito mais superior, se tivesse para cultivá-los... a indústria não é ousada neste Município... existe (sic) alguns criadores de gado, porém... estes estão passando para o plantio de café" (1). Vê-se assim, que na antiga Vila de Ribeirão Preto ocorria, àquela época prosperidade proveniente do café, havia ausência da indústria, tendência à monocultura e direcionamento dos pecuaristas para o "ouro verde", pois lhes daria maior rentabilidade e uma projeção muito maior no mundo dos negócios e da política, não somente da Província como do País.

As novas lavouras exigiam mão-de-obra abundante e por estes tempos a instituição escrava já havia sofrido golpes fatais, como a lei Eusébio de Queiróz que determinou o cessamento do tráfico de negros, o que leevou, consideravelmente, o preço destes bens semoventes(2).

Destarte, esta mão-de-obra tornou-se cada vez mais cara e anti-econômica. Comprar escravos oriundos das regiões decadentes significava investir capital num bem semovente, perecível, de duvidosa produtividade, agravado, ainda, pela insegurança da posse uma vez que àquela lei já se somavam outras, como a da libertação do idoso, despida de conteúdo humanístico, mas real, a do "ventre livre" também de duvidosa ação humanitária, uma vez que não ocorria indenização das crias (filhos de escravos), os proprietários das mães eram donos dos serviços de seus filhos entre as idades de 8 a 20 anos. Havia ainda e efervescer da campanha abolicionista, que alcançou sensibilizar, significativamente, os segmentos sociais citadinos, sem vínculos com o sistema escravagista.

Este aspecto conjuntural vai influir e contribuir às proximas mudanças estruturais do país. Os proprietários das emergentes fazendas de café, cientes do comprometimento do sistema escravagista passaram a considerar a mão-de-obra livre mais segura para uma maior produção e, ainda, para o capital nela investido, pois, via imigração, este haveria de ter retorno.

Figuras políticas do Brasil agrário, no uso de suas influências, foram, com sucesso, empreendendo imigrações européias para suprir a mão-de-obra exigida na agricultura. Antes, o propósito da política do governo à imigração fora colonizadora, cultural, técnica e, provavelmente, étnica (3). Fora uma política descontínua e de difícil encaminhamento, iniciada com o Príncipe Regente D. João. Teve diferentes fases, ora estimulada com financiamentos, concessão de terras, ora com proibição de gastos, como ocorreu em 1830. As liberalizações políticas do período regencial atingiram o setor imigrantista, dando às províncias o direito de fundar colônias e promover a vinda de imigrantes. A Província de São Paulo, no momento em que viu a expansão do café em suas terras, de seu "interland" cuidou de elaborar leis protegendo a economia emergente e promissora. Em 1871, autorizou a emissão de apólices para cooperar com os donos da terra que necessitassem de mão-de-obra. Em agosto desse ano, o Governo Imperial endossou a criação da Associação Auxiliadora de Colonização e Imigração, idealizada por fazendeiros e políticos paulistas. O capital desta Associação não era fixo e o governo da Província e ou do Centro podiam oferecer "auxílios pecuniários" (4). Também criaram-se hospedarias gratuitas para os primeiros tempos da chegada do imigrante. Eram estímulos governamentais à mão-de-obra livre, buscando-se evitar maior colapso da agricultura com o prenúncio do fim da escravidão.

A década de noventa foi a de maior expressão no processo imigratório e correspondeu ao pique do café na Província de São paulo. Deste fluir humano, como contribuinte à sociedade brasileira, na ordem de grandeza, ficaram portugueses, italianos, espanhóis, alemães e japoneses, estes após 1908.

Na economia cafeeira do "oeste paulista" serão os italianos os que mais vão somar. O fluxo maior desta nacionalidade para o Brasil ocorreu a partir de 1870. No balanço de 150 anos de imigração perfizeram o percentual de 28,6% num total de 5.603.682 imigrantes. Café e imigração italiana foram produtos da mesma época. A mão-de-obra escrava do negro foi propulsora da economia canavieira, a mão-de-obra livre do italiano sustentou, por excelência, os cafezais do "oeste paulista". A contribuição dos alemães foi em menor escala. Seu fluxo para o país foi mais forte entre os anos de 1808 - 1850, com destino às colônias oficiais, como Nova Friburgo e até mesmo particulares, como Blumenau. Não obstante, vieram, também, em menor escala para atender à demanda de mão-de-obra cafeeira. Dispersaram-se pelas fazendas, mantiveram maior contato com a sociedade rural, aculturaram-se com mais facilidade a exemplo do que não ocorreu em outras regiões sulinas.

No ano de 1859, aportou em Santos um grupo alemão, emigrando com destino às novas colônias de café. Os Schmidt, procedentes da aldeia de Ostoffen, perto de Bremen, mar do Norte (5), integravam este grupo. Eram família de cinco membros - o casal Jacob-Gertrudes e três filhos, duas mulheres e um homem. O financiador deste grupo foi Luiz Antonio de Souza Barros, que criara em sua fazenda Felicíssima - São Carlos do Pinhal, como lhe facultava a lei, duas colônias, a do Paraíso e a do São Lourenço destinadas a receber a mão-de-obra européia. Sua preferência foi para nacionalidade alemã. Os Schmidt ficaram em São Lourenço, para apanhar, plantar, carpir e colher café. Deles nos ocuparemos mais tarde no contexto deste trabalho.

A economia cafeeira, assunto exaustivamente estudado por especialistas, não será aqui objeto de maiores considerações. Mostrar-se-á apenas o paralelo-surto cafeeiro em São Paulo e a afirmação da economia Schmidt - mais precisamente nas terras circundantes à Mogiana - no local de Ribeirão Preto, chamada pelos naturais "Ipamerim", que significava Entre Rios.

Numa caminhada pela história desta cidade, consta que eram terras dos Caiapó, com caminhos abertos pelos bandeirantes que aqui passavam com destino às minas de ouro das Gerais e também pelos tropeiros tangendo gado e mercadorias para abastecimento destas mesmas regiões. À época, homens menos dados às aventuras do ouro dispersavam-se pela região, situada a Nordeste da cidade de São Paulo, formando fazendas que cuidavam da agro-pecuária.

Sobre as sesmarias os primeiros nomes ligados à região há controversias. Certo é que a Vila de São Sebastião nasceu da vontade de fazendeiros, movidos por motivos religiosos, que doaram terras para constituir o "patrimônio religioso". Não foi fácil a constituição deste patrimônio. O esforço conjunto destes fazendeiros arrastou-se desde a primeira doação feita por José Mateus dos Reis, cujo valor, "quarenta mil réis pela primeira avaliação" não atendia às exigências eclesiásticas à formação de um "patrimônio religioso" que deveria alcançar o valor mínimo de "cento e vinte mil réis..." Diante do problema, outros fazendeiros decidiram doar mais terras para alcançar o valor exigido. Só assim ocorreu a aquiescência do prelado, erguendo-se tosca ermida e começaram os primeiros arruamentos.

O estudo da planta da cidade mostra que a vila não nasceu espontâneamente, suas ruas foram traçadas e nominadas. Convencionou-se o dia 19 de junho do ano de 1856 para a comemoração do dia de fundação da cidade, pois esta data representa o fim do longo processo que "...defendia interesses de vários, inclusive do santo padroeiro, optou por anexar numa só gleba as terras que ao santo coubessem e num lugar que, ou por iniciativa própria, ou de comum acordo com os interessados, fosse mais conveniente..." (6). A capela definitiva, a exemplo do que acontece até hoje com obras desta natureza, levou anos para terminar. Foi iniciada em 1863 e canonicamente constituída em 1870, quando o café já dava mostra de pujança.

O complexo Ribeirão Preto é fruto de duas decadências - a das minas de ouro e a do Vale do Paraíba fluminense. Esta colocação é válida para todo o "oeste paulista". Com propriedade um historiador já afirmou que troncos mineiros e ou fluminenses estão presentes nas origens destas cidades. Assim é que dos caminhos e fazendas que morejaram desde os primeiros tempos do século XVII, agora, na segunda metade do século XIX, vão vivenciar um crescimento, até então, pouco comum no Brasil. A instalação da Câmara Municipal foi no ano de 1874. Já nas suas primeiras reuniões o café era objeto maior de discussões, o que pode significar também que ela, Câmara, traduzia "...anseio natural de emancipação política e administrativa..." escudada no café. Pois, da "boca do sertão", graças à qualidade do solo, virá um grande momento histórico, fabuloso, como "Nova Califórnia", só que o fulcro econômico não era o "ouro", nem a "pedra preciosa" mas, sim já "bagos de café".

Para a região vieram os escravos para trabalhar a terra; os primeiros batistérios (1850-1869) não registraram crianças com nomes de famílias estrangeiras, mas registraram filhos de escravos. Em 1874 há registros de 5.522 habitantes na Vila de São Sebastião, dos quais 857 eram escravos. Foram eles que, nos primeiros tempos de Ribeirão Preto, ocuparam-se das plantações, criações e outros trabalhos, até mesmo das grandes lavouras do café. Somente no final do século XIX, cedeu a mão-de-obra escrava lugar à mão-de-obra livre. Vieram portugueses, italianos, alemães e, mais tarde, japoneses. Mesclaram-se, contribuíram econômica, cultural e étnicamente para a formação de um dos maiores pólos econômicos do país, tendo como esteira o café, que deu "reis e rainhas" à região. Consta que nas chamadas roças das primeiras fazendas o café já figurava em pequena escala, como de resto tudo era pequeno. Os primeiros anos da Vila de São Sebastião foram "incipientes". A esse tempo, na Província de São Paulo, o grande cultivo do rei "Átila", para lembrar Monteiro Lobato, que assim chamou o café, era no Vale do Paraíba, não só pela qualidade da terra, mas pela maior facilidade de transporte. Mas, quando destas terras "...a seiva foi bebida e sob forma de grão, ensacada e mandada para fora... à mãe fecunda que o produziu nada coube... ressentida, vinga-se... numa esterilidade feroz... Mas, do ouro que veio em troca nem uma onça permaneceu ali, empregada em restaurar o torrão. Transfiltrou-se para o Oeste, na avidez de novos assaltos à virgindade da terra... ou se transfez nos palacetes em ruínas; ou reentrou-se na circulação européia por mão de herdeiros dissipados." (7).

De "Cidades Mortas" é este quadro desolador do Vale do Paraíba. Dele vai fluir para Ribeirão Preto, de antes progresso lento, de agora passos firmes ao crescimento, onde o café, de par com os trilhos da Mogiana, aqui chegados em 1883, fizeram a história. Depois dos trilhos vieram o telégrafo e a eletricidade. Era o progresso.

Já nos anos setenta (século XIX) a importância da região era considerada e merecedora de discussões através da imprensa da Província, em níveis econômicos, sociais e políticos. Ressaltou-se o bem estar, o conforto e a hospitalidade oferecidos pelos fazendeiros do café. Estar com eles era estar com o "...mais hospitaleiro dos povos, nada iguala e nem se aproxima a largueza... Tudo nessa vivenda representa a franqueza do dono da casa e nada lhe falta para completar o conforto natural da vida: bilhar, sala de banho, toilettes, sanitários, água encanada e uma farta iluminação; não as têm melhores qualquer residência européia" (8). As enomes fazendas tinham vida própria, independentes da cidade. Enquanto nesta não existia a eletricidade, muitas delas, as maiores, tinham seus próprios geradores, com máquinas de beneficiamentos, com malha ferroviária interna, em substituição aos carros de bois, que durante muito tempo eles e burros foram usados para transporte do café até Jundiaí. São exemplos as fazendas dos Dumont, dos Pereira Barreto, dos Schmidt, de dona Iria e outras, que por não serem citadas não eram menos importantes.

O registro e significado destas fazendas de café de Ribeirão Preto estavam na pauta das exportações. Quando se fala que a Guatapará, uma verdadeira comunidade, era possuidora de quase 2.000.000 de pés de café, fala-se de seu valor externo, na entrada de divisas para o país; o mesmo vale para os Dumont que sustentavam aproximadamente 5.700.000 pés de café; como para os Schmidt, que chegaram a ter 62 propriedades rurais, muitas delas circundantes. Foram estas fazendas e outras que chegaram a levar às docas de Santos, em apenas um ano, 4.000.000 de sacas de café. Foram elas que fizeram de Ribeirão durante quatro décadas o "...fiel da balança como carreador de divisas". Foram elas também que deram nova vida à cidade, que tiveram em Luiz Pereira Barreto e Martinico Prado, através da imprensa os propagandistas das potencialidades e potências de suas terras.

Como prenúncio da bela época que se avizinhava, e de fato vivida na virada do século, quando os filhos das famílias mais ricas iam estudar em Paris, considere-se Santos Dumont, como exemplo - Inglaterra, Suíça e depois Estados Unidos, os Imperadores, Pedro II e Thereza Cristina, vieram ver de perto, em visita oficial, tanta riqueza, tendo como motivo da visita a extensão dos trilhos de ferro a Batatais. A pequena Vila de São Sebastião de Ribeirão Preto arvorou-se para receber os ilustres hóspedes. Câmara e população movimentaram-se nos melhoramentos da vila. Ruas foram aplainadas, tocos arrancados, casas reformadas e ou pintadas. A vereança fiscalizava as obras. Era o povo preparando-se para ver de longe a nobreza, eram os ricos, em comissão para receber de perto os Imperadores. Outubro de 1886. Quando já a instituição monárquica dava mostra de declínio, na resistência de sustentar um parlamentarismo às avessas. Foram os Imperadores hóspedes dos Pereira Barreto, antigos proprietários do Vale do Paraíba, para aqui migrados na fase inicial do espocar do café, "propugnando pela aplicação de princípios científicos às atividades agrícolas e pastoris..." (9), e introdutores de mudas de café de melhor qualidade denominado "café bourbom". A visita dos Imperadores ensejou a maior festa do século à região, que apesar de já cortada pela Mogiana era muita vezes "inculta e desabitada", com florestas ainda virgens, e a Vila de São Sebastião, à época, como que "...um verdadeiro oceano de cafeeiros..."

Nos dias de hoje, desta "Ribeirão Preto antiga não há mais presença pois a fúria de progresso impiedoso e tenaz tem destruído todos os seus vestígios" (10).

Como de resto, lamentavelmente, a cidade pouco traz da arquitetura da época faustosa das três primeiras décadas do século XX, quando o café revolucionou ainda mais a cidade. Foram diferentes universos, destruídos por diferentes períodos que igualmente marcaram os tempos, numa demonstração de indiferença pelo passado histórico (11). Guimarães Rosa lembrou certa vez que "...o passado também é urgente". Também, Alvin Toffler auxilia "... estamos destruindo os pontos de referência. Arrasamos ruas e cidades inteiras e construímos outras novas a um ritmo de estarrecer o nosso espírito". Seria bom que nesta Ribeirão de hoje, se preservasse o que resta de uma época histórica - a exemplo de algumas casas, como a da Avenida Caramuru dos tempos do café, e a da rua Tibiriçá com Florêncio de Abreu dos tempos primeiros do ensino superior.

Dos aspectos expressivos da cidade de outrora merecem lembrar os jardins da chácara Loyola. Na Vila Tibério, bairro residencial que nasceu de uma parte da fazenda Monte Alegre, então pertencentes a João Franco, havia uma chácara residencial circundade por jardins de rara beleza. Seu proprietário, Augusto Ribeiro de Loyola, abria-o à população para visitas e passeios nos feriados, dias santos e domingos.

Por estes mesmos tempos, era entristecedor o aspecto da Praça XV. O mesmo Sr. Loyola pediu permissão à Câmara para ajardiná-la (1900), fazendo-o sob seus trabalhos e supervisão diários. O emprenho e dedicação do Dr. Loyola entusiasmaram outros homens da cidade que partiram para completar sua obra: "...João Evangelista Guimarães se propôs a dar um chafariz. Francisco Schmidt, o coreto; Dr. João Caetano Alves declarou estar autorizado pelo Cel. Arthur Diederichsen a oferecer todos os bancos que fossem necessários..." (12).

Ainda sobre os homens empenhados em dotar a cidade de melhoramentos, destaca-se Francisco Schmidt. Em 1889, empenhou-se à construção do Bosque Municipal, propondo à Câmara obter "...amigavelmente ou por desapropriação a mata do morro do Cipó... sendo sua aquisição para utilidade e gozo público" (13).

Seu bisneto, José Eduardo Junqueira Schmidt, ao tomar assento à cadeira de nº 16 na Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto, em setembro de 1985, lembrou o avô ecologista, que teria então argumentado sobre o imperativo de preservar a área para a cidade que iria crescer num futuro dimensional "para ser uma Paris, uma Chicago e não podia ficar sem um pulmão verde para respirar" (14).

Do mesmo Francisco Schmidt foi o empenho à construção de um teatro, no idos de 1895, quando solicitou à Câmara Municipal conceder permissão para se organizar uma companhia ou sociedade com o fim de construir "...um edifício ou prédio para teatro no quarteirão em frente à matriz desta cidade, Praça XV de Novembro, com o encargo de fazer o fecho do mesmo, ajardiná-lo ou arborizá-lo como mais convinha e sempre de pleno domínio e logradouro público" (15). Este alemão de nascimento e brasileiro de coração, de fato, assumiu quase sozinho a responsabilidade de sua proposta.

Pouco tempo depois inaugurava-se o Teatro Carlos Gomes, onde floresceu uma vida artística e cultural de requinte, vivenciada pela elite econômica de Ribeirão. Companhias líricas européias chegavam a Santos e vinham diretamente à capital do café, a exemplo do que acontecia também em Manaus com o surto da borracha. Consta que os dois teatros foram projetados pelo mesmo arquiteto francês, onde nos sertões do Brasil vivenciou-se um pouco da Europa.

A vida noturna de Ribeirão Preto não se restringiu ao "Carlos Gomes", o teatro da elite. O dinheiro fácil evocou o mundo parisiense, símbolo da vida descompromissada. O ponto máximo deste mundo de prazeres caro e requintado foi e El Dorado, depois Cassino Atlântico, dirigidos por um francês de nome Cassoulet. Importava-se da Europa espetáculos alegres e reluzentes, alegrando a noite dos ricos, e o can-can era o "must" do momento. Mulheres muitas vezes "polacas, argentinas, espanholas, húngaras, italianas..." mas sistematicamente perfilhadas frrancesas, champanhas realmente francesas, cristais de bacarat - taças e candelabros - completavam o cenário. O curso do charuto cubano dava o tom de elegância, no despropósito de acendê-lo "...com notas de 500 e ou 1.000 contos de réis". Outras extrvagâncias mais atestavam a incultura social daquela gente que desconhecia ou ignorava a predominância dos outros muitos "Brasis" da miséria. Todo aquele mundo de fausto, de luxo, mármore de Carrara, de cristais da Boemia e de tapetes Persas foi sustentado pelos coronéis do café, já que barões o Brasil não mais os tinha, e "...tudo durou enquanto o café durou". Fortunas imensas com respaldo na terra e nas plantações de café constituíram-se.

Neste trabalho, vai interessar falar sobre dois grandes proprietários de terra e produtores de café, por terem sido eles os donos da Fazenda Monte Alegre. Foram eles João Franco de Moraes Octávio e Francisco Schmidt.

De João Fanco sabe-se que aqui se instalou na mesma época em que o café começou a marcar presença. Veio das Minas Gerais, mas, antes, morou em Atibaia para depois radicar-se em Descalvado, onde seus bens de fortuna multiplicaram-se. Afeito a desafios e aventuras de trabalho, sentiu-se atraído por Ribeirão Preto, na época em que o café aflorava promissor.

Tornou-se homem de muito prestígio, de teres e haveres. Penso que não figurou como vereador no primeiro quadriênio (1874-1878) da Câmara de Ribeirão, por ser recém chegado à região. Mas, por esse tempo já era considerado o primeiro grande plantador de café (16). Foi escravocrata. Em suas fazendas não houve a mão-de-obra livre, mesmo porque a entrada desta em quantidade expressiva vai ocorrer no momento de sua partida, definitivamente, para o Rio, ou seja, no último ano da década de oitenta (século XIX).

Além de cafeicultor, foi também criador de gado e comerciante de escravos. Comprava tropas em Sorocaba. Vendia-as no Rio e voltava com a mercadoria negra abastecendo a mão-de-obra nas fazendas de café. Neste triângulo comercial ganhou muito dinheiro. Sonhou com o baronato. Esperou o título por ocasião da visita dos Imperadores. Mas, não convinha a Pedro II acrescentar ao seu "Império de Chilenos" mais uma figura que, por certo, desgastaria mais ainda o regime político vigente e em crise, num crescendo cada vez maior e em parte sustentada pelos homens da Província de São Paulo: republicanos e abolicionistas. Para alguns, frustrou-se, e em troco tornou-se republicano sem muita convicção, e, pelo encaminhamento da problemática da instituição escrava, em nível nacional, dizem que à undécima hora tornou-se adepto da mão-de-obra livre. Não obstante, seu bisneto, José Franco do Amaral afirmou que João Franco morreu monarquista, escravagista e lamentando as perdas de seus bens semoventes: os escravos. Certo é que da sala de Sessões da Câmara, em 10 de fevereiro de 1888 eram os lavradores do Município convocados para no dia 20 do mesmo mês reunirem-se para tomar "...medidas sobre o estado da lavoura, colonização e resolver sobre a questão do elemento servil..." (17). A convocação era assinada por João Franco. Não se tem notas do teor destas discussões. Antes, em agosto de 1887, o Dr. Rodrigo Pereira Barreto propusera à Câmara a abertura de um livro "...sob a denominação de "Livro da Redenção" destinado a receber assinaturas de todas as pessoas decididas a concorrer à obra da libertação do negro no município" (18). Diz-se que João Franco, vereador à época, aquiesceu a proposta, assinando o livro.

O "Almanach da Província de São Paulo" - 1888 traz registro da população escrava de Ribeirão que provavelmente correspondia ao ano anterior, assim constituída: 784 negros, 595 negras, num total de 1379. É quase certo que a lei Áurea não encontrou nenhum escravo em Ribeirão. É voz corrente que meses antes a Câmara editou sua libertação, não obstante, é necessário pesquisar melhor o assunto. Ainda sobre esta problemática consta que Rodrigo Pereira Barreto sofreu perseguições por causa de seu empenho à libertação dos negros no Município, havendo mesmo que se mudar da cidade e aqui não mais voltar, para evitar tragédia entre duas famílias importantes. Registra a história oral que recebeu de presente uma caixa contendo um relho e um bilhete ameaçador: o relho seria usado na sua pessoa caso não retrocedesse em sua ação na Câmara no que dizia respeito ao elemento servil. O presente era de um dos homens de maior prestígio na região, segundo alguns, da família Junqueira. Sendo Rodrigo homem ponderado, também de família de dinheiro e prestígio, ciente de que se ficasse haveria confronto familiar de consequências desastrosas, viajou para São Paulo, onde decidiu vender sua casa ao amigo Martinico Prado, que com ele comungava os mesmos ideais libertários. Os Prado compraram não somente a casa, como também suas terras.

Voltando a João Franco, as atas da Câmara atestam a ação do homem público preocupado em criar impostos sobre o café, revertendo-os em benefício da formação da municipalidade, como construção da cadeia, do cemitério, de serviços de água e de eletricidade. Consta que suas terras eram de léguas e mais léguas e que cercavam Ribeirão Preto, tanto é que para na cidade entrar haveria de se "...pedir licença para o dono de tantas terras". Suas fazendas espraiavam-se pelas regiões que compreendem Dumont, Serrana, Cravinhos, Pradópolis, Barrinha e Sertãozinho. Entre elas, figurava Monte Alegre, que na sua origem possuía 400 alqueires destinados, prioritariamente, à criação de gado e à plantação de café. Foi a menina de seus olhos e para nela residir com a família construiu uma imensa sede, superior a todas as demais sedes de fazendas de café, não só desta região mas também da de Campinas. A comparação com outras casas ainda existentes na época, expressa a superioridade da riqueza de seu proprietário. A fazenda possuía energia elétrica própria, não somente para atender às necessidades da família, como iluminação da casa, mas para os trabalhos das lidas do café.

Maria Regina Paiva de Matos faz um estudo comparativo desta sede com outras sedes de fazendas ressaltando-lhe a superioridade da construção, da beleza, e do tamanho sobre as outras. Ela significa "...o fausto dos tempos do café em sua maior expressão". Sua arquitetura não teve linhas definidas, a exemplo dos conjuntos arquitetônicos do tempo. Há marcas das antigas construções rurais do Vale do Paraíba fluminense e das fazendas das Minas Gerais. Compreensível, porque João Franco nestes lugares viveu. Foi constituída num terreno em aclive e o sobrado tem a forma de L. O alicerce é de supor-se "em pedras de secção retangular, as maiores atingindo até 1m e calçadas com pedras menores". O soalho é tabuado, largo e estreito, de peroba e de jacarandá; a parte inferior constituía-se em outro pavimento, reservado para hóspedes; as janelas são de duas folha, venezianas em peroba; os batentes das portas são em pinho de riga. A sala de almoço, cozinha e banheiro são revestidos de azulejo decorado. Na construção original não havia varanda circundante e nem quiosque, acréscimos da reforma efetuada por Francisco Schmidt que abrigaram as retretas domingueiras que alegravam a vida dos empregados e dos colonos ao tempo dos Schmidt. Esta reforma acentou o seu aspecto eclético, pois antes havia "...uma porta com arco circular, uma fonte de ferro batido, estilo "art-noveau" e janelas de verga reta..." (21). Dignas de realce são as enormes colunas, de bonitas decorações no capitol e vigas de madeira (20), o ajardinamento com palmeiras imperiais, fontes e estátuas, árvores grandes, bancos, muros de marcação dão ar de nobreza à casa; nobreza aspirada em título, e não alcançada pelo primeiro proprietário, mas que de fato a embelezavam como até hoje ainda o fazem. Como complementos do conjunto residencial estavam o pomar, o terreiro de café, o monjolo, a bica d'água e ainda a área de serviço distante do corpo da casa, numa marcante distinção de classes bem própria da época. Hoje um contraste agressivo à beleza da sede está o tronco de escravos nos seus jardins, mostra do Brasil do século XIX, romantismo e açoite. Tudo leva a crer que este tronco era de fato da fazenda mas, não acredito que nos tempos de seu uso ficasse exposto nos jardins da casa, como hoje se vê, pois seria deprimente para os moradores de tão bela casa e jardins.

O idealizador desta sede diferenciada para o tempo e propulsor de uma fazenda de expressiva produção não só cafeeira, como também de gado vacum, que se afirmou como um dos pioneiros de maior produtor do café no cenário da nova região, não morreu em Ribeirão. Mudou-se para o Rio. Doou parte de seus bens para filhos e genros, vendeu outra parte para terceiros.

No dia 8 de novembro de 1890 foi lavrada no Primeiro Tabelionato de Notas desta Comarca a escritura de compra de uma fazenda, com cafezais de diferentes idades, casa de moradia, máquinas a vapor de beneficiar café, engenhos de cana com todos os seus equipamentos, engenho de serra vertical (francesa), casa de colonos e outras mais benfeitorias. A Fazenda chamava-se Monte Alegre e era formada por "...terras das Fazendas Laureano e Ribeirão Preto..." O vendedor era João Franco, os compradores eram Francisco Schmidt e Arthur Diederichsen que financiaram Rs600:000$000 junto ao Banco Construtor e Agrícola de São Paulo para adquiri-la. Logo depois, Arthur, que residia em São Paulo, manifestou desinteresse pelo negócio, oferecendo sua parte ao sócio pelo mesmo preço de compra. Francisco Schmidt, experiente na compra e venda de fazendas, setor no qual fizera bastante dinheiro, assumiu sozinho o financiamento conforme escritura lavrada no dia 22 do mesmo mês e do mesmo ano, tornando-se assim, único dono da Fazenda Monte Alegre.

Esta fazenda cresceu muito, foi muito bem trabalhada. Em torno dos cafezais construíram-se colônias onde moravam as famílias, na sua maioria imigrantes, que constituíam a força de trabalho. Os agrupamentos residenciais obedeciam as nacionalidades que nominavam as colônias. É interessante observar que não havia colônias de alemães. As relações patrão-empregado desenvolveram-se em nível de patronato. Para completar os ajustes salariais, os colonos desenvolveram uma produção doméstica que lhes permitia o auto-abastecimento e o que não produzia era fornecido pelo patrão.

Estas relações patrimoniais foram próprias de toda a economia cafeeira. As "cazas de vendas" das fazendas do município de Ribeirão Preto foram institucionalizadas. A propósito, veja-se o Projeto da Câmara, do dia 15 de março de 1888, no qual os fazendeiros ficaram com a faculdade de estabelecer em suas terras "...caza de negócio de fazendas, molhados, armarinhos e mais gêneros do país necessários para o abastecimento de sua colônia..." O projeto sintetizava ainda mais o poder político dos fazendeiros de café, uma vez que a mesma proposta assegurava-lhes pagar imposto à Câmara "...dez por cento menos do que pagam os negociantes..." da cidade.

Na fazenda Monte Alegre "dinheiro não circulava", tudo ficava em torno do trabalho e de Francisco Schmidt, com conta corrente, salário e mercadoria. Na visão do filho de Francisco Schmidt "...o colono tinha vida boa... havia fartura... ou seja, produzia seu sustento...", são dizeres que expressam bem o pensamento e mentalidade da classe dominante.

É relevante registrar que Francisco Schmidt cunhou um "vale moeda" que circulava nos seus domínios; posteriormente foi também aceito no comércio da cidade, exemplo vivo da coexistência do resquício medieval com uma sociedade pré-capitalista.

Ficha de Alumínio que circulou como vale nas fazendas do Coronel Francisco Schmidt, chegando a ser aceita também pelo comércio local de Ribeirão Preto.

Mas quem era este homem de nome estrangeiro a sobressair-se e superar tradicionais famílias paulistas no contexto agrário cafeicultor ? Fora ele emigrado de uma Alemanha no momento em que esta buscava definir seu contornos geográficos e encontrar sua identidade nacional. Viera no ano de 1858 com seus pais e duas irmãs, saidos do porto de Bremen e contava com apenas oito anos de idade. Eram os Schmidt de Ostoffen, aldeia próxima daquele porto. De Santos, onde chegaram, foram transportados para São Carlos do Pinhal e iniciados nas lidas da lavoura do café - apanhar, plantar, carpir, derriçar secar, ensacar. Depois de passarem como colonos pela Fazenda Felicíssima foram também colonos de Antonio Franco de Arruda, primo e genro de João Franco, na fazenda Babilônia Francisco, ao lado do pai, aprendeu a ser colono e como tal permaneceu até o ano de 1878, quando com suas economias comprou em Descalvado uma "vendinha de secos e molhados" esforçando-se para seu crescimento e eficiência. Atendia à nascente clientela citadina e à clientela rural do café. Homem dinâmico não se limitou apenas a este comércio, tornou-se corretor de café, ou seja, comprava o produto para uma firma alemã. Rafael, um ex-escravo de Antonio Franco de Arruda, perguntou muito mais tarde: "É verdade que Francisco Schmidt é o rei do café ? Vai ele lembrar de mim ? Toda "sumana" eu levava pra ele na vendinha quatro garrafão de café em troca de quatro garrafas de pinga. Ele mandava muito café no lombo de burro pra Santos de lá ia prás Alemanha" (21). Com o lucro que lhe rendia o comércio de secos e molhados e mais o da corretagem de café, deu início a uma nova ação comercial - compra e venda de terras, aproveitando assim a grande procura de novas terras às plantações de café. Multiplicou suas atividades, especulou no mercado, acreditou no futuro, ganhou muito dinheiro. Sabia ousar. Não era homem de ficar parado. Viajava por toda uma vasta região, tornou-se conhecido e respeitado. Saía no meio da noite, para na alvorada já estar fazendo seus contatos comerciais. Os de seu tempo deram nome ao seu animal de montaria, uma mula, de "Meia Noite" (22).

Quando se mudou com toda família para Ribeirão Preto e fixou residência em Monte Alegre já era uma expressão no mundo produtor e comercial do café, tendo à sua disposição para empréstimos em forma de hipotecas e ou financiamentos a firma alemã Theodor Wille, cujo capital era emigrado de Hamburgo e estabelecera-se no Brasil desde os anos de 1844. A esse tempo, voltada para o comércio exportador do açúcar e do algodão. Com a retração destes produtos empenhou-se em grande compradora do café brasileiro para a Alemanha. Entre os anos de 1895 a 1907 figurou entre as dez maiores firmas do comércio exportador. Observe-se que todas elas eram estrangeiras, sendo que Theodor Wille encimava a lista (23).

Era pois natural que também a saga de Francisco Schmidt assumisse grandes dimensões. Foi um contínuo prosperar, crescer, não somente pelas suas características de homem de terras, comércio, tangência na indústria açucareira, criador de gado, como também favorecido pela conjuntura da época - expansão de plantações de café, valorização das terras na sua área de ação; política internacional, como mercado alemão na luta pela conquista do mercado brasileiro e saída do mercado internacional da produção cafeeira do Ceilão em consequência da destruição de suas plantações. Esta conjuntura ainda era enriquecida pelo fato de que tanto na Europa como nos Estados Unidos a bebida tornava-se cada vez mais apreciada.

Imediato à compra integral de Monte Alegre (1890), Francisco Schmidt anexou a ela mais uma fazenda que já tinha 150.000 pés de café em produção. O valor desta compra, conforme escritura, foi de Rs 150.000$000 e assim continuou "...adquirindo outras propriedades agrícolas não só em Ribeirão Preto, mas também em outros municípios..." (24). Num crescendo cada vez maior, Francisco Schmidt ousava. Os suportes primeiros à sua ousadia comercial eram vontade, energia e determinação ao trabalho. O complemento essencial a este suportes foi o capital. Theodor Wille & Co., detentora deste complemento, seletiva em sua aplicações, direcionava-o para onde o retorno haveria de ser seguro, rápido e se possível mais que dobrado. Houve momento que era difícil traçar o limite entre os bens propriamente de Francisco Schmidt e aqueles que estavam sob os compromissos da firma alemã. O entendimento, suporte capital - venda de produtos, estabelecido entre Theodor Wille e Francisco Schmidt só foi quebrado no período da Primeira Grande Guerra, no momento em que o comércio brasileiro cessou com a Alemanha, mas, retomado logo após o término desta.

Certo é, Francisco Schmidt canalizou todo o seu lucro, cada vez mais alto, para compra de novas terras, plantio de novos cafezais, compra e venda de gado e foi pioneiro na agro-indústria açucareira na região. A Monte Alegre foi seu centro de vida pessoal e de negócios. Nela residia apesar de ter casa na cidade à Rua Florêncio de Abreu e uma mansão na Avenida Paulista, em São Paulo.

Dados de cartório de Ribeirão Preto mostram que, somente neste Município, Francisco Schmidt investiu em aquisição de terras, num período de 18 meses nos anos de 1894-1895, a quantia supervultosa para a época de Rs 884:300$000. Terras estas quase todas circundantes à menina dos seus olhos: Monte Alegre. Em 1889, seu patrimônio era invejável, só em Ribeirão Preto era dono de 12 fazendas, que perfaziam 2.935 alqueires, abrigando um total de 3.413.910 pés de café, e mais uma fazenda em Sertãozinho.

Era de fato notável a saga de Francisco Schmidt. Ousadia e eficiência administravam aquele capital somando mais financiamentos e mais empréstimos em dinheiro a juro de 8% ao ano. Comenta-se que, certa vez, o diretor da Theodor Wille interpelara-o se não seria ele louco em assumir tão vultosos compromissos financeiros, ao que ele teria replicado - "Mais louco é você que me entrega o dinheiro".

A exemplo de um grande número de imigrantes, Francisco Schmidt não sabia ler e mal desenhava o nome. Consta que, quando vereador, ao ter que escrever seu nome nas atas, pedia aos seus pares para que não o distraíssem, pois assim haveria que recomeçar tudo de novo (25). Isto explica porque ele não assinava documentos com a Theodor Wille. Seu procedimento financeiro era o seguinte: planejava seus gastos anuais, em nível dos negócios e em nível familiar (inclusive o da educação dos filhos na Alemanha e depois na Inglaterra), apresentava-os à firma e recebia o proposto em espécie; duplicatas eram escrituradas e religiosamente acertadas após a colheita de cada ano. Francisco Schmidt, com a visão de homem empresarial nato, investia o lucro na compra de novas terras, em máquinas e em elemento humano, pois sabia que gerar lucro também custava caro. São as leis do mercado já por ele bem entendidas.

As firmas estrangeiras tinham interesse na aquisição de terras no país, mas a legislação oferecia alguma resistência. Quando credoras, por hipoteca de terras, se os devedores não saldassem seus compromissos, as terras passavam para elas, fato que lhes facilitava a entrada no mundo fundiário brasileiro. Isto aconteceu em alguns casos, vulnerando ainda mais a economia cafeeira às oscilações do mercado externo e enfraquecendo os produtores, muitas vezes diante de grandes safras, tendo para controlá-las apenas o tempo, com suas geadas, uma vez que a política cafeeira interna tardou a aparecer e foi inócua diante da existência da imensidão dos pés de café e dos grandes excedentes em estoque. Haja vista a queima pelo governo no período getulino de milhões de sacas, em função dos grandes estoques do produto e de sua economia dependente; política certa para a época e pouco entendida por muitos.

A expansão de suas terras não se limitou ao município onde residia. Comprou fazendas nas áreas que hoje constituem a grande Ribeirão: Sertãozinho, Franca, Brodowski, Orlândia, Araraquara, Pontal e outras. Sua atividades não ficaram restritas ao café. O excedente do capital agrícola era tão vultoso que o fez investir na indústria açucareira. Aliás, via de regra, o excedente do capital agrícola direcionou-se para a nascente indústria brasileira. Suas fazendas de Pontal e São Miguel foram destinadas à agro-indústria da cana. Buscou tecnologia na cidade de Campos, importou máquinas e foi pioneiro na produção de açúcar, antecedendo em mais de 50 anos o surto canavieiro da região. Houve tempo, em Ribeirão Preto, que não se pedia açúcar cristal, mas açúcar Schmidt. Direcionou também seu capital para o setor pastoril. Teve rebanhos "caracu" de excelente qualidade. O florão de seu rebanho valeu-lhe prêmios nacionais. Possui mais de 14.000 cabeças de gado vacum e mais um sem número de gado cavalar, muar e caprino. Também investiu parte de seu lucro em mercado capital, nas bolsas de São Paulo e Santos.

Há a idéia de que as oportunidades na vida são poucas e rápidas e o importante é saber apanhá-las. Parece que Francisco Schmidt apanhou todas as suas oportunidades. No ano de 1912 era o maior possuidor de pés de café no Estado - 7.885.154 cafeeiros - que lhe renderam, nesse ano, 10.500 toneladas de café, realidade esta que lhe valeu, no ano seguinte, o título de "Rei do Café". Era seu segundo título, pois desde 1902, outorgado pelo presidente Campos Salles, ostentava o título de Coronel da Guarda Nacional, somente destinado às pessoas de grande prestígio econômico e social. Penso que deverá ter sido o primeiro, senão ou único estrangeiro naturalizado a receber o posto de Coronel da Guarda Nacional. O decreto de sua nomeação é de junho de 1901. A expedição da "Carta Patente" é de "Abril de mil novecentos e dois"; o terceiro passo foi a tomada de posse do "...posto de Coronel Comandante da 72ª Brigada de Infantaria da Guarda Nacional de Ribeirão Preto..." após o que passou a fruir "...de todas as honras e direitos inerentes ao posto... de bem servir aos oficiais superiores que o reconheçam e a todos os seus subalternos que lhe obedeçam e guardem suas ordens" (26). No anedotário de sua vida consta que antes da posse não sabia "se era bom ou se era mal" ser coronel. Homem simples, não teve, provavelmente, alcance para compreender a importância e a grandiosidade do posto e da nova dimensão política que lhe era oferecida. Fez consulta a um amigo sobre o assunto: Isto é bom ou ruim ? A resposta retornou também ao pé da letra: "Compadre, isto significa ficar por cima", ao que treplicou - "Ah! Então eu aceito". Se houvesse declinado da deferência coronelística haveria de ser o primeiro na história e provavelmente, a ser verdade sua dúvida, foi o primeiro a vascilar diante dela, pois muitos que não o foram por ser fizeram-se passar.

Campos Salles ao outorgar-lhe o título, o fazia com consciência. Em março de 1899, em carta com timbre do "Gabinete da Presidência da República" o apresentava a Assis Brasil, como "meu excellente amigo e antigo co-religionário é o mais rico proprietário agrícola de São Paulo... Tendo levado toda a sua mocidade a trabalhar. A biographia do meu amigo é simplíssima. Veio para o Brasil... sem experiência e sem vintém" (27).

Por esta ocasião Francisco Schmidt já possuía as 12 fazendas que juntas perfaziam o total de 2.935 alqueires, abrigando 3.413.910 pés de café. A Fazenda Monte Alegre era a segunda em área (398 alqueires), abrigando cafezais que atingiam o número de 492.021, em diferentes idades.

No cartório do 1º ofício de Ribeirão Preto estão os autos da divisão da Fazenda Laureano sendo que uma das suas glebas originou Monte Alegre. Fora ela uma "grande propriedade" pertencente a Matheus dos Reis Araújo até o ano de 1845. Depois desta data, passou por diversos donos, conservando seus antigos limites. Em 1874, sofreu divisões e uma grande parte dela foi comprada por João Franco de Morais Otávio que posteriormente a subdividiu. Em 1890, como já foi dito, vendeu Monte Alegre a Francisco Schmidt. Também nesta época doou uma fazenda limítrofe a ela a seu gento Augusto Tibério, que mais tarde, usou a área próxima à antiga estação ferroviária para um loteamento de chácaras, vindo a constituir a atual Vila Tibério.

No memorial da divisão da Fazenda Laureano consta que estas terras e as da Fazenda Ribeirão Preto Abaixo eram de "...cultura geralmente baixas" e um terço dela era ocupada por cafezais, e no mais eram sem aproveitamento, "capoeiras e pastos em abandono". A área que produzia café foi incluída na área maior que comprou Francisco Schmidt - Monte Alegre.

Após esta digressão que teve como motivo mostrar as origens das terras da Fazenda Monte Alegre volte-se a Francisco Schmidt, que foi também um político do seu tempo. Atuou em quatro legislaturas. Esteve sempre preocupado com a cidade e seus melhoramentos e muitas vezes aplicou seu próprio dinheiro em obras públicas. Teve seus desafetos políticos com Meira Júnior. Em 1901 foi derrotado nas eleições. Fundou um jornal e até um partido político conhecido como partido do Cel. Schmidt.

A companheira deste homem de negócios durante 44 anos foi Albertina Koll. Em 1917, por ocasião de sua morte, os bens do casal, para efeito de partilha, foram avaliados em Rs4.730.250$000, o que pode significar valor estimativo e não real. Equivale dizer que o valor poderia ser muito superior. Juntos - Albertina e Francisco - eram possuidores de 27.137 alqueires de terra. Foi registrado através das entrevistas que a grande cabeça de Francisco Schmidt era a sua mulher. Ela era quem "dava as ordens". Acredito, no entanto, que estas "ordens" estavam circunscritas à sede fazenda, pois, em nenhum outro lugar houve evidência de haver sido Albertina uma mulher de visão comercial, postura esta, também, pouco provável para o contexto sócio-cultural da época.

Francisco Schmidt, à época da morte de Albertina, tinha 67 anos, mas trazia muita disposição ao trabalho, vivendo e trabalhando como se não haveria de morrer. Não lhe agradava a idéia do esfacelamento do mundo que construíra pela partilha de seus bens a filhos e genros. Alguns deles residiam fora de Ribeirão Preto e eram de formação profissional alheia à terra. Foram seus filhos acostumados à vida fácil, com muito dinheiro e pouco trabalho. Não via em nenhum deles o seu continuador. Educados na Europa, eram mais europeus que brasileiros nos hábitos de vida. Pode-se dizer que a realidade brasileira não fora preocupação destes filhos que nasceram ricos, mas que, no dizer do pai, poderiam morrer pobres, o inverso dele que nascera pobre e morreria rico.

Diante desta circunstância familiar, sem muita perspectiva ao bom encaminhamento administrativo de uma fortuna fragmentada e agravada pela conjuntura internacional de guerra, onde tudo era instável e nebuloso, acordou-se entre meeiro e herdeiros que logo após a homologação da partilha dos bens haveria de constituir uma empresa, cuja razão social seria o patrimônio familiar constante em cada partilha. "Companhia Agrícola Francisco Schmidt" foi o nome dado à empresa, que em 1918 já era uma realidade.

O período que antecedeu à criação desta empresa foi o da Primeira Grande Guerra. Em outubro de 1917, ano da morte de Albertina, o Brasil declarava guerra à Alemanha. Antes, houve desorganização do mercado internacional, mas por não estar o Brasil envolvido no conflito, o montante do comércio externo estivera equilibrado, apesar das dificuldades. Com a entrada do Brasil na guerra, ocorreu forte queda nos preços do café, os capitais estrangeiros retraíram-se e ou cessaram. A situação tornou-se mais grave, sobretudo pela exigência que recebeu o país de saldar os compromissos externos. O quadro comercial ficou muito difícil. Os Estados Unidos, nosso maior comprador de café afirmando-se comercialmente desde os anos quarenta do século XIX, época em que o Brasil não reassinou o tratado comercial que privilegiava a Inglaterra com tarifas alfandegárias muito baixas, também retraíram-se. A Inglaterra, por sua vez, por dificuldades de transportes, deixou de comprar o pouco que ainda figurava na pauta de exportações. Para agravar ainda mais esta conjuntura, os cafezais brasileiros prometiam uma super-safra, entre os anos de 1917-1918. Para todos os cafeicultores a situação era de crise, seriam atingidos, como de resto todos os outros segmentos da sociedade brasileira também o foram.

Para Francisco Schmidt somar-se-iam à crise da conjuntura internacional a crise familiar gerada pela morte da esposa e consequente partilha dos bens, fragmentando seu império econômico. A criação da Companhia Agrícola foi uma estratégia para impedir esta fragmentação. Como seus herdeiros viram esta concepção da partilha e imediata agregação a uma empresa, impedindo-lhes a gerência de seus bens, não há elementos concretos para possíveis interpretações. Infere-se, no entanto, descontentamentos e ou relutâncias. Verdade é que, de bom ou mal grado, o patrimônio contido nos nove formais - meeiros e herdeiros - integraram a razão social da Companhia Agrícola, mantendo-se a determinação de Francisco Schmidt e a sua autoridade, uma vez que a Presidência da empresa coube ao meeiro.

Mais uma vez a estrela de Francisco Schmidt brilhou. Com o término da guerra, a Theodor Wille voltou, justmaente no ano da organização da "Companhia Agrícola Francisco Schmidt", a financiar seus negócios.

Este apoio de capital permitiu aos Schimidt extrair vantagens da adversidade advinda da grande geada de 1918, que arrasou milhares de pés de café e, consequentemente, deixando seus proprietários em situação difícil, muitas vezes, obrigados pelos compromissos assumidos a vender suas terras ou parte delas. Os Schmidt compraram novas terras: fazendas Mariana, Bom Retiro, Santa Maria, São Benedito, Piratininga, Piriquito, Pirajuby são aquisições dessa época. A soma dos cafezais destas novas propriedades alcançou o número de 808.832 e o valor empregado nestas compras, de diferentes áreas, foi de Rs 1.084:197$320. Para ilustrar melhor a expansão da "Companhia Agrícola Francisco Schmidt" compare-se quadro abaixo relativos aos anos de 1918 e 1920:

1º Ano Pés de Café - CAFS Valor em Mil Réis
1918 12.640.000 17.681.899$300
2º Ano Pés de Café - CAFS Valor em Mil Réis
1920 14.593.975 19.000.000$000-estimados

Deste total de pés de café (14.593.975) registrados em 1920 há que se considerar dois aspectos relevantes. Primeiro, o contínuo dinamismo da Companhia Agrícola que tinha à sua frente um homem de 70 anos de idade, e nem por isto menos enérgico, dirigindo 14.000 colonos; segundo, daquele total, 4.634.300 deles localizavam-se em Ribeirão Preto e Sertãozinho, regiões onde se concentrvam bens e atividades. Registre-se que os Schmidt eram responsáveis por 14,3% da produção de café no município de Ribeirão Preto.

A fazenda Monte Alegre foi o centro das atividades administrativas de Francisco Schmidt, mas sempre acompanhou de perto o andamento de seus empreendimentos nos outros locais. Nos primeiros tempos, seu meio de transporte foi a "Meia Noite", depois o trole, para depois o "fordinho".

Nos arquivos de seu neto, Eduardo Schmidt, hoje proprietário da fazenda Brejo Grande, há um documento que arrola a totalidade dos bens da "Companhia Agrícola Francisco Schmidt". No ano de 1920, um montante estimado em 35.509:281$789, sendo que deste valor de terras e cafeeiros ofereciam o quantitativo monetário de Rs. 25.193.999$405, ou seja 70% do capital das atividades da empresa repousavam na terra e no café.

A saga de Francisco Schmidt caminhou de par com a formação do capitalismo brasileiro, com respaldo do capital estrangeiro, na produção e comercialização do café. Foi uma expressão da burguesia cafeeira, não deixando de ostentar uma mansão na Av. Paulista, no mesmo quarteirão da dos Matarazzo, ainda hoje, de propriedade dos descendentes da linha de uma das filhas.

Em sua trajetória em ascensão, vivenciou e integrou grande parte da história do café, de expansão destituída de racionalidade e por isto mesmo marcada por crise de superprodução e de retração do mercado, como, por exemplo, as do primeiro lustro deste século, que levaram os produtores a discutir o assunto em 1906, culminando com o chamado "Convênio de Taubaté", onde os fazendeiros salvaram a si mesmos, com o endosso dos governos estaduais - Minas, São Paulo e Rio; a super safra de 1907, quando São Paulo, sozinho, produziu 15.408.100 sacas de café para um mercado externo consumidor de quantidade pouco superior a esta cifra; as geadas de 1918, que queimaram milhares de pés de café, principalmente os mais novos; a Primeira Grande Guerra, de consequências para ele, alemão de nascimento, não somente financeiras, mas também social e política.

Aqui em Ribeirão Preto, como aconteceu em outros lugares do Brasil, alemães e italianos foram agredidos, insultados, tiveram suas casas comerciais invadidas, vítimas de uma população que não sabia discernir os direitos dos povos emigrados. Consta que um grupo de pessoas organizou-se para invadir Monte Alegre e Francisco Schmidt mandou o recado - se vierem, Ribeirão fica sem água. Era de suas terras que saía o abastecimento de água para a cidade. O chefe político Juquinha Junqueira interferiu, impedindo as agressões anárquicas (28).

Em relação aos tempos de guerra foi deteminado que os alemães, mesmo naturalizados, fossem destituídos de suas funções. Francisco Schmidt era presidente da Câmara. Dirigiu-se a seus pares para que não se acanhassem em executar as determinações superiores. Quanto a ele, tivessem certeza, estava tranqüilo pois um homem não podia escolher o país para nascer, mas escolhia o país para morrer (29). Na verdade Francisco Schmidt foi mais brasileiro que alemão. Chegou ao Brasil menino, vindo de uma aldeia, não falava alemão e sim o dialeto iídiche (29a) (provavelmente eram os Schmidt de origem judaica), que com o tempo esqueceu. Seus filhos Guilherme e Jacob educados na Alemanha foram mais alemães do que ele, e Arthur e Ernesto educados na Inglaterra foram mais europeus. Não se adaptaram ao "jeitinho" dos brasileiros, eram rígidos nos horários, adotaram costumes e hábitos europeus, enfim, foram quase descompassados no meio social brasileiro (30).

Sua morte, em 1924, poupou-lhe os dissabores de ver a ascensão de outros países produtores de café, dificultanto a supremacia brasileira no mercado internacional; o excedente estocado, no final da década de vinte, de quase 30.000.000 de sacas de café; o "crack" da Bolsa de New York em outubro de 1929, com forte reflexo no universo econômico, social e político dos grandes cafeicultores do Brasil, registrando-se realmente um "crack" deste universo; e por fim a política de incineração do café estocado. Foram queimados mais de 70.000.000 de sacas de café, uma das políticas encontradas para auxiliar o equilíbrio das leis da oferta e procura no mercado internacional.

Não houve entre os herdeiros de Francisco Schmidt nenhuma disposição para dar segmento à Companhia Agrícola. O entendimento entre todos era de liquidação e imediata partilha dos bens. Já não existia mais a credibilidade e o arrojo administrativos da Companhia Agrícola, méritos de seu Presidente, figura de autoridade inquestionável, construtora daquele império econômico. "Ninguém questionava o velho" disse-me seu neto Eduardo Schmidt. Também a Theodor Wille, sem interesse em investir no café, foi favorável ao acerto com a Companhia Agrícola pelo muito que era credora, via financiamentos. Algumas de suas propriedades foram entregues a Theodor Wilee como compensação das dívidas, usando-se da figura jurídico-econômica anticrise. Octacílio Junqueira foi depositário dos bens da Companhia Agrícola. O processo arrastou-se de 1924 a 1948.

Não obstante, houve interesse por parte dos herdeiros na liquidação da Companhia. Procuraram tudo acertar dentro dos critérios de honestidade pelos quais pautou-se Francisco Schmidt em toda sua vida.

Eduardo Schmidt, seu neto disse: "cada um queria cuidar de sua vida e na partilha cada herdeiro responsabilizou-se pelos débitos" ou seja, pelos passivos. Não foi fácil arrolar e avaliar tantos bens; terras e mais terras; milhares de pés de café, indústria canavieira, máquinas de diferentes valores, benfeitorias, casas, títulos de bolsas de valores, gado vacum, cavalar, muar, etc, etc.

Não obstante no dia 29 de novembro de 1924 os formais de partilha ficaram prontos. Foram lavrados "na capital das Notas do 11º Tabelião Interino" (31). Cada herdeiro recebeu bens avaliados em 3.895.000$000. Temos em mãos um daqueles formais figurando "...como adquirente Jacob Schmidt... e como transmitente Companhia Agrícola Francisco Schmidt, em liquidação..." (32). Entre seus bens, figuravam a fazenda Monte Alegre, "...com quatrocentos alqueires de terras, quatrocentos e setenta e um mil cafeeiros, mais ou menos, com todas as suas benfeitorias móveis e semoventes..." (33) e, ainda, as fazendas Recreio e Vista Alegre com todos os seus pertences. A primeira destas tinha 142 alqueires e abrigava cento e trinta e dois mil cafeeiros, e a segunda, Vista Alegre com duzentos e oitenta e dois alqueires e duzentos e oito mil pés de café. O bairro Recreio, dos tempos de Ribeirão Preto de hoje, está localizado em terras que antes integravam a fazenda Recreio.

Infere-se, por esta partilha que os oito herdeiros receberam bens no valor de Rs. 31.160:000$000 mas, com responsabilidade pelo passivo, que era grande. Quando a Companhia Agrícola foi constituída (1918) seu capital em terra era de Rs. 4.730.250$000 e em cafeeiros Rs. 17.681.899$300, somando-se o montante em Rs. 21.412.149$300. Registrou-se poi entre 1918-1924 um crescimento aproximado de 48%.

Herança super-expressiva, mas, como já foi dito, difícil de limitar o que de fato era de Francisco Schmidt e o que era, sob financiamento, pertencente ao capital alemão. É bom lembrar que eram sessenta fazendas produzindo uma média de setenta mil sacas de café e mais duas fazendas voltadas para a produção de cana-de-açúcar, sem falar nas pastagens, gados e títulos de bolsas de valores.

Administrar este complexo empresarial, gama variada de atividades, abrigando o número aproximado de 14.000 empregados não era fácil. Somente nas propriedades de Ribeirão Preto e Sertãozinho havia 896 casas para colonos, sem falar nas casas de moradia - e casa de empregados qualificados, abrigando um número aproximado de 3.000 pessoas, compreendendo uma área de 3.645 alqueires com 4.634.300 pés de café.

Uma empresa agrícola, considerada a seu tempo a mais expressiva dentro do Estado de São Paulo, sem leis trabalhistas, desaguaria invariavelmente como desagou em relações sociais que lembravam vassalagem e suserania. O empresário era também senhor que sob cobrança de proteção da massa trabalhadora, dela exigia trabalho e obediência. Eram hábitos seculares da vida agrária, renascido extemporaneamente numa sociedade capitalista.

O capital estrangeiro de fato concorreu para o crescimento deste complexo agrícola empresarial. Este capital, mais trabalho e energia de Francisco Schmidt, na esteira da valorização das terras e da política cafeeira, construíram um império vantajoso para ambos. Mas, nos anos vinte já eram evidentes os sintomas da crise cafeeira, que se avolumavam num crescendo com as superproduções e estocagem do produto pelo governo, tanto é que "...a partir de 1921, a Companhia Agrícola não adquiriu mais nenhuma fazenda..." (34). Isto significava que o capital estrangeiro estava fugindo do setor cafeeiro, tanto é que ao morrer Francisco Schmidt, a Theodor Wille não somente deixou de injetar capital no grupo, mas exigiu "acerto de contas" que desaguou na liquidação da Companhia, com todas as consequências negativas que adviram para os herdeiros, ativos e passivos compromissados.

Desta forma, infere-se que os oito herdeiros ficavam com fortuna considerável, mas aquém do esperado e ainda agravados.

As relações dos Schmidt com Theodor Wille não foram cortadas. Corroborando o que já foi dito, ao longo deste texto, com relação ao interesse das firmas estrangeiras em entrar no sistema fundiário nacional, o Presidente da Theodor Wille & Co., em 28 de fevereiro de 1927, em carta resposta a Jacob Schmidt pela sua decisão de não vender a Fazenda Monte Alegre, afirmou "...Reconheço perfeitamente as razões que militam em favor dessa resolução... Todavia, se algum dia o amigo cogitar novamente da venda, peço o favor de primeiramente dirigir-se à minha firma, pois V.Sa. conhece os motivos e os fins que tínhamos em vista, quando lhe poupassemos a compra..." e continua "...esperamos que futuramente possamos contar com a sua costumeira hospitalidade..." (35). O assunto era pertinente à venda e compra da Fazenda Monte Alegre.

Chegou-se, pela análise de documentos. aos valores do patrimônio constituído por Francisco Schmidt. Foram valores tão altos que nada teria parecido mais impossível para um imigrante garoto, feito colono aos 9 anos de idade. Vale lembrar o início de sua trajetória no final dos anos cinqüenta, pleno vigor da escravidão no país, não obstante possível tão grande mobilidade social, saindo filho de colono, comerciante, corretor, fazendeiro, agricultor, empresário, industrial, rei do café. Certo é que o parecer inalcançável foi muitas vezes positivamente ultrapassado. E aqui é bom que se lembre Max Weber "...o homem não teria obtido o possível se não tivesse lutado, uma vez ou outra para alcançar o impossível".

Assim, foi por herança, que a partir de 1924 a fazenda Monte Alegre passou a pertencer a Jacob Schmidt, obrigado a vender a parte dela, e ainda Recreio e Vista Alegre, para não só saldar seus compromissos com a Theodor Wille, como para atravessar a grande crise dos anos trinta. Segundo seu filho Eduardo Schmidt, somente 12 anos depois seu pai conseguiu liquidar todos os débitos com a firma alemã.

A fazenda passou por muitas modificações. Com a crise de vinte e nove, muitos cafezais serviram de lenha e a primeira alternativa de produção foi o algodão. Já em 1934 havia alqueires e alqueires de plantação de algodão, campos brancos e belos, mas de rentabilidade pouco significativa, derivando-se para outras culturas.

Jacob Schmidt, que desde o seu casamento com Bherta, (1917) morava numa casa secundária da Fazenda, mudou-se para a Casa Grande.

Vale dizer que a primeira morada de Jacob Schmidt foi restaurada pela Universidade de São Paulo buscando através de estudos sua originalidade e inaugurou-se o Clube dos Professores. Fora esta casa construída por Francisco Schmidt nos primeiros anos deste século para atender às necessidades da família, como casa de hóspedes e depois abrigou o filho casado, que tinha uma função de destaque nos empreendimentos do pai "...chefe dos escritórios..." Primeiro o foi das fazendas, depois da Companhia Agrícola, uma vez que para Monte Alegre drenavam todos os documentos contábeis dos empreendimentos. A respeito do que já se escreveu de que Jacob Schmidt fora "administrador da Fazenda" e que a casa fora construída para residência do administrador, são erros históricos e contra eles contestou contundentemente Eduardo Schmidt. "Meu pai nunca foi administrador da Fazenda Monte Alegre, como também nenhum administrador viveu naquela casa. Lá ficavam visitas e lá fomos criados. Os administradores da fazenda eram homens assalariados, sem vínculos familiares e o de Monte Alegre residia na casa que existia à direita das seis figueiras, distante da casa grande uns 70 metros" (37). Cinco destas figueiras estão hoje, ainda, frondosas.

O terreiro de café, trilhos e máquinas de beneficiar ficavam a partir de onde hoje está a piscina do campus (36). Do terreiro, ainda existe vestígio, bem como o muro de pedra que lhe sevia de arrimo. São vestígios bonitos que merecem, pelo menos em parte, reconstrução. A tulha, que no tempo da Segunda Guerra foi usada para a prisão de alemães e italianos e mais tarde abrigou o Clube do Funcionários Zeferino Vaz, está também à espera de restauração para nela instalar-se o recém criado Centro de Artes. A partir de onde hoje fica o balão das Faculdades de Ciências Farmacêuticas e de Odontologia havia uma grande lago natural que se estendia à esquerd do ponto referencial para quem vem da cidade. Com o tempo o lago secou, de lugar a uma várzea, aproveitada posteriormente para o plantio de arroz.

Vista parcial da Fazenda Monte Alegre

Algumas colônias de Monte Alegre eram nominadas pela origem de seu moradores: Colônia Milanesa, que se dividia Milanesa Velha, Milanesa Nova e Milanesa simplesmente; colônia Napolitana, colônia Portuguesa e ainda Bambu e Operária. A Portuguesa, considerada a melhor delas desapareceu para dar lugar à construção do lago (37). Hoje, os conjuntos de residência dos funcionários do campus trazem, conservando a tradição, o nome destas colônias. São dez ao todo: a da Rua do Biotério, a dos Técnicos, a Sul 1, a Sul 2, e as seis existentes dos tempos antes. O número de casa de cada colônia varia de 15 a 20.

Os tempos da fazenda Monte Alegre foram-se transmutando. De 400 alqueires passou a ter 220. Houve que vender parte dela para atender aos passivos da herança. De centro das atividades comerciais do complexo da Companhia Agrícola ficou isolada, foi acanhando-se. Suas terras antes abrigando um contínuo verde de café, cedeu lugar às plantações de algodão, talvez de beleza superior, mas de pequena rentabilidade; cafezais abandonados, sem trato, sem carpina, morreram, foram usados para lenha de fogão, dando lugar à saroba.

No arquivo de Eduardo Schmidt há um documento onde estão arrolados os bens da Monte Alegre. Não traz data mas possivelmente foi elaborado no final da década de quarenta para efeito de venda. Registra "...220 alqueires, 99.510 cafezais, 70 alqueires de terreno arado, restante em pastos e benfeitorias, casa sede com todas as dependências, piscina, casa de máchinas, triturador, máchina de picar carne, debulhador de milho, máchina de picar mandioca, 35 casas para colonos, 03 chocheiras para vacas e burros, chiqueiro para porcos, grande depósito para café e algodão, 100 cabeças de gado de criar, 22 cabeças de porcos, 30 de burros, 04 de cavalos, 04 carroças, 02 carrocinhas, 01 troly, 03 vagonetes, 04 arados de disco John Diere, 03 trituradores, 05 grades, 04 semeadeiras, 30 pulverizadores, 10 carpideiras e muitos utensílios diversos".

Era um retrato pálido da Monte Alegre de outrora, sinal das "demarches" pelas quais passaram os cafeicultores. Basta lembrar que em 1928 recebiam 200 mil réis por saca. Depois, a queda foi tão violenta que pela mesma saca recebiam 30 mil réis (38). Monte Alegre, sede do "Grupo Monte Alegre", que compreendia 13 fazendas e mais tarde sede da "Companhia Agrícola Francisco Schimidt" espelhava a decadência de uma época. Jacob Schmidt vivenciou a crise, deprimiu-se. Mantinha a fazendo dentro de suas possibilidades bem cuidada, exigente na limpeza, no carpir, no trato dos animais e no cuidado das máquinas. Quando Jacob dizia estar limpo, Bertha ironizava, "...então deve estar areiado..." (39). Mas a crise foi muito maior que ele, era nacional.

E assim para Jacob Schmidt, saldando os passivos, cumprindo e contornando os compromissos, enfrentando as crises sucessivas dos anos trinta somaram-se os comentários de que a fazenda seria desapropriada pelo Governo Fernando Costa, um fisiocrata, que teve como maior política e estratégia de governo o incremento à agro-pecuária. Voltou-se, com propriedade, para os aspectos educacionais e técnicos da agro-pecuária criando Escolas de Agricultura, cuja instalação obedeceria à vocação das religiões. Ribeirão Preto foi uma delas. Diante da ameaça da desapropriação, Jacob Schmidt, embora contrariado, optou pela venda do que restava de Monte Alegre. João Marchesi não acreditou na desapropriação iminente e a comprou. Consta que nem chegou a receber a escritura definitiva, sendo de fato desapropriada pelo Estado.

Existia em Ribeirão Preto, onde hoje é o Hospital Santa Tereza, o Patronato Padre Feijó que ministrava rudimentos de agronomia e pecuária. Foi, intencionalmente, desativado para ceder lugar à Escola Prática de Agricultura Getúlio Vargas (40), cuja pedra fundamental foi lançada, no dia 25 de janeiro de 1942, nos jardins da "Casa Grande" da Fazenda Monte Alegre de tantas histórias. E aí funcionou até a construção do conjunto planejado para ser uma das pupilas da administração Fernando Costa.

Com esta destinação Monte Alegre vai adquirir nova feição. De fazenda de escravos, cujo proprietário João Franco aumentara muito sua fortuna com o comércio de negros (41), para sede de um dos maiores complexos cafeeiros de São Paulo, depois figura triste dos tempos da decadência, agora os primeiros arranjos para uma Escola Prática de Agricultura.

Nos cafezais cansados e abandonados entraram máquinas aplainando às futuras construções em rítmo de novos tempos.

O Brasil vivia a política do Estado Novo, fazendo crescer o sentimento nacionalista e de grandeza, cerceando a imprensa para impedir as críticas às diretrizes políticas e governamentais. As contruções oficiais deste período foram grandiosas, obedecendo a um estilo neo colonial com influências visíveis mais do colonial espanhol, o que pode significar identidade ideológica dos dois países naquele momento histórico. Estas construções consumiram somas vultuosas de dinheiro, em esquecimento e contraste com um Brasil de endemias e misérias. Era o gigantismo dos governos autoritários também reeditado pelos militantes nos últimos tempos sendo aquele em escala menor pelos condicionamentos do momento econômico.

Assim, a construção dos prédios para a Escola Prática de Agricultura ocorreu em tempo relâmpago, alguns dizem que levou o tempo de uma gestação. Numa rapidez eficiente passou-se de cafezal ao primeiro bloco que hoje integra o Prédio Central da Faculdade de Medicina. O mesmo ocorreu com a casa da residência do diretor, onde até recentemente funcionou a Biblioteca Central do Campus, o Ginásio e a atual Patologia. Construíram-se mais vinte casas para professores, distribuídas dez na atual Rua das Paineiras e dez na atual Pedreira de Freitas, conhecidas, à época, como casa dos agrônomos. O primeiro diretor da EPA foi Valter Velho, que no início de sua gestão residiu na "Casa Grande", onde hoje é o Museu Municipal.

A EPA foi muito bem planejada e bem construída: apíários, pocilgas, viveiros, cocheiras, estábulos, plantações de milho, arroz, feijão, aproveitamento dos cafezais mais novos, dos algodoais, cultivo dos bichos da seda, manejo de máquinas agrícolas, etc, foram atividades implantadas e implementadas, integrando as práticas dos alunos que desenvolviam também as disciplinas teóricas. Estas eram ministradas na ala térrea, à direita da entrada do Prédio Central. À esquerda desta mesma entrada funcionou um grupo escolar, até sua transferência para onde hoje é a creche dos filhos dos funcionários do "Campus". O grupo também trazia o nome de "Getúlio Vargas". Seus alunos almoçavam na EPA. "Era muito bom", disse-me uma ex-aluna, hoje funcionária da Faculdade de Medicina prestes a aposentar-se (42). A EPA oferecia aos seus alunos alojamento e comida. Os dormitórios ficavam na parte superior do Prédio Central que foi construído pela firma Construtora de Imóveis São Paulo S/A. Este prédio teve as extemidades das alas frontais alongadas, ou seja, os cinco últimos arcos (de cada lado) foram construídos posteriormente; já no tempo da Faculdade de Medicina. Sofreu, ainda, várias mutilações no arquitetônico como um todo, como por exemplo janelas retiradas, paredes e arcos fechados em suas laterais. Hoje, sofre um processo de tombamento que não impedirá uma futura volta à originalidade, desde que permitida pelo CONDEPHAAT. O refeitório era onde está o Departamento de Parasitologia, Microbiologia e Imunologia. Havia o cinema que funcionava aos sábados e domingos e constituía "...o encanto da diversão dos alunos...", ficava onde hoje estão o xerox e a seção de alunos. A Assistência Social integrava o conjunto pedagógico da escola: médico, dentista, farmácia, enfermaria. Possivelmente uma das primeiras escolas públicas do país a oferecer estes serviços ao alunado.

Não foi difícil identificar os lugares das atividades da EPA com o que existe hoje. Merecem lembrar os viveiros de mudas de eucalipto - o eucalipto foi trazido para o Brasil por Fernando Costa (43) e de café, este com objetivo de aperfeiçoamento genético, que ficava nas proximidades do antigo terreiro de café; pomar "modelo" onde hoje está o conjunto da Química; as hortaliças, "a perderem de vista", onde ficam as quadras de esportes; o estábulo onde estão a garagem e o almoxarifado; a pocilga, muito bem organizada, - "foi uma pena perder tudo aquilo" disse-me um ex-aluno; os enormes galinheiros ficavam onde estão o Laboratório Experimental do Departamento de Clínica Médica; o cultivo do bicho da seda era onde hoje seria a Rádio USP e o Centro de Estudos Regionais; selaria, sapataria, carpintaria, consertos e manutenção de máquinas ficavam onde hoje estão a Oficina de Precisão e Marcenaria. A cocheira era onde hoje está a agência de correios; a olaria localizava-se nas proximidades da Colônia Milanesa Nova e produziu tijolos e telhas para as cosntruções de nova escola.

A EPA produziu o suficiente para auto abastecer-se: milho, arroz, feijão, carnes, leite, banha, frutas, hortaliças, mel, etc. O excedente era cedido aos professores e funcionários por preços especiais. "Eram tempos de muita fartura, mas também de muito trabalho disse-me um ex-aluno da EPA.

Parte da Urbanização da EPA foi realizada pelos chamados prisioneiros de guerra - alemães e italianos - que trabalhavam sob vigilância de soldados armados. O balão em frente ao Prédio Central foi trabalhado por estes imigrantes, que à ocasião foram vítimas de um população pouco esclarecida sofrendo, por parte dela, agressões, insultos, prejuízos de depredações e prisões, cujo crime fora ter escolhido o Brasil, o país à sua emigração (44).

Estas escolas práticas criadas pela ação do Interventor Fernando Costa embutiam o princípio da necessidade do desenvolvimento educacional e técnico para a agricultura e espelhavam acenos à reforma agrária no país. Na pedra fundamental da EPA de Ribeirão Preto estão os dizeres: "da primeira escola profissional rural, que é o marco de uma nova etapa da reforma agrária brasileira" (45).

Não foram dizeres retóricos. Por esta mesma época a antiga Fazenda de Henrique Dumont, que no ano de 1890 fora vendida à "Dumont Coffee Companhy" por um milhão de libras esterlinas e que continuou, lucrativamente, no mercado cafeeiro - plantando, colhendo, beneficiando e comerciando diretamente nas praças de Londres, mantendo todo seu alto escalão com funcionários ingleses, foi desfeita e a "Companhia Agrícola de Imigração e Colonização" no cumprimento de sua proposta sócio-econômica a loteou em glebas; muitos ex-colonos, a maioria italianos, com suas poupanças, compraram destas glebas, tornando-se pequenos proprietários e ascendendo na escala social.

No final da década de quarenta, já numa fase democrática, o andamento de algumas das escolas agrícolas dava sinais de cansaço e mostravam que a proposta inicial havia fracassado; e como eram detentoras de áreas e construções excelentes apareceu "muita gente interessada... Instituições militares, especialmente... recentemente o governo federal através de um de seus ministérios militares realizou "desmarches" no sentido de ser aproveitada a Escola Prática de Pirassununga para aquartelamento de suas unidades. E ainda temos o exemplo de Guaratinguetá entregue ao Ministério da Aeronáutica" (46). As citações foram dizeres do Diário Oficial de São Paulo de 28 de novembro de 1951.

Realmente, muitas delas não deram "...os resultados pretendidos pelo criador...", um Deputado Estadual pela região de Rio Preto, também no mesmo ano registrou o histórico do encaminhamento da implantação da EPA na sua cidade e os seus descaminhos: lamentava "...a grande fazenda que o Estado desapropriou... e Rio Preto deixou de contar com aqueles produtores... que forneciam imediatamente à cidade... aquilo que Rio Preto necessitava - terras valorizadíssimas e o Estado arrecadava importância elevadíssima... O Estado deveria ter terminado suas obras não as concluiu... dispendeu cerca de seis milhões de cruzeiros naquela construção e abandonou tudo em meio..." (47). Nos terrenos destinados à EPA ficaram três prédios semi-construídos pelo Interventor e que estavam naquele momento cogitados à instalação de uma Penitenciária Agrícola.

Por essa mesma ocasião, a sociedade de Ribeirão Preto reclamava imperativa por sediar uma Universidade do Interior. Estes anseios culturais e acadêmicos repousavam no crescimento econômico do Interior do país. Até então os melhores centros educacionais estavam nas capitais, também hospedeiras dos complexos produtivos, comerciais e ou industriais. Isto não constitue novidade no caminhar da história: onde há dinheiro há cultura, há arte. Basta lembrar o translado de grandes obras de arte da França para os Estados Unidos nos primeiros tempos deste século. À proporção que ganhavam os Estados Unidos a supremacia econômica, Paris enfraquecia-se em nível de arte, perdendo a supremacia cultural. Os dias de hoje presenciam o Japão adquirindo, por altíssimos preços, obras de pintores exponenciais da cultura ocidental.

Destarte, Ribeirão Preto, centro econômico importante, através de seus representantes políticos teve ante-projetos de criação de Faculdades apresentados à Assembléia Legislativa do Estado. Merecem referência a da criação da Faculdade de Medicina e o da Escola de Engenharia de São Carlos.

A F.M.R.P., criada pela lei estadual de número 161, 1948, em virtude da emenda do Deputado Luís Augusto de Matos, subordinava-se à Universidade de São Paulo. Foi o primeiro passo de uma longa caminhada. Parecia lie morta até que a sociedade de Ribeirão Preto começou a manifestar-se. A Câmara Municipal encaminhou ofício ao governo do Estado manifestando "...apoio incondicional à instalação da F.M.R.P.", prefeitura da chamada Alta Mogiana manifestaram-se em cascata, ressaltando os benefícios sociais e culturais que emanariam não somente para o Nordeste Paulista, como para o Triângulo Mineiro e parte de Goiás; segmentos sociais de Ribeirão Preto "...sem distinção de cor política..." elaboraram memorial, imperativo "...pela imediata instalação em nossa cidade da Faculdade de Medicina..." A imprensa manteve acesa a idéia; cobrava do governo, mostrando em número o muito da contribuição em impostos depositados nos cofres estaduais.

Os Cidadãos - Godofredo Leite Fiuza e Arthur Canezine - doaram área de 10 alqueires à Universidade para implantação física da Faculdade, confirmando as afirmações dos políticos de que haveria facilidades de ordem material à sua organização e manutenção.

O Conselho Universitário (USP) havia algum tempo recebia da Assembléia Legislativa do Estado pedidos de pronunciamento sobre projetos de leis que criavam Faculdades no interior de São Paulo. E a comissão de Ensino e regimentos "...ainda que compreendendo e respeitando..." as aspirações das comunidades interioranas sempre opinava desfavorável. Esta Comissão ressaltava a necessidade da "descentralização do ensino superior, mas, entendia também que recursos econômicos não eram suficientes à instalação de cursos superiores com as qualidades exigidas", com "preparação de profissionais de alto nível e o progresso da ciência através da investigação científica... objetos estes somente alcançáveis com a constituição de um corpo docente de boa qualidade.

A esse tempo, a Associação Paulista de Medicina passou a considerar a criação de uma Faculdade de Medicina no Interior, "...medida de incalculável alcance não só pelas facilidades que irá proporcionar no aprimoramento cultural da mocidade domiciliada em zonas rurais, como pelo enorme desenvolvimento que trará centros científicos afastados da capital" (48).

A partir daí o problema ficou em níveis de Governo e Reitoria. Em 09 de março de 1951, a Casa Civil enviou por ordem do Governo do Estado ao então reitor Ernesto Leme, ofício no sentido de tomar "...as providências que julgar necessárias... à instalação da Faculdade de Medicina..." (49) em Ribeirão Preto.

O ofício imperativo teve resposta imediata. O Reitor, em 13 de março, comunicava ao Sr. Governador que o assunto em questão "...deverá ser submetido à consideração do Colendo Conselho Universitário após a indispensável audiência da Comissão de Ensino e Regimento" (50). Esta comissão já antes posicionara-se contrária à criação de uma nova Faculdade de Medicina calçada nas dificuldades à formação de um corpo docente de alto nível, mas, a ordem do governador era "...instalação imediata..."

Foi então que alguns professores da Faculdade de Medicina de São Paulo vieram a Ribeirão Preto estudar as condições locais e em relatório circunstanciado, concluíram "...que a cidade oferecia condições necessárias para criação de uma Faculdade de Medicina digna de Universidade de São Paulo" (51). A maioria de seus professores esposava a idéia de interiorização do ensino médico, pela realidade vivida todos os anos de "...candidatos aprovados em rigoroso exame de vestibular e que todavia não podem matricular-se por falta de vagas". Pleiteava-se um aumento de vagas para a Faculdade de Medicina de São Paulo mas, não havia como superar a capacidade das 80 vagas. Destarte, os estudos foram encaminhados à viabilidade da criação de uma Faculdade no interior do Estado "...em centro geográfico e econômico de alta significação..." As cidades evocadas foram Bauru e Ribeirão Preto e a escolha recaiu sobre esta por "...ser centro cultural mais avançado". E por fim a Comissão de Ensino e Regimento em seu novo parecer escudou-se no ante-projeto da Reforma do Regimento da Faculdade de Medicina de São Paulo, elaborado pelos professores Ernesto de Souza Campos e José Medina, que em 1º de setembro de 1951 opinaram ser "...possível instalá-la desde logo ministrando ensino de nível elevado não só pelas condições geográficas, materiais e culturais favoráveis, mas principalmente, graças ao fato da F.M.R.S.P. dispor de 138 livre-docentes de alto valor dentre os quais podemos selecionar para Ribeirão Preto um corpo docente que honrará qualquer grande Universidade" (51). Em Ribeirão Preto, à época, há que se registrar o apoio dos dirigentes da Faculdade de Farmácia e Odontologia que colocaram suas instalações à disposição das autoridades universitárias, oferecendo possíveis modificações e ampliações se necessárias ao funcionamento da nova Faculdade, como também não se pode esquecer os esforços empenhados à causa pela Igreja, nas ações do Monsenhor João Laureano. Igual postura tiveram as instituições hospitalares: Santa Casa, São Francisco, Beneficiência Portuguesa e Maternidade Sinhá Junqueira.

Pelo ante-projeto ficou estabelecido que para o "...funcionamento provisório se usaria as instalações da Faculdade de Farmácia e Odontologia e as instalações hospitalares existentes".

Reza o tempo que Zeferino Vaz junto com Edgar Barroso do Amaral, estudavam as possibilidades da construção dos edifícios, mas ao conhecerem através de Paulo Romeo a Escola Prática de Agricultura empenharam-se em implantar nela a futura Faculdade. Imprensa e sociedade dividiram-se. Todos queriam a Faculdade, mas nem todos queriam o fim da Escola Prática de Agricultura.

Um dos maiores defensores da instalação da Faculdade de Medicina na EPA foi o Deputado Estadual Amaral Furlan "...quero nesta oportunidade dar o meu testemunho pessoal a respeito das chamadas Escolas Práticas de Agricultura. Em Ribeirão Preto há uma... suntuosa, um verdadeiro monumento que honra o Estado de São Paulo. Acontece que na prática, é o mais retumbante fracasso... O indivíduo sai da fazenda, ingressa na Escola e fica vagabundo, porque durante os três anos de permanência na Escola, se acostuma com água quente, com cinema, teatro, etc. Nunca mais voltará para a fazenda de onde saiu filho de colono. Desta forma, penso que o problema da E.P.A. como se situa hoje, é um problema superado. Não dá absolutamente resultado algum. Ainda mais, as matrículas nesta escola estão em nível baixíssimo: não existe, apesar da comodidade, do luxo, e do divertimento gratuíto, quem mais se matricular... e vemos... um curso especializado de tratores com dois alunos" (53).

Há um outro testemunho político sobre a EPA de Ribeirão Preto, de lavra do Deputado Camilo Ashcar " tive a ocasião de visitar, demoradamente a EPA de Ribeirão Preto, cujas instalações me deslumbraram... Constitue ele um verdadeiro palácio educacional, desprovido de alunos... sobremodo caro para os cofres do Estado. O espírito voltado para a agricultura do então interventor Fernando Costa construiu um monumento, que honra Riberião Preto e as nossas instituições educacionais, mas como o próprio nome da Escola indica, deveria ter um caráter prático... porque o filho do agricultor que deixando a rusticidade de seu ambiente vem para o meio de luxo da Escola, se desadapta ao encontrar o novo ambiente e passa por uma segunda desadaptação ao tornar ao meio primitivo... em São Paulo durante a realização da última semana de menores, houve alguém que defendeu a tese de se transformar aquela Escola Agrícola num educandário infantil" (54).

Pelo que se vê no início dos anos cinqüenta, as ações educacionais de Fernando Costa foram questionadas por uma consciência política elitista. Era evidente que o alunato da futura Faculdade de Medicina não sairia das mesmas camadas sociais às quais pertenciam os alunos da EPA, recrutados nos segmentos sociais de pequenas rendas, precisamente, nos meio rurais da região, como também "...dos sertões de Goiás, Mato Grosso e das terras alterosas de Minas..." (55). Vários filhos de colonos nela estudaram. Outros segmentos da sociedade à mesma época destes confrontos, esposavam bem diferentes sobre a EPA: "...é dotado o Município de uma Escola Prática de Agronomia. Nascia da idéia de Fernando Costa, vai crescendo na administração geral, pelo cunho que imprime em todo o Estado à educação agrícola (56). Mas, foram poucas vozes que a defenderam. Dimer Corse, último diretor do estabelecimento, "...moço bom..." foi um dos seus defensores. Para o Deputado Furlan, a escola, necessariamente, não fecharia suas portas, pois havia a opção para funcionar em outro lugar até mesmo na própria área da Monte Alegre. Mas, o que de fato ocorreu foi seu fechamento, com alunos e pertences removidos para suas congêneres, como Itapetininga. Alguns de seus funcionários foram aproveitados imediatamente pela Faculdade de Medicina, outros ficaram prestando serviços sem integrar o quadro, eram os chamados administrativamente os P.O. e ou diaristas.

Em dezembro de 1951 ganhou a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto seu segundo encaminhamento jurídico pela lei organizacional - nível de vinte e seis de dezembro de 1951 -, que passou a tramitar na esfera federal. O processo de autorização de funcionamento passou então a tramitar pelo Conselho Federal de Educação, sem a qual não haveria Faculdade.

Em abril de 1952, o Governador do Estado encaminhou à Assembléia Legislativa Projeto de Lei para "...ceder à Universidade de São Paulo o uso do imóvel situado em Ribeirão Preto..." no qual funcionava a Escola Prática de Agricultura Getúlio Vargas. O projeto visava a "...instalação imediata da F.M.R.P. ...", e permitia cessão total da fazenda. Mas o Secretário da Agricultura, João Pádua, não concordou por considerar a área "...superior às reais necessidades de uma Faculdade de Medicina...". Alegava, ainda, que aqueles alqueires para a Secretaria de Agricultura eram de "...imperiosa necessidade para execução de seu programa de trabalho dispor de área remanescente, não utilizável pela Faculdade de Medicina... à continuação de seviços relacionados com o ensino, a demonstração de práticas agrícolas e o treinamento de pessoal para o Mistér da lavoura e da pecuária" (56). Pela proposta do Secretário da Agricultura destinar-se-iam a futura Faculdade de Medicina1.082.224 m², equivalentes a 44.720 alqueires, extraídos do local onde estavam as principais edificações da EPA. Zeferino Vaz, já como Diretor da Faculdade d