GENERAL
DAVID MARTINS CANABARRO (1796-1867)
por Cláudio Moreira Bento
Significação
histórica
A excelente minisérie A Casa das sete mulheres ,tem levado ao
conhecimento geral num misto de História e de muita Fantasia
a História da Republica Rio Grandense 1835/45 que se constituiu
na única experiência republicana brasileira antes de ela
ser proclamada .República que influiu no Marechal Deodoro da
Fonseca, o proclamador da República em 15 de novembro de 1889
, quando ele presidiu a Província do Rio Grande do Sul durante
a Questão Militar ,através da pregação junto
a ele dos lideres Júlio de Castilhos e de Assis Brasil ,conforme
ele registrou.
A
Assis Brasil se deve a primeira abordagem da República Rio Grandense
do ponto de vista dos que a promoveram ,numa historiografia até
então dominada pelas abordagens de cunho monarquista .
Em que pese o sucesso da minisérie por nós já reconhecido
em artigo pela Internet e no informativo O Guararapes 36 - A Casa das
sete mulheres ela satanizou cruelmente as personagens Marechal Bento
Manoel Ribeiro e agora o Brigadeiro David Canabarro, heróis militares
surgidos do seio do povo e aos quais estão muito a dever, as
atuais e futuras gerações de brasileiros, conscientes
da identidade e perspectiva históricas do Brasil, por suas contribuições
à consolidação da nossa Unidade, Soberania e Integridade
do Brasil .E assim, por via de conseqüência, eles são
cultuados e lembradas as preciosas lições que legaram
à posteridade de um Brasil que não pode ser tratado por
seus filhos como uma nau sem rumo a deriva numa tempestade que não
sabe de onde veio ,onde é que esta e para onde é que vai
A seguir abordamos a real projeção na História
do Brasil do Brigadeiro David Canabarro, para que ela não seja
tomada como real na Fantasia e notável produção
da minisérie da Globo que não lhe faz justiça histórica
e da qual se espera ao final a clássica retificação:
Qualquer semelhança com o personagem da minisérie, General
David Canabarro, com o herói da História no Brasil não
tem amparo na verdade histórica e se constitui em mera fantasia
para compor o enredo .
Significação
histórica de Canabarro
Prestou
assinalados serviços militares, de soldado de Milícias
a brigadeiro do Exército Imperial, a Integridade e a Soberania
de Portugal e depois do Brasil, no Sul, nas guerras de 1811-12, pacificadora
da Banda Oriental; de 1816 e 1821, contra Artigas; guerra Cisplatina
1825-28; guerra contra Oribe e Rosas 1851-52; guerra contra Aguirre
1864 e no início da guerra do Paraguai 1865-67, contra a invasão
paraguaia do Rio Grande do Sul e, na mobilização do 3º
Corpo de Exército pelo General Osório
Na República Rio-Grandense, 1 a qual aderiu depois de proclamada,
ascendeu por seus méritos e valor militar notável, de
tenente coronel comandante de brigada, ao posto de general da República
e Comandante-em-Chefe de seu Exército na fase final, até
a pacificação em D. Pedrito atual , em 1º de março
de 1845.
Paz que aceitou, sopitando seu ideal republicano, face ao sentimento
maior de brasilidade, que tantas vezes comprovara no campo de batalha
de 1811-1828 e que seria reafirmado em 1851-52 e 1864-1867 e exacerbado
com hipótese de interferência de Rosas, da Argentina nas
divergência entre brasileiros, em 1845.
Ficaram célebres palavras a ele atribuídas de resposta
a emissário enviado pelo ditador D Manuel Rosas de auxiliá-lo
no combate aos imperiais:
"Diga a seu chefe que assinaremos a paz com o Império com
o sangue do primeiro invasor estrangeiro que atravessar a fronteira
.Pois antes de tudo somos brasileiros ."
Ao morrer pesava sob sua memória falsas acusações
de traição da Revolução, em Porongos e incompetência,
ou falta de cumprimento do dever como comandante da Fronteira do rio
Uruguai.
Isto por não impedir que a coluna invasora paraguaia penetrasse
no Brasil por São Borja e ocupasse Uruguaiana . Assim, em ambos
os casos, teria ele sido bode expiatório de duas bombas que estouraram
em suas mãos dada a simplicidade e rusticidade de sua vida não
preparada para travar batalhas de alfinetes e sim batalhas reais.
Mas a História como instrumento de verdade e justiça mostrou
sua inocência e sua real imagem como pode ser acompanhada do livro
David Canabarro de tenente a general .Porto Alegre: Martin Livreiro,1992
do grande historiador santanense Ivo Caggiani que foi o primeiro sócio
correspondente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil
e que nos considerávamos o maior historiador residente na imensa
fronteira brasileira e o maior que Santana já possuiu.
A primeira foi a de terminar a revolução com o Comandante-em-Chefe
e firmar com Caxias a paz em D.Pedrito feita com o apoio de Bento Gonçalves
em carta que lhe enviou onde a certa altura mencionava:
"Tendo emitido minha opinião, resta-me repetir-vos que a
paz é absolutamente necessária, que os meios de prosseguir
na guerra se escasseiam, o espírito público(opinião
pública) está contra qualquer idéia que tende a
prolongar seus sofrimentos, classificando de guerra caprichosa a continuação
da atual.
Uma conciliação é sempre preferível aos
azares de um derrota; a história antiga e a moderna nos fornecem
mil exemplos que não devemos desprezar.
Compenetrai-vos desta verdade e evitai quando puderdes os funestos sucessos
que vão aparecer se prevaleceram as bravatas contra os conselhos
da sã razão. Lembrai-vos que muitos que os propalam vos
abandonarão no momento do perigo."
A segunda foi ao fazer frente a invasão paraguaia do despreparado
Rio Grande, em 1865, com tropas milicianas improvisadas e mal armadas
.Acusação injusta pois ele adotou estratégia de
que era mestre consumado A Guerra a gaúcha, deixando o inimigo
se desgastar no terreno como se fora um pneu e distanciar-se de sua
base logística.
Guerra á gaúcha iniciada a praticar contra os espanhóis
depois de invadirem o Rio Grande e nele permanecerem em posições
estratégicas por 13 anos e seguindo orientação
do Rio de Janeiro :
"A guerra contra o invasor será feita em pequenas patrulhas
localizadas nas matas e nos passos dos rios e arroios .Destes locais
sairão ao encontro dos invasores para os surpreender, causar-lhes
baixas ,arruinar-lhes gados, cavalhadas e suprimentos e ainda trazer-lhes
em constante inquietação."
Mas, ao excepcional valor militar de Canabarro deve o Brasil e a família
Brasileira, significativa parte de sua pacificação em
condições honrosas em D. Pedrito atual .
Não fora sua destacada ação militar como Comandante-em-Chefe
da República Rio-Grandense, no período em que o Barão
de Caxias comandou o Exército e presidiu o Rio Grande do Sul,
a Corte não teria se convencido de aprovar a paz nas condições
em que foram celebradas, pois teriam predominado algumas disposições
acentuadamente revanchistas. Constatar isto basta verificar os Ofícios
de Caxias 1842-1845 os quais revelam algumas de suas perplexidades com
o excepcional tino militar guerrilheiro de Canabarro.
Daí surgiu uma admiração militar recíproca
que , concluída a Paz se transformou em amizade e respeito.
Origem,
guerreiro nato
Nosso
herói em 22 de agosto de 1796, em Pinheiros, próximo a
Taquari, povoação que se originara, durante a guerra 1764-76,
de uma povoação sob proteção do Forte do
Tebiquari levantado então e destinado a barrar, naquele ponto,
a direção estratégica Rio-Pardo, Taquari, Porto
Alegre.
Descendia de imigrantes açorianos da ilha Terceira. Passou a
assinar Canabarro depois de desmobilizado da Guerra Cisplatina. Nome
adotado de seu tio e sócio em pecuária, Antônio
Ferreira. Canabarro casou formalmente duas vezes no âmbito familiar
.A primeira vez com uma tia mais velha para que amparasse sua única
filha e natural perfilhada Maria Angélica nascida em 1834 e a
2a vez com sua cunhada viuva e pouco dias antes de morrer e com vistas
a preservar na família o patrimônio acumulado .Sua vida
em realidade foi de homem solteiro com ligações amorosas
alternadas sem ser o galã e conquistador que se procura deduzir
da obra Os amores de David Canabarro. Porto Alegre:Globo,1933.
Atuação
militar 1811-1828
Canabarro,
cedendo a vocação das armas, com 17 anos incompletos alistou-se
um Regimento das Milícias de Rio Pardo e participou do Exército
Pacificador de D. Diogo de Souza que fez a Campanha de 1811-12, onde
foi promovido a cabo. Nas guerras contra Artigas em 1816 e 1820 continuou
a se destacar como guerreiro de Cavalaria, como nos estreveros de Catalan.
Na Guerra Cisplatina 1825-28, conquistou seus galões de tenente
no combate de Rincón das Galinhas, de 24 de setembro de 1825.
Na Batalha de Passo do Rosário integrou o 4º Regimento de
Cavalaria da 2ª Linha, que fez parte da 2ª Brigada de Cavalaria
da 2ª Divisão de Infantaria.
Esta ao comando do Marechal Sebastião Barreto. Isto talvez explique
a sua não participação da Revolução
Farroupilha em seu início e que teve como objetivo derrubar seu
comandante de Divisão. Sabe-se que não se relacionava
bem com Bento Manuel Ribeiro.
Finda a guerra em 1831 fixou-se com estância em São Gregório
próximo a Santana atual junto a fronteira do Quaraí para
dedicar-se à pecuária.
Canabarro manteve-se neutro na revolução, sendo por isto
ameaçado por representante de Bento Manuel.
Ao passar Bento Manoel para o lado imperial, Canabarro decidiu lutar
pela revolução sob o argumento:
" Antes que me matem com um cevado (porco), prefiro morrer em campo
aberto de armas na mão."
Canabarro juntou-se a gente do alegretense Tenente Coronel Jacinto Guedes
que se tornou legendário por sua bravura e intrepidez e pelo
lema que incutiu em seus soldados que traziam inscritos em seus chapéus
:
" Sou do Guedes; morro seco e não me entrego! "
Ficou também sob o comando do Coronel José Antônio
da Silveira grande figura humana e símbolo da prudência
e mais tarde general farroupilha.
Ao ser organizado o Exército da República Rio-Grandense,
em 8 de novembro de 1836, em Piratini, pelo 1o General farrapo João
Manoel de Lima e Silva( tio do Duque de Caxias ), Canabarro foi promovido
a tenente coronel e passou a integrar a 4ª Brigada, comandada pelo
citado Coronel João Antônio e constituído dos:
3º Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional de Missões. Comandante
Tenente Coronel Jacinto Guedes.
4º Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional de Missões. Comandante
Tenente Coronel David Canabarro.
Traços
do perfil militar de Canabarro
O
Monsenhor Pinto de Campos, biógrafo de Caxias e contemporâneo
de Canabarro, sobre ele escreveu:
" Havia incontestavelmente neste homem talento militar, auxiliado
por muita energia, decisão e concepção variada
e vasta. Era um Proteu, revestindo-se de mil formas e imaginando constante
e sucessivamente novos ardis."
Sobre Canabarro escreveu Caldeira , o cronista farrapo que o conheceu
e a justa fama que gozava:
" Canabarro foi o general mais severo da revolução.
Mantinha ordem e boa disciplina nas forças que comandava. Era
um general arrojado. Marchava com denodo na frente de Caxias, sem que
este general conseguisse batê-lo em campo raso.
Canabarro era um homem alto e cheio de corpo. Não era ilustrado
(culto)porém era muito perspicaz, enérgico e muito audaz.
Era muito respeitado. O inimigo sempre o considerava como bom guerreiro.
Ele possuía a melhor gente da fronteira consigo."
Caldeira em outro depoimento acrescentado sobre Canabarro, depois de
dizer que ele servira na Guerra Cisplatina onde fizera proezas na retaguarda
de nosso Exército em retirada para o passo São Lourenço,
no Jacuí, depois de Passo do Rosário. E prosseguiu:
" Era homem de um caráter muito severo. Era valente a toda
prova e muito perspicaz. Durante a revolução nunca foi
derrotado. Somente em Porongos perdeu parte de tropa que comandava.
Quando Caxias estava em seu encalço ele mais severo se tornou.
E chegava a dizer aos oficiais faltosos, caso repetissem outras faltas
que ele dava duas alternativas, prisão, ou liberdade de desertar
para Caxias e apontava para o acampamento imperial.
Era homem de poucas palavras e positivo. A sua vontade era de ferro.
Depois da pacificação foi o primeiro homem da Fronteira
do Quaraí. Dizia que não era homem do primeiro informe
(versão) e que era preciso ouvir as partes. Ele falava português
pelo dicionário Rio-Grandense ou seja o linguajar gauchesco típico
de época."
Segundo Alfredo Varela, "Canabarro era de constituição
robusta, de estatura avantajada, grosso de corpo e de feições
carregadas." 5 e para Garibaldi , "Canabarro era rude na aparência,
mas de excelente coração.
Era um mestre na guerra de guerrilhas das cochilas. Fugia ao combate
decisivo e fazia a guerra de recursos, a Guerra á gaúcha
consistente em fatigar o inimigo ao danificar-lhe o equipamento, arruinar
suas cavalhadas e mantê-lo sob a tensão de uma surpresa.
Antônio Vicente da Fontoura, que liderou a reação
contra Bento Gonçalves a partir de 1841 culpando-o por inúmeros
insucessos militares e que ao final teve papel importante na Paz de
D. Pedrito, assim referiu ao comportamento de Canabarro como comandante
do II Corpo de Exército.
" Canabarro era laborioso, ativo e enérgico, prevendo as
marchas e os planos do inimigo e suprindo a nudez e provação
do soldado. Em marcha, já em um e outro flanco, já na
retaguarda e logo na frente, fazendo conservar a ordem dos esquadrões
e a regularidade das colunas, infundindo ao soldado, enregelado de frio,
um novo brio, uma audácia ,mesmo contra o rigor da estação."
7 .Possuía rusticidade(endurance ) invulgar que infundia a sua
tropa e grande capacidade de manobrar e de amplos deslocamentos .
Com os combates de Taquari, de 3 de maio de 1840, de São José
do Norte de 15 de julho de 1840 e de setembro a 23 de novembro de 1840
os insucessos atribuídos a Bento Gonçalves, pela oposição,
em razão das vitoriosas operações contra o General
Pedro Labatut na região de Cima da Serra, comandadas por Canabarro,
este passou a ter grande prestígio.
A este tempo os republicanos lutavam sem Infantaria e bom suporte logístico.
Bento Gonçalves não os possuía suficientes, isto
era agravado pelo efetivo da tropa de 1ª Linha reduzido a 1/3 e
a situação logística péssima em razão
do grande endividamento interno e externo da República.
O prestígio de Canabarro foi crescendo até colocar sombra
em Bento Gonçalves e mais tarde em Netto.
No último, por este não ter interferido na marcha de Caxias
de Rio Grande até Passo de Lourenço, levando 5.000 cavalos.
Principais
feitos de Canabarro
Canabarro
numa atividade incrível percorreu o Rio Grande, do qual tinha
o mapa na cabeça, em todos os sentidos. Dentre seus maiores feitos
amplamente abordados em histórias do decênio, registro:
Prisão em Herval em 17 de dezembro de 1836, de surpresa, do Coronel
João Silva Tavares, um dos mais destacados chefes imperiais.8
Em 1838, restabeleceu o sítio de Porto Alegre.
Comandou expedição a Laguna, em julho de 1839 levando
o Coronel Joaquim Teixeira Nunes e seus célebres Corpo de Lanceiros
Negros para a conquista de um porto de mar do que resultou a proclamação
da efêmera República Juliana e sua aclamação
como general.
Paz
de D. Pedrito
Canabarro
ao assumir o Comandante - em - Chefe do Exército da República
em agosto de 1843, em que pese dificuldades de toda a ordem, manteve
sua tropa em movimentação e atividade constantes, através
da guerra de guerrilhas e por cerca de 16 meses. Teve 21 encontros com
os imperiais. Canabarro lutou como só haviam feito os republicanos
em 1836 e 1837.
Foi mais de um combate por mês, segundo estatística de
Morivalde Calvet . Fagundes. 9
Caxias o perseguiu por 38 léguas, através de toda a fronteira
sudoeste, sem conseguir um encontro com Canabarro, que tentava repetir
a tática vitoriosa contra o General Manoel Jorge, em 1841, a
guerra à gaúcha que abordamos na Revista do CIPEL de 1996
.
Em 13 de novembro de 1844, Canabarro foi surpreendido e, Porongos, por
Chico Pedro. Esta surpresa foi por longos tempos discutida pelos farrapos.
"Fomos ou não traídos em Porongos?"
Surpresa que não foi mais completa graças a reação
do Cel Teixeira Nunes e do seus lanceiros negros que ali apresentaram
uma resistência a todo o custo, salvando da derrota a honra da
moribunda Republica
Em defesa de Canabarro tem saído entre outros Eugênio Vilhena
de Moraes, o biografo de Caxias e Alfredo Ferreira Rodrigues e outros
David Canabarro o último Comandante - em -Chefe do Exército
Farrapo recusou o apoio de Rosas da Argentina para continuar a luta.
Sopitando seu ideal de República face ao perigo de intervenção
estrangeira, segundo a tradição, teria respondido ao emissário
de Rosas à proposta de apoio estrangeiro de que com o sangue
do primeiro estrangeiro que atravessar a fronteira celebraremos a paz
com Império. Acima de nosso sentimento republicano está
o de brasilidade".
Tem-se apoiado alguns, em instruções que teriam sido dadas
pelo Barão de Caxias a Chico Pedro, nas quais Canabarro seria
conivente com o ataque de Porongos. É uma agressão injusta
contra Caxias, Canabarro e Chico Pedro.
Até hoje não foi aprovada a autenticidade do documento,
em realidade um documento forgicado. 10 É incluído por
dedução nas injustas suspeitas o Coronel Lucas de Oliveira.
Acertada a pacificação, Canabarro, em 28 de fevereiro
de 1845, assinava e fazia divulgar esta proclamação ao
Exército da República:11 Hei-la:
"Concidadãos ! Competentemente autorizado pelo Magistrado
Civil a quem obedecíamos e na qualidade de Comandante - em -Chefe,
concordando com unânime vontade de todos os oficiais da força
de meu Comando, vos declaro que a guerra civil que há mais de
nove anos devastava este país está acabada.
A cadeia dos sucessos por que passam todas as revoluções
tem transviado o fim político a que nos dirigimos, e hoje, a
continuação de uma guerra tal, seria o ultimatum da destruição
e do aniquilamento de nossa terra.
Um poder estranho ameaça a integridade do Império; e tão
estólida ousadia jamais deixaria de ecoar em nossos corações
brasileiros.
O Rio Grande não será teatro de suas iniqüidade,
nós partilharemos a glória de sacrificar os ressentimentos
criados no furor dos partidos, ao bem geral do Brasil.
"Concidadãos ! Ao desprender-me do grau que me havia confiado
o poder que dirigia a revolução, cumpre assegurar-vos
que podeis volver tranqüilos ao seio de vossas famílias.
Vossa segurança individual e de propriedade está garantida
pela palavra sagrada do Monarca, e o apreço de vossas virtudes
confiado ao seu magnânimo coração.
União, fraternidade, respeito às Leis e eterna gratidão
ao ínclito Presidente da Província, o Ilmo e Exmo Sr.
Barão de Caxias, pelos afanosos esforços que há
feito na pacificação da Província.
Campo em Ponche Verde, 28 de fevereiro de 1845.
Ass: David Canabarro
No
dia seguinte o Barão de Caxias, em seu acampamento em D.Pedrito,
na margem direita do rio Santa Maria , 1º de março de 1845,
difundiu proclamação que representava , além da
Paz da Revolução Farroupilha, a pacificação
da Família Brasileira atingida pelas revoluções
liberais que ameaçaram incendiar o Brasil de Norte a Sul, durante
14 longos e sofridos anos de lutas fratricidas.
Da proclamação de Caxias retiro estas sentenças:
"Uma só vontade nos una, Rios-Grandenses. Maldição
eterna a quem ousar recordar-se das nossas disenções.
União e Tranqüilidade seja de hoje em diante nossa Divisa."12
Preciosa lição da História não respeitada
pelos vencidos na Luta Armada urbana e rural levada a efeito no Brasil
,em decorrência da Revolução Democrática
de 1964
Trechos das proclamações de Canabarro e Caxias fiadoras
da paz de D .Pedrito, em termos honrosos , estão gravadas em
bronze, juntas e em destaque, no hall da entrada principal do Clube
Militar, do Rio de Janeiro, para reflexão e admiração
de todos quanto pela primeira vez por ali adentram o Clube Militar.
Em que pese os grandes prejuízos causados pela Revolução
Farroupilha, não se pode deixar de reconhecer que ela foi um
laboratório para as guerras externas de 1851-52 e 1865-70 que
formou excelentes chefes e soldados da Cavalaria mais famosa da América,
a Rio-Grandense, fato exaltado por Garibaldi em suas Memórias
e que Caxias sempre reconheceu e escreveu a propósito da morte
do General Andrade Neves.
Face a ameaça de um valor maior a Integridade e a Soberania nacionais,
calou no coração dos rio - grandenses o ideal de República,
adiado por 44 anos.
De
novo em defesa da Soberania e Integridade
Por
ocasião de guerra contra Oribe e Rosas, Davi Canabarro foi nomeado
coronel comandante da Guarda Nacional de Alegrete e Uruguaiana. Lá
deu todo apoio ao Marquês de Caxias e ao agora seu Ajudante General
do Exército, o Coronel José Mariano de Mattos, ex-ministro
farrapo bem como, ao Chefe do Estado - Maior de Caxias e Ministro da
Guerra do Império em 1864,e o Coronel Miguel Frias que fora líder
de um movimento revolucionário, no Rio e que depois assessorou
Caxias como Ajudante General na Pacificação do Rio Grande
de 1842-45.
Canabarro recebeu o comando da 4ª Divisão, ou Divisão
Ligeira, integrada pelas seguintes brigadas: 13
13ª Brigada - comandante Coronel GN Demérito Ribeiro, antigo
companheiro de Bento Manuel, que efetuou a prisão do Presidente
da Província Brigadeiro Antero de Brito em Itapevi e que depois
do combate de Ponche Verde voltou a lutar pelo Império.
Era constituído de guardas nacionais alegretenses e gabrielenses
(2 corpos).
"Da
data 18 de novembro de 1866, em que Caxias assumiu o comando do Exército
Brasileiro, até a morte de Canabarro, decorreram cerca de 4 meses.
Neste ínterim, Canabarro teve a alegria do reconhecimento nacional,
traduzido por Caxias a quem a conhecia e reconhecia competência
militar, ao restaurar-lhe no comando da Fronteira e permitir-lhe prestar
à defesa da Integridade do Brasil, o concurso de seu prestígio,
na mobilização do 3º Corpo de Exército, em
auxílio a Osório que levou o citado Corpo para Teatro
da Guerra.
Sofreu bastante, por longos anos, o intrépido campeão,
as injustiças de traição, em Porongos e de incompetência
e inércia, quando da invasão do Rio Grande do Sul pelos
paraguaios. E mais, a imerecida pecha de conquistador. Acusações
de que foi inocentado por Alfredo Rodrigues, Danton Garrastazú
Teixeira e Morivalde Calvet Fagundes. 15
Os Anais do Arquivo Histórico do RS 8v, fornecem interessantes
informações sobre a atuação de Canabarro.
Ele esteve presente com sua Cavalaria na rendição dos
paraguaios em Uruguaiana aos 68 anos .
A
morte do herói
Depois
se retirou para a sua estancia de São Gregório em Santana
.E nesta em 25 de março foi ferido num pé quando executava
numa mangueira um atividade campeira ,Pequeno ferimento que evolui para
um grave infeção que terminou por mata - lo.
Jornal do Rio de Janeiro assim noticiou sua morte:
"Tendo sido um notável caudilho da revolução
por que passou esta Província, na qual adquiriu a reputação
de bravo e habilidoso para a guerra, desceu ao túmulo, acompanhado
de graves acusações que a história um dia decifrará
se foram merecidas ou injustas."
História é verdade e justiça e ela provou que as
graves acusações a este bravo e autêntico herói
militar e filho adotivo de Santana foram injustas e diria covardes !
(x)
Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil
e do Instituto de História e Tradições do Rio Grande
do Sul
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