GUERRA
DOS FARRAPOS (REVOLUÇÃO FARROUPILHA)
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Manifesto
de Bento Gonçalves da Silva (25 set. 1835)
Compatriotas!
O amor à ordem, e à liberdade,
a que me consagrei desde minha infância, me arrancaram do gozo
do prazer da vida privada para correr convosco à salvação
de nossa querida pátria. Vi a arbitrariedade entronizada, e não
pude ser por mais tempo surdo a vossos justos clamores; pedistes a cooperação
do meu braço, e dos bravos que me acompanham, e voei à
capital a fim de ajudar-vos a sacudir o jugo, que com a mão de
um inepto administrador vos tinha imposto uma facção retrógrada
e antinacional. Compatriotas! Vossos votos, e vossas justas exigências
já estão satisfeitas. Caducou aquela autoridade cujo manto
cobria os atentados de homens perversos, que têm conduzido esta
benemérita província à borda do precipício.
Correstes às armas depois de haver esgotado todos os meios, que
a prudência e o amor à ordem vos sugeria, não para
destruir, mas sim para consolidar a sagrada Constituição
que juramos; não para vingar-vos dos ultrajes, que diariamente
vos faziam os corifeus de um partido antinacional, mas sim para garantir
as liberdades pátrias de seus ataques, tanto mais terríveis,
por isso que eram exercidos à sombra da Carta Constitucional;
corresses, enfim, às armas para sustentar em sua pureza os princípios
políticos, que nos conduziram ao sempre memorável Sete
de Abril, dia glorioso de nossa regeneração, e total Independência.
O resultado de vossa nobre empresa não podia ser duvidoso, pois
que ela era reclamada pela justiça, e pela opinião, esta
rainha do universo, cujo poder é irresistível: triunfasses,
brasileiros livres! E com vossa decisão, e vosso triunfo destes
uma prova de que sois dignos dos benefícios da liberdade; patenteastes
os nobres sentimentos de nacionalidade, que inflamam vossos peitos;
comprovastes, enfim, que vossa fronte jamais dobrará ao pesado
jugo da arbitrariedade. Esses motivos, e estes sentimentos, que convosco
partilham todos os corações verdadeiramente brasileiros,
justificarão vossa conduta aos olhos dos mais rígidos
censores dos movimentos populares, Apressuremo-nos, pois, a manifestar
aos nossos irmãos, habitantes das mais províncias da união
brasileira, os fundamentos das nossas queixas, e dos nossos temores.
Conheça o Brasil, que o dia vinte de setembro de 1835 foi a conseqüência
inevitável de uma má e odiosa administração;
e que não tivemos outro objeto, e não nos propusemos a
outro fim, que restaurar o Império da lei, afastando de nós
um administrador inépto e, faccioso, sustentando o trono do nosso
jovem monarca, e a integridade do Império. Sem compatriotas,
devemos ao Brasil. que neste momento tem seus olhos fitos em nós,
esta manifestação tanto mais sincera e pronta, quanto
maior é o dever em que nos achamos de desvanecer os temores com
que nossos inimigos o quiseram alarmar, acusando-nos de sustentar vistas
de desunião e república. Desgraçadamente nesta
província. como nas demais do Império, existe time facção
retrógrada adversa por princípios e interesses à
nova ordem de coisas, e inimiga implacável de todos aqueles que
professam decidido amor às liberdades pátrias. Apoiado
este partido antinacional pelo Marechal Barrete, cuja ambição
desmedida, e princípios impopulares são assaz conhecidos,
deixou sentir sua fatal influência em todas as presidências
anteriores à do Sr. Braga; mas nunca ousou mostrar-se tão
descaradamente como neste último período. Burladas foram
as esperanças dos amigos de nossa pátria, que se regozijavam
de ver a primeira vez um filho seu elevado à primeira dignidade
da província.
Quantos bens deviam esperar-se! Quantos males
precavidos! Mas uma triste fatalidade quis o contrário.
A ineptidão que desde logo mostrou para
tão elevado cargo, e a versatilidade de caráter do Sr.
Braga favoreceram os desígnios dos perversos, que nele acharam
o instrumento de seu rancor contra os livres; e no poder anexo à
presidência o meio de saciar suas ignóbeis vinganças.
Ninguém ignora os sucessos da noite de 24 de outubro do ano passado,
e dos dias consecutivos; ninguém ignora como o partido antinacional
armando braços mercenários e estrangeiros, ocupou militarmente
o Trem de Guerra da capital, e ameaçou com aparatos bélicos
a cidadãos pacíficos, que festejavam naquela noite com
cânticos patrióticos as salutares reformas do nosso pacto
social: o costume autorizava o festejo, a ordem presidia os passos de
um povo, que se entregava ao prazer, e marchavam na sua frente os Juizes
de Paz dos distritos que percorria; porém, apesar disso, pouco
faltou para que o estrondo do canhão, e o grito da morte não
sucedesse aos sons festivos, e à expressão da nacionalidade
satisfeita. Aquelas ameaças, aquele armamento desusado, não
foi quiçá o primeiro insulto cometido contra a nossa nacionalidade?
Não merecia um pronto e exemplar castigo? Não poderia
executá-lo o braço poderoso de um povo irritado? Podia,
sim mas não o quiseram os patriotas, amigos da ordem; sufocaram
em seus peitos os justos ressentimentos; esperaram providências
e justiça da sua primeira autoridade. Vãs esperanças!
Enquanto o vulcão das paixões ameaçava abrasar
a capital, que fazia o Sr. Braga? Embriagava-se, com mágoa o
dizemos, embriagava-se de prazer na cidade do Rio Grande entre festins
e banquetes, deixando naquelas espinhosas circunstâncias o timão
do estado, entregue ao capricho de seu irmão, o Sr. Pedro Rodrigues
Fernandes Chaves, jovem turbulento e faccioso, e o mesmo que dirigia,
e dava impulso ao partido que naquele momento aterrorizava a capital.
As notícias sempre mais aterradoras, que deste ponto recebia,
pareceram despertá-lo por um instante do seu letargo; chamou-me,
então, e em nome da pátria conjurou-me a que usando de
todo o meu influxo, fosse manter o sossego público: vós
sóis o único, me dizia, que podeis livrar a província
dos males que a ameaçam; voai, acalmai, conciliar, e. fazei deter
o furor do povo; evitai toda a efusão de sangue; assegurai-lhe
que prometo, regressarei, e ele aplaudirá minha justiça:
Compatriotas! O nome da pátria nunca soou
em vão aos meus ouvidos, e sempre me prestei voluntário
a prestar-lhe meus serviços: acreditei as palavras enganadoras
do Sr. Braga, e voei ao vosso lado; dóceis ouvistes minhas palavras
de paz, detivesses o broco já pronto a descarregar o golpe mortal
sobre vossos agressores, e, por mim, confiasses novamente em vosso presidente.
Mas quem o acreditaria! O pérfido havia-me iludido, e meu patriotismo
tão-somente lhe serviu de instrumento para também iludir-vos,
e desarmar-vos. Como poderá justificar-se semelhante conduta
em a primeira autoridade, que não deve ouvir outra voz, que a
da justiça nem ter outras vistas que as do bem do povo que rege?
Se o ex-presidente houvesse desejado o bem-estar e tranqüilidade
da Província não teria desamparado o lugar que a lei lhe
confiou, teria acudido prontamente ao ponto que ameaçava a conflagração,
e o castigo dos facciosos teria satisfeito a justiça de um povo
ultrajado.
Não, por certo, não tinha em vista
o bem da pátria quando levou desde o Rio Grande a confusão
e a discórdia a todos os ângulos da província; quando
em seu regresso à capital aprovou quanto de mais desatinado,
e criminoso havia cometido seu lugar-tenente Pedro Rodrigues Fernandes
Chaves; quando afastou de si seus antigos amigos, os sustentadores das
instituições livres; quando, ingrato a meu zelo pelo restabelecimento
da tranqüilidade pública, ousou chamar-me caudilho de facinorosos,
e revolucionário.
Insensato! Se eu tivesse querido levantar o estandarte
da rebelião, que melhor oportunidade que a exaltação
em que se achavam os espíritos? Que motivo mais plausível
que o insulto feito à nacionalidade? Que meios mais poderosos
que as cartas brancas, que seu passado temor, e mais que tudo a certeza
de que eu não abusaria delas, me havia confiado? Mas já
era surdo à austera linguagem da verdade, e prestava tão-somente
ouvidos às baixas lisonjas e aos pérfidos conselhos de
um partido, que queria vê-lo envolvido em seus interesses e cúmplice
em seus crimes para assegurar-se da impunidade e do triunfo dos princípios
retrógrados. Deixou o Sr. Braga de ser o administrador de um
povo livre, desde que ao Império da lei substituiu o espírito
de facção, e o povo desde aquele instante deixou de respeitá-lo.
Sem força moral, sem opinião, um governo não subsiste
senão pela desmoralização, pela intriga e pela
opressão, e este foi o caminho cheio de precipícios em
que se lançou o Sr. Braga. Vós o vistes, rio-grandenses,
apoiar na corte com sua autoridade as mais vergonhosas intrigas do Marechal
Barrete, para perder aqueles, cujas luzes e patriotismo transtornavam
seus planos ambiciosos e despóticos; enquanto com seu poder nesta
cidade autorizava as desejadas vinganças, o primeiro golpe dado
contra a liberdade conduz insensivelmente, e de um modo inevitável,
a todos os outros; é uma porta aberta à arbitrariedade;
e uma vez que ela se introduz, ninguém pode prever em que ponto
parará. Compatriotas! Vós testemunhasses esta verdade,
os cidadãos mais decididos pela causa do povo foram o alvo de
uma sistemática perseguição; prodigalizaram-se
empregos aos homens mais impopulares, a aqueles que eram mais indigitados
por professarem princípios mais retrógrados e antinacionais;
o direito de petição, garantido por nossa Constituição,
foi desatendido, e os peticionários tratados como sediciosos;
encheram-se os cárceres de patriotas, e toda a província
foi envolvida em processos e querelas; introduziu-se a desmoralização
na guarda nacional de infantaria para dispersá-la, e suspendeu-se
arbitrariamente do seu comando ao Tenente-Coronel Silvano José
Monteiro de Araújo e Paula, cujo crime era seu inabalável
patriotismo; criou-se uma guarda pretoriana debaixo do nome de Guarda
Nacional de Cavalaria para custodiar a cidade; mandou-se com ingentes
gastos, em detrimento do erário público, ao valente Batalhão
de Caçadores n.º 8 para as longínquas fronteiras
de Missões; removeu-se da vila do Jaguarão para Bagé
a companhia de caçadores, que ali se achava por ordem da Regência,
duplicando sem necessidade, pelo motivo plausíveis as despesas
pelos custoso transporte de viveres, munições e bagagem
a pontos tão distantes. Silva Tavares, Capitão da extinta
2.ª Linha, foi nomeado comandante da fronteira do Rio Grande a
despeito das instruções da Regência, de 8 de março
de 1834, sujeitando assim à nulidade e malvadez deste homem perverso
um sem-número de chefes valentes e aguerridos; retirou-se do
comando da fronteira do Rio Pardo ao veterano de nossos guerreiros,
o Sr. Bento Manoel Ribeiro, e foi substituído pelo Tenente-Coronel
da mesma extinta 2.ª Linha, José Antônio Martins,
cujo único titulo é a particular inimizade que consagra
ao Sr. Coronel Bento Manoel Ribeiro e pertencer à facção
do Marechal Barreto; vimos, enfim, debaixo da presidência do Sr.
Braga o templo de Temis convertido em forja das mais injustas perseguições;
vimos cidadãos armados contra cidadãos; vimos deportações;
vimos violada por duas vezes a sagrada garantia do habeas corpus na
pessoa do honrado patriota Major José Mariano de Matos; e vimos,
finalmente, impune a escandalosa introdução de africanos
e da moeda de cobre, terríveis açoites desta malfadada
província. Com estes e outros muitos atentados, que por brevidade
omito, se satisfizeram as exigências do Marechal Barreto, de Pedro
Chaves e da facção retrógrada; mas era forçoso
capear as perseguições com o manto da utilidade pública,
era forçoso legalizar atos perpetrados contra a opinião
da grande maioria da província. Chegou a época da instalação
da nossa assembléia provincial, e a falta do presidente arrancou
a máscara com que se cobria uma política hipócrita
e rasteira: a calúnia mais atroz foi proferida em seu selo com
altivez e ousadia, e a província tremeu por sua tranqüilidade
e existência, ouvindo a voz de sua primeira autoridade revelar-lhe
uma conspiração, cujo fim era desmembrá-la da grande
família brasileira e acusar como autores de tão nefando
projeto os mais conspícuos defensores das liberdades pátrias,
a aqueles que em todos os tempos valorosamente expuseram suas vidas
o verteram seu sangue em defesa da integridade do Império. Projeto
insensato! O golpe mortal que o ex-presidente premeditou dar na honra
e bem merecida opinião de seus adversários reverberou-se
contra si! Graças sejam dadas à energia dos generosos
patriotas deputados da oposição! Eles advogaram a causa
da inocência contra o aparato do poder, e contra a liga dos facciosos
que se sentavam nos bancos da nossa Assembléia provincial; sua
nobre e austera linguagem aterrou a calúnia, perseguiu ao caluniador
em suas últimas trincheiras, e obteve a glória de obrigá-lo
à mais abjeta retratação e de tranqüilizar
a província, manifestando-lhe que não existia a revelada
conspiração; um clamor geral de indignação
sucedeu ao do temor, que se havia querido incutir, e essa justa indignação
acabou de fazer desprezível a autoridade do Sr. Braga.
Depois desta derrota, quem teria ousado permanecer
no eminente lugar que se tinha desonrado? Mas o Sr. Braga já
se não achava livre para retroceder ainda que o houvesse querido;
obcecado pelo partido, retrógrado por seus compromissos pessoais
e pelo fatal influxo de seu irmão, sempre pronto a incitá-lo
a toda a classe de violências, persistiu na presidência,
e continuou sua marcha opressiva e antinacional. o partido faccioso
em sua mesma raiva achava novas forças para intentar novas empresas
contra os interesses da maioria desta província, que em seu delírio
tratava de sediciosa e anárquica. Acreditou que sua posição
era, todavia, a mais forte, a despeito da opinião pública
que lhe era contrária. Os lugares mais importantes estavam confiados
a membros de sua facção, e inutilizados a maior parte
dos influentes do partido liberal; contava com um número crescido
de facciosos no selo da representação provincial; contava
com o apoio do seu corifeu, o Marechal Barreto, que ousava prometer-lhe
sacar força armada de um estado vizinho para sufocar qualquer
tentativa dos homens livres; a liberdade de imprensa lhe servia de veículo
para espalhar suas doutrinas retrógradas e impopulares, atacar
com o fel da calúnia reputações adquiridas por
uma larga série de serviços feito à Pátria,
semear a discórdia e dividir para reinar; contava com o Tesouro
Nacional para comprar prosélitos e suprir os gastos de uma administração
pródiga e desatinada, e contava, enfim, com os magistrados corrompidos
e prevaricadores para legalizar injustas perseguições
e os atos mais arbitrários. Estes eram os elementos com que contava
a transata administração; e podiam os brasileiros livres
sofrer por mais tempo seu jugo pesado e imoral, e deixar seus filhos
o triste exemplo da arbitrariedade triunfante? O cálice da amargura
ainda não estava cheio, mas não tardou a sê-lo.
Não contente o partido retrógrado de apresentar em seus
imundos periódicos aos nossos honrados e industriosos camponeses
como sepultados nas trevas da mais crassa ignorância, como ineptos
para defender seus interesses políticos, e apelidá-los
bárbaros, pobretões e proletários, projetou sobrecarregá-los
com um novo e oneroso imposto de dez mil réis anual sobre cada
légua quadrada; imposto contrário aos princípios
de economia política, imposto injusto e cruel, porque recai sobre
o capital e não sobre o produto; injusto e cruel finalmente porque
pesa com desigualdade em razão da maior ou menor fertilidade
dos nossos campos. Vãos foram os esforços dos deputados
liberais para oporem-se a tão opressiva lei; ela passou a despeito
da sã razão e do bem-estar dos nossos comprovincianos.
O Sr. Braga, que pelo art. 15 da Lei das Reformas estava autorizado
a negar sua sanção a qualquer lei quando entendesse não
convir aos interesses da província, e que podia, por conseqüência,
suspendendo a sua execução, prevenir os males que ela
arrastava após si, longe de querer fazê-lo, desde logo
a sancionou e mandou cumprir. Faltavam-lhe, porventura, razões
em que fundasse a sua negativa? Não, por certo; filho desta província,
tinha todos os conhecimentos necessários para julgar o imposto
impolítico e injusto; porém, o espírito de facção
dirigia todos os atos de sua funesta administração. Devia-se,
necessariamente, prever o descontentamento que excitaria este novo imposto,
e que a sua execução ocasionaria um pronto e geral levantamento;
deviam, pois, os facciosos arbitrar modo de conjurar a tempestade provendo-se
de uma força armada devota à sua vontade e comandada por
chefes de sua facção. Em vão a buscariam eles nos
valentes veteranos! Aqueles que combateram pelas liberdades pátrias
jamais poderiam converter-se em algozes de seus concidadãos,
jamais desembainhariam a espada para degolar seus pais, seus filhos
e seus amigos! Não. Os militares do Brasil regenerado vertem
seu sangue para defender a Pátria e não para oprimi-la.
Buscariam eles esta força entre os beneméritos guardas
nacionais da campanha? Certamente que não; são estes os
mais vexados e oprimidos pelo imposto.
Aonde buscariam, pois, esta força? Custa
dizê-lo! Na criação de um corpo de polícia
de setecentas praças, na organização de um corpo
de janízaros, que com a ponta de suas espadas fizessem exeqüíveis
as medidas mais impopulares e opressivas. Podemos assegurar por honra
desta província, que este revoltante projeto jamais passaria
em nossa assembléia, se tivesse sido proposto e discutido com
as formalidades do estilo; mas a cabala e a surpresa lhes fez obter
o que de outro modo nunca teriam obtido; este corpo foi criado por uma
simples emenda do Sr. Manoel Felizardo, quando se discutia a lei do
orçamento provincial, autorizando, ao mesmo tempo, o Presidente
para fazer seu regulamento! Semelhante modo de criar um batalhão
achou a mais forte oposição da parte dos nossos deputados
liberais; e, apesar de haver sido aquela emenda firmada maliciosamente
pelos deputados partidários da administração facciosa,
e por alguns outros que iludidos se prestaram às vistas iníquas
dos Srs. Chaves e Felizardo, apesar, dizemos, daquela nova espécie
de abaixo-assinado (até agora desconhecido nos debates parlamentares),
que representava a maioria da assembléia, eqüivalia a uma
votação antes da discussão, apenas passou por dois
votos; e esta corte formidável, cujas despesas teriam absorvido
a enorme soma de duzentos contos de réis anuais, de fato foi
feita e organizada pelo Sr. Braga, que destarte assumiu os dois poderes.
Tantas arbitrariedade, e tantos atentados em um povo que se presa de
ser livre, deviam, enfim, cansar de sofrimentos. A inquietação
que desde os primeiros meses da presidência do Sr. Braga se tinha
derramado na maior parte desta província, e que por tantas vezes
a prudência, e o amor à ordem haviam acalmado, como acendida
por virtude elétrica apareceu novamente e se fez geral.
A nossa pátria pareceu ao esperto observador
como um enfermo, a quem uma febre ardente mortifica, e que alternativamente
espera e teme que a crise que o atormenta lhe dê saúde
ou morte. Em vão, compatriotas, buscáveis uma tábua
de salvação, ela estava na Carta, mas naqueles momentos
a Carta era letra morta, as vias legais vos eram obstruídas,
a apatia do governo central não vos deixava transluzir a mais
pequena esperança de melhoramento, os males vos ameaçavam
já de perto, qualquer dilação era perigosa, e a
força vos ia dominar, e destruístes, cidadãos,
a força com a força. Cumprimos, Rio-Grandenses, um dever
sagrado repelindo as primeiras tentativas de arbitrariedade em nossa
cara pátria; ela vos agradecerá, e o Brasil inteiro aplaudirá
o vosso patriotismo e a justiça que armou vosso braço
para depor uma autoridade inepta e facciosa, e restabelecer o império
da lei. Compatriotas, eu acrescentarei à glória de haver
sido em outros tempos vosso companheiro nos campos de batalha, e haver-nos
conduzido contra os vossos inimigos externos, a gloria ainda mais nobre
e perdurável de haver concorrido a libertá-la dos seus
inimigos internos, e salvá-la dos males da anarquia. O governo
de facção desapareceu de nossa cena política, a
ordem se acha estabelecida. Com este triunfo dos princípios liberais
minha ambição está satisfeita, e no descanso da
vida privada, a que tão-somente aspiro, gozarei o prazer de ver-vos
desfrutar os benefícios de um governo ilustrado, liberal e conforme
com os votos da maioridade da província. Respeitando o juramento
que prestamos ao nosso código sagrado, ao trono constitucional,
e à conservação da integridade do Império,
comprovareis aos inimigos de nosso sossego e felicidade, que sabeis
preferir o jugo da lei ao dos seus infratores, e que o mesmo tempo nunca
esqueceis que sois os administradores do melhor patrimônio das
gerações que vos devem suceder, que este patrimônio
é a liberdade, e que estás na obrigação
de defendê-la à custa de vosso sangue e de vossa existência.
A execração de nossos filhos cairá sobre nossas
cinzas, se por nossa desmoralização e incúria lhes
transmitirmos este sagrado depósito desfalcado e corrompido;
e suas bençãos nos acompanharão ao sepulcro se
lhes deixarmos exemplo de virtude e patriotismo.
Porto Alegre, 25 de setembro de 1835.
Bento Gonçalves da Silva