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Alguns levam a solicitude ao excesso de eles próprios designarem os nubentes e sacramentarem o conúbio, com a tranquila consciência de quem exerce dentro do seu latifúndio uma legítima função senhorial; outros deixam aos próprios interessados os cuidados da eleição. Estes curiosos casamentos, nota simultaneamente cômica e torpe dos nossos costumes agrícolas, dão-se com a maior frequência na época da colheita do café ; e são , principalmente com referência às mulheres, determinados mais por um cálculo interesseiro do trabalho do que pelo intuito genésico ou pelos impulsos naturais da simpatia. O que importa para interesse da Fazenda é "aparelhar-se a gente", formando de um negro diligente e dextro com uma crioula morosa e inábil - uma entidade mixta, espécie de trabalhador andrógino cujos constituintes perfeitamente se equilibrem para o exercício desta suprema função agrícola - dar a tarefa marcada. Fazendeiros há, de tanta sagacidade no arranjo destas delicadas equações da aritimética rural, que , possuindo no eito, entre peças de lei (do preço de 2 a 3 contos) e velhos perrengues ( herdados da fazenda paterna) apanhadores que tiram por dia até 16 alqueires nos cafezais carregados, quando outros nem à força de relho chegam a atingir 3 ou 4 balaios; - entretanto, por meio da referida organização conjugal sabiamente exploradas, conseguem obter o equilíbrio do eito, do que resultam inapreciáveis vantagens. Bem hajas, prole maldita de Cham , que nos libertas , a nós que no cimo do Ararat soubemos pela sizudez dos nossos avós bíblicos conter o riso ante a descompostura vínica do papai Noé; bem hajas, prole bendita , que amassa o nosso pão com o suor do rosto. *** Tecla é a mulata mais bonita da fazenda. Sob os seus precoces treze anos borbulha o ardente sangue mestiço, inflando-lhes as veias que serpenteiam túmidas debaixo da pele acobreada,pubescente,de tons quentes como os do gerivá, verdoengo. - "Flor de cafeeiro", deve ser colhida pelo melhor apanhador de todo o eito. Pedro Gobá, de Olinda, veio num comboio escolhido a dedo, de gente de primeira ordem. Moço atlético, retinto, forte e dócil, é a melhor peça dentre toda a escravatura. Para tocar uma enchada, cantando uma cantilena triste, morro acima, num eito de mato bravo, ninguém como ele! No manejo da foice, à roçada de um guaixumal de pasto velho, nem o Peroba o acompanha: e , entretanto era Peroba o melhor crioulo da redondeza, antes de aparecer o Gobá. Naquele dia inicial da colheita, Tecla - a flor do cafeeiro, bonita e indolente na exuberante precocidade dos seus treze anos, foi esco- lhida por Gobá, o tarefeiro , rei da negrada. Casou-os o Balbino, velho africano feiticeiro e manhoso, puxador do Terço, que exercia na fazenda um arremedo de funções as cerdotais. Era ele quem paramentado com uma sobrepeliz por cima de uma batina de seda - feita de um dominó carnavalesco que lhe dera o senhor moço estudante em São Paulo - casava os parceiros, todos os anos , em véspera da colheita, no oratório da Fazenda, perante um Cristo envergonhado da sua impotência para aliviar a miséria da raça negra maldita, condenada pelo Padre Eterno da legenda bíblica a eternamente trabalhar em benefício nosso, dos que temos pais fazendeiros e contamos por avós históricos - Sem e Jafet. Tecla, confiada no esforço dedicado do marido, acompanhava-o entre os arruados dos cafeeiros, toda atenta a resguardar dos galhos secos o seu vestido de chita, por que se não rasgasse; e esquecida da tarefa, ia cantarolando, eito acima, a mesma toada triste da cantiga do marido. Gobá excedia-se de diligência para colher a tarefa sua e da mulher. Ao largar o serviço à noitinha, contou as chapas que o feitor lhe dera a cada balaio de café levado ao monte: eram 15 . Depois contou as da Tecla: eram 3. Faltavam duas para inteirar a tarefa da companheira : e o senhor bem lhes havia avisado. O que faltar para 10 , uma dúzia de relho por alqueire ! ..." À noite, na forma, recebiam-se as chapas da tarefa. Dois moleques, nas extremidades da fila , suspendiam ao ar tachos de taquara seca em labaredas. A negrura daquela mísera gente, ao clarão do fogo, mais negra ainda se tornava . Cabisbaixos, mudos, iam entregando os discosinhos de Flandres, à proporção que o Maurício os tomava , passando-os depois, para verificação, ao feitor do terreiro. Sob o alpendre da casa, a família dos brancos assistia curiosa a contagem. João Cassange , 10; Pedro Creoulo, 12; Nazário, 11; Tecla, 8. E o Maurício , feitor prático, tomando o seu grande relho de couro trançado, intimou : Tecla fora de forma. Era o primeiro castigo por falta de tarefa, crime imperdoável na alta justiça dos fazendeiros. Tremendo, a mulata , "flor de cafeeiro", mimosa no abrolhar dos seus treze anos, saiu para a frente da fila, quedou-se imóvel, erguendo os braços para que o relho vibrado a dois pulsos pudesse enlaçar-lhe num cíngulo de dor o torso flexível e esbelto de mestiça nova. Mas antes que a primeira relhada caisse sobre a carne trêmula daquela criança apenas revestida no busto pelo fino morim da sua camisa de noivado, Pedro Gobá interpõe-se , e se ajoelha. - Sinhô ! murmura comovido , com as mãos postas em súplica, voltado para a família dos brancos o rosto sempre risonho, agora crispado pelas contrações da angústia. Sinhô ! repete mais trêmulo ainda. - Que é lá, negro ? brada o fazendeiro irado ante aquele ato de indisciplina. - Sinhô , eu quero apanhar por minha mulher ! - Ah ! negro você conta histórias !... *** Mas antes que ninguém tivesse tempo de mover-se, dominados todos pela surpresa daquela cena, Gobá, o Pernambucano de raça, altivo e nobre no íntimo da sua alma admirável, debalde abafada desde o berço pela dominação dos senhores; Gobá, a flor da escravatura, manso e bom, subitamente transformado em homem pelo irresistível impulso da nobreza inata, arranca da faca e crava-a no coração da mulher. Depois, enquanto ela tomba inanimada, ele , placidamente, fitando com um ar de asco a família atônita dos brancos , placidamente crava a faca ainda rubra e quente no seu próprio coração. São Paulo, 7 / 10 / 1887 VISITE OS "SITES": http://www.bibvirt.futuro.usp.br/ http://www.bibvirt.futuro.usp.br/acervo/literatura/autores/ezequielfreire/pedrogoba/pedrogoba.html .
Matéria enviada por : José Eduardo de Oliveira Bruno - Membro efetivo da Associação Brasileira dos Pesquisadores de História e Genealogia
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