Câmbio, internacionalização e desindustrialização
:

A opinião é de empresários, aliás, de grandes empresários: o câmbio está
levando o Brasil a uma desindustrialização. Não confundir o processo que os
empresários estão apontando com a internacionalização da empresa brasileira,
a qual, já vinha ocorrendo e ganhou força nos últimos anos em função de uma
importante reestruturação empresarial ocorrida no país.

A grande empresa brasileira ampliou sua produtividade, modernizou suas
instalações e equipamentos, promoveu reformas na sua gestão e conquistou uma
capacitação financeira invejável, além de níveis menores de endividamento.
Por isso, habilitou-se a desfrutar de uma maior condição para concorrer em
mercados externos e se aventurar em processos de compra ou instalação de
unidades no exterior em escala muito maior do que até então vinha fazendo.

Internacionalização e pujança empresarial caminham juntos e não só no caso
brasileiro, como também em todas as experiências de países cujas empresas
prosperaram. Mas, não é só isso o que vem ocorrendo mais recentemente.

Os relatos de empresas como WEG e Marcopolo que são grandes empresas
exportadoras brasileiras, e, além disso, são as maiores empresas do mundo em
seus segmentos (produção de motores elétricos e ônibus), deixam claro que no
último ano passou a vigorar uma motivação adicional para a
internacionalização: a fuga de condições econômicas adversas como as que
vigoram no Brasil.

O câmbio não está sozinho como fator de adversidade interna, tendo a
companhia de juros muito altos, carga tributária excessiva e infra-estrutura
deficiente, mas, como resultado das últimas rodadas de valorização da moeda
nacional, consegue ser o mais destacado determinante da fuga das empresas na
atualidade.

Ao contrário da internacionalização positiva, vale dizer, a que deriva de
maturidade e avanço técnico e gerencial das empresas, esse novo motivo para
internacionalizar a produção é prejudicial ao país, pois, a instalação de
nossas empresas lá fora nesse caso equivale a uma prematura
desindustrialização interna. O fato foi apontado por empresários reunidos
ontem no IEDI em um "Café da Manhã com a Imprensa" para discutir o tema "O
Colapso da Competitividade Exportadora".

Com uma cotação do dólar que caminha para R$ 2,00 ou menos, afirmam os
empresários, não há maneira de manter os empregos no Brasil, os quais
deverão migrar para Índia, Rússia, Portugal e Argentina, onde essas empresas
já têm ou estão instalando fábricas.

Por enquanto não há risco de fechamento de unidades no Brasil, mas, em não
sendo neutralizados os fatores negativos presentes na economia brasileira,
certamente haverá uma gradativa descontinuidade da manufatura local,
transferindo-se produção e empregos para fora.

Não há outro nome para isso senão "desindustrialização", um processo que
quando ocorre em países ainda em desenvolvimento restringe seu crescimento e
impede a superação da condição de atraso e pobreza.

O câmbio valorizado foi apontado também como um grave problema por
empresários do agronegócio, para quem, no entanto, os preços internacionais
muito favoráveis podem servir de compensação. Contudo, essa não é uma
hipótese que se possa generalizar.

Em outras palavras, está sendo gerada nesse setor uma crise que deve
resultar em maior desemprego no campo. Foi apontada, por fim, a necessidade
de se equacionar rapidamente a questão da infra-estrutura, sob pena de fazer
com que mesmo os ramos mais competitivos percam sua competitividade.

Seja da indústria, agroindústria ou agropecuária, ninguém falou em exportar
menos no curto prazo, mas todos concordaram que o emprego, assim como a
produção industrial local, já está arcando com o ônus de tantos desajustes.
A médio prazo, as exportações deverão declinar, senão em termos absolutos,
pelo menos em termos comparativos ao avanço do comércio mundial.


Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e Diretor Executivo do Iedi
(Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).


JC Peres



.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

   
RESENET - O Provedor Internet da Região das Agulhas Negras
Todos os direitos reservados. Proibida reprodução total ou parcial.