A
Revolução Farroupilha foi a mais longa guerra civil da história brasileira,
durando de 1835 até 1845, foram dez anos de batalhas entre Imperialistas
e Republicanos, os primeiros defendiam a manutenção do império e os
segundos lutavam pela proclamação da república brasileira.
Causas
A) Econômicas : O Rio Grande do Sul, estava
esgotado pela sequência de guerras, a última das quais tinha sido a
campanha da Cisplatina, com as estâncias e charqueadas produzindo pouco,
com os rebanhos esgotados e sem que o império brasileiro pagasse as
indenizações de guerra, apesar de locupletar-se com as exportações de
café e açúcar do centro do País. Os impostos sobre o gado em pé e sobre
a arroba de charque - principais produtos da Província - eram escorchantes.
Todos os produtos da pecuária pagavam dízimo. Cada arroba exportada
pagava 600 réis de taxa e cada légua de campo pagava 100 mil réis de
imposto anual. O pior, porém é que o centro do Brasil preferia comprar
o charque platino ao invés do rio-grandense que era produzido pelo braço
escravo das charqueadas. E, portanto, caro. O charque uruguaio ou argentino,
fruto do braço assalariado nos intervalos das infindáveis guerras e
revoluções do Prata, era vendido no Rio de Janeiro e São Paulo bem mais
barato que o charque rio-grandense.
Não se deve nessa época falar em contrabando, porque a fronteira sul
do Rio Grande era indefinida. Até bem pouco a Cisplatina era província
do império e muitos estancieiros brasileiros ou orientais tinham campos
no Uruguai e também no Rio Grande e mesmo tarde delimitadas, sendo impossível
dizer onde terminava o Brasil e onde começava a República Oriental do
Uruguai - em organização.
B) Sociais : O Rio Grande do Sul tinha 14 municípios
e cidades com suas vilas respectivas, uma população de aproximadamente
150 mil pessoas entre brancos, escravos e índios. Não havia uma escola
pública, uma ponte construída ou uma estrada em boas condições. Apesar
do seu continuado sacrifício nas guerras de fronteiras e apesar da riqueza
que o café acumulava na Corte, apesar da sangria na sua população masculina
dizimada pelas guerras, apesar do luto constante das mulheres gaúchas,
o Rio Grande do Sul não merecia qualquer atenção ou reconhecimento por
parte do império. O descontentamento era geral.
C) Políticas : O movimento farroupilha foi um
dos muitos movimentos liberais que sacudiram a Regência na 1ª metade
do século XIX, na década de 30, e alcançou de fato ser a primeira experiência
republicana em território do Brasil.
Exaltados pela independência, os brasileiros se dividiam entre Liberais
e Conservadores, havendo nas duas grandes facções subfacções de orientação
diversa. Os liberais não apenas no Rio Grande do Sul eram chamados "farroupilhas",
palavra do português castiço para designar esfarrapados. No Rio Grande
do Sul os gaúchos abrasileiraram o termo, usando mais frequemtemente
a expressão "farrapos". De uma maneira geral os maçons dominaram o Partido
Liberal no Rio Grande do Sul, adeptos da maçonaria francesa, de inspiração
republicana, que prejugava a independência dos três poderes: o Legislativo,
o Executivo e o Judiciário. Dizia-se que todas as decisões tomadas de
público pelos liberais já tinham sido em segredo tomadas no recesso
das "Lojas" maçônicas, a mais prestigiosa das quais tinha por nome "Fidelidade
e Firmeza".
Próceres liberais mantinham um estreito contato com maçons de idêntica
orientação no Uruguai e na Argentina, sendo famosa a amizade entre Bento
Gonçalves da Silva e Juan Antonio Lavalleja, prestigioso caudilho uruguaio.
Na efervescência política da Independência os rio-grandenses efetivamente
- pelo menos os líderes liberais - não viam com maus olhos a organização
do
Uruguai como um Estado independente e soberano entre Argentina e Brasil.
As causas políticas que levaram à revolução forma muitas, sobretudo
graças a inabilidade do presidente da Província, Dr. Antonio Rodrigues
Fernandes Braga, primeiro rio-grandense a ocupar tão alto posto. Fernandes
Braga denunciou Bento Gonçalves da Silva como conspirador e a recém
empossada Assembléia Provincial (20 de Abril de 1835), substituta do
antigo Conselho Geral da Província e onde o Partido Liberal tinha maioria,
exigiu que o presidente Fernandes Braga apresentasse provas e este,
em sessão secreta não pode fazê-lo. Bento Gonçalves consolidava assim
sua posição de líder liberal. Anteriormente já fora denunciado como
conspirador contra o Império pelo Mal. Sebastião Barreto Pinto, quando
se revoltara diante da famigerada e reacionária "Sociedade Militar".
Chamado a Corte nessa ocasião para se defender, voltara inocentado das
acusações e altamente prestigiado, conseguindo mesmo a nomeação de Fernandes
Braga para presidente, o qual agora lhe pagava o gesto com nova acusação...
Funcionando durante pouco mais de mês, a Assembléia Provincial, foi
sempre um caldeirão fervente. E a imprensa exaltada da época contribuia
para maior agitação: quando os conservadores criaram um jornal chamado
"A Idade de Ouro", os liberais responderam fundando "A Idade de Pau"...
Entre as causas políticas deve ser mencionada também a ligação dos liberais
com experimentados agitadores italianos, como o conde Lívio Zambecari.
D) Militares : a autoridade militar maior da
província era o Comandante das Armas, Mal.Sebastião Barreto Pinto, conservador
ferrenho e feroz inimigo de Bento Gonçalves, que fora comandante de
fronteira em Jaguarão.
Bento Gonçalves da Silva não era oficial do Exército, mas guerrilheiro
das milícias e depois da Guarda Nacional, forjado e experimentado no
campo de batalha, comandante de gaúchos que apenas se fardavam - quando
recebiam farda - nos períodos de guerra. Sua brilhante carreira de armas
desde soldado raso até coronel da Guarda Nacional era causa do ciúme
do velho marechal do exército brasileiro. Que não era bem visto pelos
grandes do Império prova o fato de que recebeu quatro condecorações
por seu feitos militares mas nunca recebeu terras nem título de nobreza,
ao contrário, por exemplo, de Manuel Marques de Souza, João da Silva
Tavares, Francisco Pedro de Abreu e do próprio Osório.
Porque
aconteceu...
-
No
final do século XVIII, era apresentado ao mundo os ideais iluministas
e liberais.
-
Na
Europa a burguesia francesa acendia ao poder após a Revolução, e
na América, os norte-americanos conhecem a independência, após longa
batalha.
-
Os
iluministas e os liberais pregavam a liberdade e a igualdade, a
livre iniciativa e a propriedade privada. Estas idéias não tardaram
em chegar ao Brasil e no início do século XIX, a monarquia brasileira
passava a ser vista como atraso ao desenvolvimento, principalmente
para a burguesia que se formava. Aconteceram diversas revoltas em
todo o país e no sul estoura a Revolução Farroupilha.
Como
começou a revolução...
-
As
idéias de autonomia e federalismo, encantam a elite brasileira e
ganham força ao natural na província de Rio Grande de São Pedro
do Sul.
-
A
distância do poder central, a condição de produtor de alimentos,
os elevados impostos pagos ao império e a recente vivência de guerras
impulsionaram o estado gaúcho a não aceitar a submissão que lhe
era imposta.
-
A
elite rural gaúcha cansada dos desmandos do centro do país e do
descaso político se rebela.
A Revolução
- Em
09 de setembro de 1836, ocorre a primeira grande batalha, Antônio
de Souza Netto, a figura mais respeitada das forças farroupilhas
depois de Bento Gonçalves, vence as tropas imperiais na Batalha
do Seival. A vitória sobre os imperiais foi tão entusiasmante, que
Netto, instigado pelos liberais exaltados, toma uma decisão: proclama
a República Rio-Grandense, separando o estado gaúcho do Brasil.
Estava finalmente declarado o caráter revolucionário do movimento
farroupilha.
Deve ser considerada Revolução apenas o movimento político-militar
que vai de 19 de setembro de 1835 a 11 de setembro de 1836, porque
era a revolta de uma província contra o Império do qual fazia parte.
A 11 de setembro de 1836 é proclamada a República Rio-Grandense e
então já não se pode mais falar em revolução, mas sim em guerra, a
luta aberta entre duas potências políticas independentes e soberanas,
uma República , de um lado, e um Império, de outro. A revolução farroupilha
explodiu a 19 de setembro de 1835 quando os liberais, depois de inúmeras
conspirações, sobretudo dentro das lojas maçônicas, partiram para
a deposição do presidente Antônio Fernandes Braga, sustentando que
este violava a lei e deveria ser substituído. Os farroupilhas Gomes
Jardim e Onofre Pires desbarataram a Guarda Municipal (núcleo inicial
da futura Brigada Militar do Estado) vindos do morro da Glória e Fernandes
Braga foge para o porto de Rio Grande, abandonando Porto Alegre. A
20 de setembro
Bento Gonçalves da Silva, vindo de Pedras Brancas (Guaíba) entra triunfante
na Capital e, na ausência dos três primeiros vice-presidentes, empossa
no governo o 4º vice-presidente, Dr. Marciano Pereira Ribeiro, nomeado
Comandante das Armas o Cel. Bento Manoel Ribeiro, homem de personalidade
difícil e caprichosa e sem convicção liberal, seguidor de seus próprios
interesses, através dos quais se unira aos farroupilhas no início
do movimento. Parece bastante evidente, nessa fase, o espírito legalista
dos farrapos, empossado na presidência da província na linha da sucessão
uma autoridade constituída, quando seria fácil a Bento Gonçalves,
por exemplo, assumir todos os poderes.
É o próprio líder farroupilha que consegue com o Rio de Janeiro e
a nomeação do novo presidente, o Deputado José Araújo Ribeiro, o qual,
assustado com a efervescência de Porto Alegre, resolveu, ao chegar
do Rio de Janeiro, empossar-se em Rio Grande... Foi o que bastou para
que os farroupilhas mais exaltados lhe retirassem o precário apoio.
Bento Manoel Ribeiro troca de lado, voltando a servir o Império e
para seu posto é nomeado o Major João Manoel de Lima e Silva e o Dr.
Marciano Pereira Ribeiro foi mantido pela Assembléia Provincial como
Presidente.
Parece bem claro: não fora a intransigência dos conservadores e do
Império a revolução poderia ter findado sem maiores vítimas.
-
Em
02 de outubro, na batalha de Fanfa, os farroupilha são derrotados.
Bento Gonçalves e outros oficiais farroupilhas são presos. Bento
é enviado como prisioneiro para o Rio de Janeiro. Lá conhece o italiano
Garibaldi que adere ao movimento farroupilha mudando-se para o sul.
-
As
forças imperiais, acreditando que a revolta havia sido sufocada,
oferece anistia aos derrotados. Mas Antônio de Souza Netto, agora
líder absoluto do movimento, mantém-se rebelado.
-
Em
05 de novembro de 1836, a câmara municipal de Piratini oficializa
a proclamação da República Rio-Grandense. Mesmo preso Bento Gonçalves
é declarado presidente do novo país, o vice nomeado é José Gomes
Jardim, que assume interinamente.
-
Em
outubro de 1837, Bento Gonçalves foge da prisão e em 16 de dezembro
assume a presidência da República.
-
O
ano de 1838, é ruim para os rebelados, os farroupilhas não tem sucesso
na reconquista de Porto Alegre e Rio Grande e sofrem importantes
baixas.
-
Em
1839, Giuseppe Garibaldi e Davi Canabarro conquistam as cidades
catarinenses de Laguna e Lages, e proclamam a "República Catarinense",
ou "República Juliana". Em 15 de novembro os farrapos são surpreendidos
e Laguna é reconquistada pelos imperiais. As embarcações rebeldes
são destruídas, somente Garibaldi escapa. A cavalaria de Canabarro
foge pelo litoral escondendo-se em Torres.
-
De
1840 em diante dois terços do exército brasileiro está no estado.
Em 1843, em sua ofensiva final, o exército brasileiro tem 11.400
combatentes.
-
Em
primeiro de março de 1845, os imperialistas, liderados por Duque
de Caxias e os republicanos farroupilhas assinam a paz de "Ponche
Verde", declarando fim aos conflitos.
Principais
pontos assinados no tratado de paz:
-
O
império pagaria as dívidas do governo republicano;
-
Os
oficiais republicanos são incorporados ao exército brasileiro;
-
Eram
declarados livres todos os escravos que tinham lutado nas tropas
republicanas;
-
Seriam
devolvidos todos os prisioneiros de guerra;
-
Foram
elevadas as taxas alfandegárias para importação do charque estrangeiro,
o que favoreceu ao charque gaúcho.
Pós
Guerra
-
Antônio
de Souza Netto muda-se para o Uruguai;
-
Davi
Canabarro luta ao lado das forças brasileiras na Guerra do Paraguai;
-
Giuseppe
Garibaldi retorna à Itália e
-
Bento
Gonçalves morre dois anos após a guerra.
Curiosidades
-
A
expressão "tchê", uma das mais típicas do linguajar gaúcho, é de
origem guarani. Tendo o sentido de "meu".
-
A
Erva Mate, também uma herança indígena, chegou a ser condenada pelos
padres Jesuítas, pois "o demônio, por meio de algum feiticeiro,
inventou-a", diziam eles. A cuia era muito parecida com a usada
hoje, mas o mesmo não se pode dizer da bomba que era feita de bambus.
-
A
palavra "gaúcho" inicialmente designava os ladrões de gado e os
malfeitores - "os homens sem lei e sem rei". Eram os "guacho", que
significa "órfão" e refere-se aos filhos de índia com o branco espanhol
ou português. Somente em meados do século XIX o termo deixou de
ser depreciativo.
-
A
população do Rio Grande do Sul em 1814 era de 70.656 pessoas, sendo
que destes, 20.611 eram escravos. A população de Porto Alegre era
de 6.111 habitantes. A maior população do Estado estava na cidade
de Rio Pardo com 10.445 pessoas.
-
Entre
1824 e 1830, chegam 5.350 imigrantes alemães que se espalham pela
região de São Leopoldo.
-
Entre
1831 e 1840, período entre a abdicação de Dom Pedro I e a maioridade
de Dom Pedro II, o Brasil é governado por regentes, dentre os quais
se destaca o Padre Feijó. Foi neste período que eclodiram divérsas
rebeliões, inclusive a Revolução Farroupilha.
Discurso de proclamação da República Rio-Grandense:
"Camaradas!
Nós, que compomos a Primeira Brigada do exército liberal, devemos ser
os primeiros a proclamar, como proclamamos, a independência dessa província,
a qual fica desligada das demais do Império e forma um Estado livre
e independente, com o título de República Rio-Grandense, e cujo manifesto
às nações civilizadas se fará oportunamente. Camaradas! Gritemos pela
primeira vez: Viva a República Rio-Grandense! Viva a independência!
Viva o exército republicano rio-grandense!" (Antônio de Souza Netto)
Principais
Combates da Revolução Farroupilha
1) Combate de Arroio Grande, 14 de outubro de 1835 - entre as forças
do legalista João Nunes da Silva Tavares e o farroupilha Antunes da
Porciúncula. Vitória legalista.
2) A 16 de outubro de 1835 - Combate entre as forças farroupilhas comandadas
por Antonio de Souza Neto e as legalistas de Silva Tavares. Vitória
farroupiha, tendo o comandante legalista fugido para o Uruguai.
3) A 2 de março de 1836 o farroupilha Lima e Silva, jovem brilhante
e impetuoso, apesar de não ser rio-grandense, derrota o seu antigo companheiro
Bento Manuel Ribeiro.
4) A 7 de abril do mesmo ano Lima e Silva obtém outra vitória, em Pelotas,
obrigando à rendição o legalista Major Marques de Souza.
5) No Passo dos Negros, ainda em abril, foi derrotado e aprisionado
o Cel. Legalista Albano de Oliveira Bueno, mais tarde assassinado por
seus carcereiros.
6) O legalista Pinto Bandeira, a 9 de abril, surpreende os farroupilhas
em Torres, derrotando-os.
7) A 12 de abril o legalista Juca Ourives é derrotado por Lima e Silva,
no Faxinal, em Viamão.
8) A 22 de abril o Cel. Onofre Pires derrota em Mostardas os legalistas
comandados pelo Capitão Francisco Pinto Bandeira, mas empana o brilho
da vitória fuzilando prisioneiros.
9) A 12 de junho Bento Gonçalves derrota no Arroio dos Ratos os imperialistas
comandados pessoalmente por Bento Manoel Ribeiro, o qual conseguiu fugir.
10) A 13 de junho o comandante farroupilha Domingos Crescêncio derrota
o legalista Silva Tavares na Lagoa Cajubá. Aos poucos, este valoroso
chefe legalista vai merecendo o apelido de "quartel ambulante dos farrapos",
porque sempre que estavam precisando de armas e cavalos estes o atacavam
e tomavam tudo...
11) 15 de junho de 1836 é uma data negra para a Revolução Farroupilha:
o Major Marques de Souza, que se rendera em Pelotas aos farroupilhas
e que estava preso no navio Presiganga, subornou seu carcereiro pernambucano
e fugiu para Porto Alegre. Na Capital, com a cumplicidade do velho Marechal
João de Deus Mena Barreto, surpreendeu os farroupilhas, apossando-se
do Palácio do Governo e expulsando-os de Porto Alegre. Nunca mais os
farroupilhas conquistariam a Capital gaúcha, a qual, por este feito,
ganhou do Império o título de "Leal e Valorosa" que hoje ostenta em
seu brasão e Marques de Souza terminou sendo designado por seu feito
Conde de Porto Alegre.
12) Bento Gonçalves, no fim de junho, pessoalmente comanda ataque e
cerco a Capital, sem resultado. O heroísmo de seus defensores é incrível,
repelindo todas as investidas farroupilhas.
13) A 12 de julho Antonio de Souza Neto, guerrilheiro notável, estancieiro
que gostava de bailes e carreiras, elegante a ponto de só entrar em
combate com uniforme de gala e ostentando todas as suas condecorações,
derrota João da Silva Tavares, o qual se vê novamente obrigado a fugir
para o Uruguai.
14) A 10 de setembro, na grande batalha do Seival, Antonio de Souza
Neto se encontra novamente com Silva Tavares, inflingindo-lhe uma derrota
aplastante. Foi tão grande o entusiasmo dos farroupilhas com esta vitória
que Antonio de Souza Neto ao que se diz estimulado por Joaquim Pedro
Soares e Manoel Lucas de Oliveira, comandantes de seus batalhões, na
manhã do dia 11 de setembro proclamou a República Rio-Grandense, declarando
separado o Rio Grande do Sul do Império do Brasil.
Aqui termina a Revolução Farroupilha.
Guerra dos Farrapos
A proclamação da República Rio-Grandense, imediatamente apoiada por
várias câmaras municipais, não era o ideal de todos os farrapos e feita
de forma como se fez, no calor de uma vitória e na data em que foi proclamada
deve ser vista apenas como circunstancial. É evidente que os seus entusiastas,
entre os quais não se contava Bento Gonçalves da Silva, esperavam ter
com a proclamação da República simpatias continentais e até mesmo européias,
especialmente do Uruguai, da Argentina, do Paraguai, dos Estados Unidos
e da França. Com isso, pelo reconhecimento diplomático e pelo estabelecimento
de relações comerciais, teriam mais condições de conseguir recursos
para mover a máquina da guerra e consolidar a República.
Mas há duas razões que não podem ser esquecidas: esses farroupilhas
que eram notoriamente republicanos sonhavam acabar com a monarquia brasileira
e tornar o Brasil uma grande Confederação Republicana. Por outro lado
acreditavam certamente que a proclamação da República assustaria a coroa
de um imperador-menino e o poder de um regente que não tinha simpatias
da Assembléia Nacional na Corte, a ponto de forçar talvez uma paz honrosa
e compensadora.
A facção republicana dos farroupilhas, que não era majoritária, se impôs
às demais diante do fato consumado. Bento Gonçalves da Silva, por exemplo,
nem teve tempo de discutir o assunto da proclamação da República, porque,
ao se dirigir ao encontro de Souza Neto, foi derrotado em pleno Jacuí,
na Ilha do Fanfa e aprisionado junto com vários companheiros, sendo
remetido para o Rio de Janeiro, para a fortaleza de Santa Cruz.
A vocação brasileira dos republicanos rio-grandenses fica bem evidenciada
pela expedição a Santa Catarina, onde proclamaram a República Juliana,
e pela recusa sistemática de receber recursos humanos dos países platinos
para combater o Império do Brasil.
Durante vários anos, nas vitórias e nas derrotas, os farrapos tentaram
organizar e consolidar a república mas o seu modelo de constituição
é uma cópia pura e simples da Constituição Liberal Brasileira. Sua moeda
era a moeda brasileira, embora emitissem bônus de guerra. A legislação
em vigor na República República Rio-Grandense era basicamente a legislação
do Império e muitas autoridades nomeadas pelo Império foram conservadas
nos cargos só sendo substituídas as que eram notoriamente inimigas dos
farrapos. Para cúmulo, o próprio Hino Rio-Grandense teve sua música
composta pelo maestro Joaquim Medanha, da banda imperial...
Ao longo das vicissitudes, muitas vezes carregando a Capital da República,
o Tesouro Nacional e até a Imprensa Oficial no lombo dos cavalos, os
farrapos organizaram o Exército (Cavalaria, Infantaria e Artilharia),
a Marinha de Guerra e a Polícia. Montaram um sistema fiscal adequado,
sem que se verificassem requisições escandalosas ou esbulhos. Construíram
escolas públicas, cidades, estradas e pontes e mais do que isso a economia
do Estado centrada no charque e na exportação do gado em pé, não sofreu
maiores abalos. Certamente graças a esses méritos, porque não houve
lesões profundas nas relações profundas nas relações com o Brasil, nem
ódios acirrados, os rio-grandenses terminarão por conseguir através
do Barão de Caxias uma paz altamente honrosa, verdadeira vitória, celebrada
em igualdade de condições, de potência a potência.
Os encontros armados entre as duas nações em luta foram numerosos ao
longo de nove anos. Mencioná-los todos seria excessivamente demorado
e, ademais, muitos historiadores já se ocuparam do assunto, como Souza
Docca e, mais recentemente, Arthur Ferreira Filho. Basta, para o presente
estudo, dizer que foram escaramuças, combates, cercos e batalhas (quando
entram em ação à cavalaria, a infantaria e a artilharia), em terra.
No mar, na Lagoa dos Patos e nos rios houve inúmeros combates navais,
onde brilhou em ação a Marinha Republicana.
Resultados
do Movimento
Por dez anos, a guerra civil prejudicou o setor pecuarista. As perdas
foram muito maiores do que os lucros políticos e econômicos do movimento.
Os pecuaristas saíram mais endividados junto aos comerciantes e banqueiros.
Propriedades rurais, gado e escravos foram perdidos e tornou-se muito
difícil repô-los posteriormente.
A paz honrosa de Poncho Verde, em 1845, acomodou as crescentes dificuldades
dos farrapos, pois não interessava ao governo monárquico reprimir uma
elite econômica. Aos oficiais do Exército farroupilha foram oferecidas
possibilidades de se incorporarem aos quadros do Exército nacional.
Líderes presos foram libertados e a anistia foi geral e imediata.
Antes e depois da Guerra dos Farrapos, os rio-grandenses lutaram contra
os platinos, defendendo militarmente os interesses da coroa portuguesa
e, a partir de 7 de setembro de 1822, os da corte brasileira. Ou seja,
interessava ao governo do Rio de Janeiro assinar o acordo de Poncho
Verde porque a
política externa brasileira ainda necessitaria dos serviços militares
(sempre disponíveis) da Guarda Nacional formada por estancieiros e peões
rio-grandenses.
Quanto à política tarifária, medidas sem expressividade e pouco duradouras
tentaram transparecer um melhor tratamento dado ao produto nacional.
A estrutura produtiva ultrapassada (baseada na escravidão) não foi alvo
de preocupações.
A sensação que existe hoje, passado um século e meio, é a de que as
motivações daquele movimento não foram superadas. Por um lado, o Rio
Grande do Sul continua em situação de mando político dependente, com
uma economia pouco beneficiada no processo de acumulação capitalista
que se reproduz no Brasil. Por outro, o Rio Grande do Sul não consegue
"enxergar o próprio umbigo" e compreender que suas dificuldades resultam
da forma como tem sido realiada sua inserção como sócio menor no sistema
capitalista brasileiro. Expressando-se de forma figurativa, o Rio Grande
do Sul continua produzindo e vendendo charque, subsidiando (perifericamente)
o funcionamento do mercado exportador brasileiro e sem cacife no processo
político-decisório nacional.
Porque
Aconteceu >>O
Rio Grande da época >>Anita
Garibaldi
>> Giuseppe
Garibaldi>>Cel
Bento Manoel Ribeiro >>Bento
Gonçalves>>Hino
Riograndense>>
|