BICENTENÁRIO
DO GENERAL ANTÔNIO DE SOUZA NETTO (1803-1866)
(
Transcorreu em 25 de maio de 2003 , o bicentenário de nascimento
em Rio Grande- RS ,do proclamador da Republica Rio Grandense e comandante
da Vanguarda do Exército de Osório na invasão
do Paraguai e de atuação destacada na vitória
brasileira em Tuiuti, em 24 de maio de 1866, a maior batalha campal
da América do Sul. A seguir sua real imagem que foi bastante
fantasiada pela excelente minissérie A casa das sete mulheres
)
Cel Cláudio Moreira Bento
Significação histórica
O General Netto prestou assinalados serviços à Integridade
e a Soberania do Brasil nas guerras da Cisplatina 1825-28, contra Aguirre
1864 e da Tríplice Aliança contra o Paraguai, de 1865-66:
Na guerra da Cisplatina, como jovem e intrépido capitão
de Cavalaria da Guarda Nacional, na cobertura de nossa Fronteira, no
corte do rio Jaguarão.
Na Guerra contra Aguirre, 1864, no comando da Brigada de Cavalaria Ligeira
que fez a Vanguarda do Exército Brasileiro, ocasião em
que se destacou na conquista de Paissandú.
Na Guerra do Paraguai, no comando de uma Brigada de Cavalaria Ligeira
de Voluntários, fazendo a vanguarda do Exército Brasileiro,
ao comando de Osório, de Uruguaiana até Tuiuti.
Foi dos primeiros, junto com o General Osório a pisar no solo
adversário, em Passo do Rosário, em 16 de abril de 1866.
Em 24 de maio de 1866, por ocasião da batalha de Tuiuti, a maior
batalha campal da América do Sul, desempenhou com seus cavalarianos
montando cavalos amilhados, importante função tática
em Potrero Pires, de grande significação para aquela vitória
de nossas armas ao conter uma tentativa de envolvimento de nosso Exército.
E logo depois dessa batalha, aos 63 anos que este grande campeador da
Liberdade e da República veio a morrer vítima da febre
e assim imolado em defesa da Soberania e Integridade do Brasil.
Na Revolução Farroupilha, foi a segunda figura militar,
depois de seu grande amigo, o general Bento Gonçalves.
Iniciando a Revolução em 1835 como capitão da Guarda
Nacional ascendeu, por seu valor e liderança, ao posto de general
da República pela qual lutou como ninguém e sem descanso,
do primeiro ao último dia, ou até a Paz de Ponche Verde
que referendou, após o que foi residir no Uruguai, por ser o
Império incompatível com o seu ideal.
Foi o maior cavaleiro e tornou-se o maior líder de combate da
Cavalaria da República Rio Grandense. Comandou a Brigada Liberal
integrada por filhos dos atuais municípios de Piratini, Canguçu,
Pedro Osório, Pinheiro Machado e Bagé, até o Pirai,
no combate de Seival, de 10 de setembro de 1836, o maior feito das armas
dos republicanos, que criou condições para ele proclamar
a República Rio- Grandense, em 11 de setembro de 1836. Em Seival
recebeu o reforço do Corpo de Lanceiros Negros recém criado.
Seival foi um fato auspicioso que reacendeu a chama da esperança,
num período extremamente adverso à Revolução
Farroupilha, assinalado por derrotas frustrantes e a prisão de
Bento Gonçalves, na ilha de Fanfa, em 4 de outubro de 1836, por
Bento Manuel Ribeiro.
Netto desempenhou por largo tempo, até a fuga de Bento Gonçalves
da Bahia, as funções de Comandante- em- Chefe do Exército
interino . E , com retorno de Bento, à liderança da Revolução
as funções de Chefe do Estado- Maior do Exército
da República Rio- Grandense.
Desde 1866, os restos do grande campeão rio- grandense voltaram
ao Rio Grande do Sul, do Teatro da Guerra do Paraguai. Estão
descansando em Bagé, ao lado dos de Silva Tavares, seu adversário
um dia em Seival, mas com ele unido, hoje, na glória pela coerência
na defesa leal de suas verdades - a República para Netto e, o
Império, para Silva Tavares e na grande verdade comum aos dois
ilustres soldados - a defesa intransigente da Integridade, da Soberania
e da Honra do Brasil.
Origem,
ascendência e estudos
Nasceu
em 25 de maio de 1803, na estância paterna, em Capão Seco,
no distrito de Povo Novo, da atual cidade de Rio Grande, portanto, rio-
grandino de nascimento. Lá e lembrado pelo CTG General Netto
(de Povo Novo).
Era filho de José de Souza Netto, natural de Estreito e de Teutônia
Bueno, natural de Vacaria. Era neto de Francisco Souza, natural de Colônia
do Sacramento. O seu bisavô - Francisco de Souza Soares, fora
oficial de Auxiliares no Terço Auxiliar de Colônia e que
casara, em 1791, com Ana Marques de Souza, na capela da Fortaleza São
João, ao lado da qual foi fundada a cidade do Rio de Janeiro,
por Estácio de Sá
Descendia , pelo lado materno, do português João Ramalho
que vivia em São Paulo, antes do povoamento e que casou coma
índia Bartira (Isabel) filha do cacique Tibiriça. Também
pelo lado materno, descendia do paulista Capitão-mor Armador
Bueno, figura muito
O avô de Netto, Salvador Bueno da Fonseca, nascido em São
Paulo, em 1724, fora estancieiro em Vacaria.
Segundo Simões Lopes Neto no nº 4 da Revista do Centenário
de Pelotas, 1912, dedicada a Canguçu, a família Bueno
fora atacada por índios em Vacaria, vindo para Canguçu
alguns de seus remanescentes. Netto era do ramo dos Marques de Souza.
Portanto, possuía rara estirpe genealógica que incluía
os Leme da ilha da Madeira e que se fixaram em São Paulo. Os
Buenos eram de ascendência espanhola.
Netto fez seus estudos iniciais na incipiente, mas muito progressiva
Freguesia de São Francisco de Paula( Pelotas atual). Morava na
margem do São Gonçalo, junto ao histórico passo
dos Negros, então chamado Passo Rico, pela imensa riqueza que
por ali passava e que pagava impostos à Fazenda de Portugal.
Antes chamou-se passo das Neves, segundo Barbosa Lessa.
Adiantando-se nos estudos, residiu largo tempo em São Francisco
de Paula, na época, talvez a povoação que assinalava
maior progresso depois da expulsão dos espanhóis da Vila
de Rio Grande, em 1º de abril de 1776, no dia São Francisco
de Paula, razão do nome primitivo de Pelotas.
Homem feito foi se estabeleceu em Bagé, fundada em 1811-12 por
D. Diogo de Souza, e dali no atual Uruguai quando este foi incorporado
ao Brasil com o nome de Província Cisplatina de 1821-28.
Nesta época, em Bagé estabeleceu-se com estância.
Dedicou-se à compra e venda de gado e a seu hobby, a criação
de cavalos para corridas (ou parilheiros para cancha reta).
Como comerciante de gado, criador e desportista (carreirista), percorreu
o Rio Grande e o Uruguai atuais, onde estabeleceu largo círculo
de amizades e despertou admiração.
Era exímio cavaleiro e dançava muito bem, além
de possuir muito boa figura. Era o que se diria hoje, um "boa pinta"
e um grande partido. E solteiro permaneceu muito tempo e sempre disputado
pelas mulheres.
Na
defesa da Integridade, no Jaguarão
Sua
vocação guerreira despertou cedo. Na guerra Cisplatina
1825-28, foi nomeado capitão de Milícias, encarregado
da vigilância e defesa da Fronteira, por duas vezes invadida pelo
general Alvear, por Aceguá.
Data daí o início de uma sólida amizade e admiração
recíproca com Bento Gonçalves, que nesta guerra teve saliente
papel. na proteção da junção do Exército
do Sul, no arroio Lexiguana, em 5 de fevereiro de 1827. Exército
que em feito estratégico brilhante aí se interpôs
entre Alvear, em Bagé, e os principais centros do Rio Grande
e que na própria Batalha do Passo do Rosário, de 20 de
fevereiro de 1827, coube-lhe comandar a Ala Direta do Exército
do Sul e cobrir a retirada para o passo São Lourenço,
no Jacuí.
Com a Regência, por Lei de 18 de agosto de 1831, foram extintas
as Milícias e em seu lugar criada a Guarda Nacional. Esta subordinada
ao Ministro da Justiça.
Netto
na eclosão da Revolução Farroupilha
Quando
estourou a Revolução Farroupilha, Netto aos 28 anos, era
comandante do Corpo da Guarda Nacional do Piratini, composto de 2 esquadrões,
ou 4 Companhias recrutadas em Piratini, Canguçu, Cerrito atual
e Bagé até Piraí que abrangiam, à época,
o município de Piratini, criado em 1831, cuja sede seriai a primeira
capital da República Rio- Grandense que viria a ser proclamada,
em 11 de setembro de 1836, após a memorável vitória
de Seival do dia anterior. Vitória obtida com o Corpo da Guarda
Nacional citado, transformado no início da revolução
em Brigada Liberal e reforço do incipiente Corpo de Lanceiros
Negros.
Com a organização do Exército da República,
em 2 de novembro de 1836, sob a égide do General João
Manoel de Lima e Silva, o primeiro
Esta unidade, mais tarde, em espírito ou por tradição,
foi mobilizada e atuou nas guerras externas contra Oribe e Rosas 1851-1852
e contra Aguirre 1865 e contra Solano Lopez do Paraguai, em 1865-1870,
integrada por muitos republicanos farrapos que pegaram em armas em defesa
do Brasil e não do Império.
Traços do perfil militar de Netto
Caldeira,
o cronista farrapo que viveu em Canguçu , onde escreveu sobre
o que testemunhou como revolucionário farrapos e que muito conviveu
com Netto, assim definiu seu perfil militar:
"Netto, este oficial era um dos mais bem apessoados que havia na
República Rio-Grandense. Era um dos fiéis amigos que Bento
Gonçalves tinha nas nossas fileiras. Antes da revolução
tinha o posto de capitão da Guarda Nacional. Era um dos valentes
daquele tempo e dava muita importância ao homem valente. Conquanto
não fosse muito estratégico, sabia fazer a guerra (tático).
Era um bom general de Cavalaria, no que diferia de Bento Gonçalves
que sabia manobrar um Exército composto de três armas.
Netto era prudente, atencioso, de bom trato e muito estimado. Foi um
dos primeiros que Bento Gonçalves contou para fazer a revolução
e foi dos últimos que dela se retirou. Isto é retirou-se
quando foi assinada a Paz de Ponche Verde (1º de março de
1845). Felizmente salvou-se da cilada de Porongos. Foi ele que sustentou
a Revolução na ausência de Bento Gonçalves
e a quem o inimigo sempre respeitou."
E completa o depoente noutra parte.:
"Antônio Souza Netto foi o general que soube desempenhar
o seu posto com muita honra e denodo. Atacava o inimigo indo à
frente de sua coluna de espada em punho. Era general muito resoluto
na ocasião do ataque. Era senhor da espada, muito alto e apessoado,
muito reservado, sério e reflexivo. Amigo de seus amigos. Ele
era um herói ! ".
Netto participou pessoalmente de muitas lutas vitoriosas e insucessos,
sem esmorecimentos. Nenhum general farrapo lutou mais que ele. Constatar
isto basta ler-se as obras sobre a Revolução de Alfredo
Varela, Assis Brasil, Arthur Ferreira Filho, Dante de Laytano, Morivalde
Calvet Fagundes, Souza Docca e Walter Spalding
Em 10 de setembro de 1836 impôs fragorosa derrota aos imperiais,
no Seival, comandados pelo Coronel João da Silva Tavares, mais
tarde Visconde de Cerro Alegre. Personagem que mereceu do Dr. Álvaro
Tavares de Souza e Tarcísio Taborda, bons estudos que fazem justiça
a este ilustre soldado que soube defender com brio e valor a sua verdade,
quase sozinho, no início da Revolução.
Segundo Arthur Ferreira Filho, na manhã do combate de Seival:
"Netto montado em seu cavalo, aperado (enfeitado) de prataria e
de espada em punho, conduz sua Brigada Liberal na direção
do adversário. Ao avisar a cavalaria imperial, ordenou a sua
Cavalaria : - Não quero ouvir só um tiro. - Vamos acabar
com isto, a espada e a lança !
E prossegue , "Então foi realizado o mais brilhante feito
das armas farroupilhas" ,
No dia seguinte, 11 de setembro, no Campo do Menezes, Netto proclamou
a República Rio- Grandense. Em 4 de outubro de 1836, decorridos
pouco mais de 20 dias da proclamação, Bento Gonçalves
foi feito prisioneiro na ilha do Fanfa e enviado preso para o Rio e
depois Bahia. No início de agosto fora levantado o bloqueio farrapo
da entrada do Guaíba, na região de Itapoã..
Em 17 de outubro de 1836, João Manoel de Lima e Silva desocupou
Pelotas e rumou para Piratini.
Em 6 de novembro, em Piratini, foi instalada a República Rio-
Grandense, eleito Bento Gonçalves, ausente, para seu Presidente
e Comandante- em- Chefe do Exército. Instituição
organizada por Decreto de 8 de novembro e 1836, de inspiração
de João Manoel de Lima e Silva, eleito o primeiro general do
Exército Rio- Grandense que organizou, além de ser nomeado
Comandante- em- Chefe interino. A Netto, de fato, coube a liderança
político- militar na ausência de Bento Gonçalves
e o comando da 1ª Brigada de Cavalaria da República( a que
vencera em Seival)
A sabedoria popular captou e definiu esta realidade através de
quadra popular que dizia:
"Bento Gonçalves foi preso, foi desterrado, mas deixou o
bravo Netto para cumprir os seus tratados."
E de fato, ao fugir da Bahia e chegar ao Sul, Bento Gonçalves
assumiu a Presidência e o Comando- em- Chefe. Este vinha sendo
exercido inteiramente por Netto, desde 7 de dezembro de 1836, quando
lhe foi passado pelo General João Manoel de Lima e Silva que
o exercera de 1º de novembro a 7 de dezembro de 1836, quando, por
doença que lhe dificultava o pleno exercício funcional
teve de internar-se no Uruguai, a conselho do seu grande e verdadeiro
amigo, o Major José Mariano de Mattos, então Ministro
da Guerra farrapo e mais tarde Ministro da Guerra do Império
em 1864.
Pouco depois o Exército da República teve de internar-se
no Uruguai pelo passo do Centurión do Jaguarão em princípios
de janeiro de 1837, na mesma época que ao norte do Rio Grande
o coronel republicano Agostinho Mello até 13 de fevereiro atuou
em Santo Amaro e Rio Pardo.
Netto,
Chefe do Estado- Maior do Exército da República
Com
o retorno de Bento Gonçalves, Netto passou a ser o seu braço
militar no exercício das funções de Chefe do Estado-
Maior do Exército , e já general desde janeiro de 1837.
Em 18 de agosto de 1837, em ataque vitorioso a Triunfo, terra natal
de Bento Gonçalves, Netto comoveu-se com a heroicidade do coronel
do Exército Imperial Gabriel Gomes Ribeiro, que escolheu morrer
lutando de espada em punho, numa batalha desigual "do que rendê-la
a rebeldes".
Neto, então formou sua tropa e a fez desfilar respeitosa em honra
e continência ao herói que soubera lutar e morrer heroicamente
por sua verdade, conforme conta-nos Fernando Castro Freitas.
Netto dava então uma demonstração que além
de cavaleiro, o melhor do mundo segundo Garibaldi era um grande cavalheiro.
Este seu gesto lembra o de alguns pilotos na 1a Guerra Mundial, que
depois de abaterem um adversário, sobrevoavam a aeronave abatida,
não em escárnio, mas em tributo à coragem e ao
valor da "águia abatida.
Netto era a síntese do autêntico gaúcho histórico
brasileiro. Em Triunfo deu demonstração das virtudes dos
farrapos de Firmeza e Doçura. Firmeza ao lutar com garra e denodo.
Doçura depois do combate demonstrado pelo respeito, ao gesto
heróico e nobre do vencido, ao morrer lutando por sua verdade.
Ele admirava a valentia onde ela despontasse.
Sobre o exímio cavaleiro e talvez o maior dentre os farrapos,
escreveu Garibaldi "que montar tão bem um cavalo, não
vi ninguém que superasse Bento Gonçalves a não
ser o general Netto - modelo completo para um cavaleiro..."ou ginete.
Antes e depois das guerras contra Oribe e Rosas de 1851-52, Netto esteve
duas vezes no Rio na defesa de interesses de 40.000 brasileiros, no
Uruguai.
Numa delas propiciou à Família Real, na Quinta da Boa
Vista, uma memorável demonstração de equitação
gaúcha (gineteada) no qual gozava a merecida fama de virtuose.
Fama que já chegara ao Rio. Foi muito aplaudido e admirado pelos
assistentes.
Netto depois da vitória de São Felipe, em 18 de novembro
de 1840, assim respondeu as sondagens de pacificação de
Domingos José de Almeida:
"Diga ao general Bento Gonçalves que enquanto tivermos 1.000
piratinenses e 2.000 cavalos a resposta e está: E bateu nos copos
da espada com a mão direita".
Piratinenses na época eram os filhos hoje de Piratini, Canguçu,
Cerrito, Pedro Osório, Pinheiro Machado e Bagé até
o Piraí e outros surgidos de Bagé.
Por ocasião da discutida surpresa de Porongos da qual escapou
de ser preso ou morto, conta-se que se dirigiu a Canabarro, então
Comandante- em- Chefe do Exército com esta observação:
" - Canabarro o Moringue anda por perto, é necessário
redobrar a vigilância. "
E teria recebido resposta mais ou menos assim, de Canabarro:
" - Não te preocupa Neto - O Moringue sentindo a minha catinga,
não vem cá ! "
E Netto como humor respondeu:
" - Canabarro apesar da tua 'catinga', eu vou passar a noite em
vigília com a minha tropa."
Caso verdade, "Moringue" ou Chico Pedro o mais competente
guerrilheiro imperial atacou Porongos e não conseguiu prender
Netto.
Netto
nas guerras externas
Netto
nos múltiplos embates do Decênio Heróico, de capitão
da Guarda Nacional a general farrapo, aprendeu muito ao ponto de tornar-se
um dos maiores líderes de Cavalaria.
Sua Academia Militar foi a das coxilhas no dizer de Moro Mariante, entre
"para tatás de centauros, pontaços de lanças,
tilin-tilins, de armas brancas e cargas de Cavalaria", ou na Arte
Militar dos Pampas, tão exaltada por Garibaldi em suas Memórias
escritas por Alexandre Dumas.
Segundo ainda Mariante em Farrapos - guerra à gaúcha (Porto
Alegre, M. Livreiro, 1985), Netto possuiu farda azul de pano fino, com
bordados a ouro de general e divisa escarlate bordado a ouro com a inscrição
EXÉRCITO REPUBLICANO RIO-GRANDENSE. O azul era a cor da . No
diário o traje de Netto era um poncho branco, às vezes
jaqueta de brim e chapéu de abas grandes . Característica
de Simplicidade e Rusticidade.
Na guerra contra Oribe e Rosas 1851-1852, não participou, pois,
segundo Wiedersphan, "vivia no Uruguai, suspeito e espiado pelo
Império", para onde recolheu-se, embora signatário
da Paz de Ponche Verde.
No entanto, nas guerras contra Aguirre do Uruguai (1865), e contra Solano
Lopez do Paraguai (1865-1870), teve oportunidade de prestar relevantes
serviços à Integridade e à Soberania do Brasil,
bem como aos interesses da Colônia Brasileira no Uruguai, como
líder natural da mesma, no comando de uma Brigada Ligeira de
Cavalaria. Isto ao fazer a vanguarda do Exército, ao comando
do marechal João Propício Mena Barreto, tendo destacada
atuação em Paissandú, então como brigadeiro.
Na campanha contra o Paraguai, até 1866, fez a vanguarda das
forças do Brasil, ao comando do General Osório, de Uruguaiana
a Tuiuti.
Destacou-se no comando de sua Brigada Ligeira de Voluntários,
que fazia a vanguarda de Osório na invasão do Paraguai
em Passo da Pátria, em 16 de abril de 1866 e nos dias seguintes
no estabelecimento da cabeça- de- margem no território
adversário, para o prosseguimento das operações.
Em 24 de maio de 1866, em Tuiuti, a maior batalha campal da América
do Sul, vencida pelo general Osório, nela, Netto com seus esquadrões
de cavalos amilhados, desempenharam relevante e muito importante papel
em Potrero Pires, ao retardar a tentativa de envolvimento do flanco
esquerdo do Exército Aliado, tentado por Barrios, até
que Osório pudesse enviar reforços para anular a tentativa
envolvente por aquele lado.
A amizade antiga de Antônio Netto com o General Osório
Já
se passavam 30 anos do encontro, em 7 de abril de 1836, na barraca do
general republicano Antônio Netto, nas imediações
da sitiada Caçapava do Dr. Sebastião, filho do brigadeiro
Bento Manuel, com o Tenente do Exército Osório, com permissão
de seu comandante superior. Encontro assistido por Netto e Jacinto Guedes
da Luz, no qual o Dr. Sebastião Ribeiro, citado, convidava Osório
,em nome do pai, para passar para o lado republicano ao que este respondeu:
"Meu lugar, foi, é e será sempre nas fileiras da
legalidade. Aí tenho combatido, aí hei de vencer ou morrer.
Aí foi que eu comprometi a minha lealdade e nada haverá
no mundo quem me fizesse abandoná-los. "
Perguntando se aquela era a última palavra Osório respondeu:
" - Uma e única. Costumo ter uma só palavra."
Após pedir licença despediu-se com um aperto de mão
dos presentes, Dr. Sebastião e dos farrapos Netto e Guedes que
haviam em silêncio assistido à entrevista e lhe estendido
a mão. Montou em seu cavalo e a seguir Netto dirigiu-lhe a palavra:
" - Adeus bravo patrício, breve haveremos de vê-lo
rendido. O sítio há de ser rigoroso!"
E o tenente Osório respondeu-lhe:
" - Será o que Deus querer!"
No dia seguinte Osório em companhia do irmão José
e mais 39 soldados de Cavalaria, com auxílio de um escravo que
abria picada através do mato, a machado, conseguiu escapar ao
sítio indo apresentar-se a Rio Pardo, ao comandante Cel Gabriel
Belo Lisboa, pouco depois, conforme referimos, morto em ação
em Triunfo, de modo heróico em defesa do local, até então
essencial ao abastecimento de charque da sitiada Porto Alegre.
Netto e Osório foram companheiros de mocidade em Bagé
antes da Revolução e nutriam admiração recíproca.
Agora juntos no início da guerra, Netto Brigadeiro Imperial e
Osório Marechal- de- Campo do Exército Imperial e seu
comandante em operações contra o Paraguai, escreveram
as mais belas páginas de nossa História Militar - Marcha
até Corrientes, Travessia do Passo da Pátria e Batalha
de Tuiuti.
Osório e Netto foram dois expoentes da Cavalaria e do gaúcho
brasileiro histórico e cultores das virtudes de Firmeza e Doçura
que aqui referimos e simbolizados nos amores-perfeitos do brasão
da Republica Rio Grandense elaborado pelo Cel José Mariano de
Mattos.
A morte do General Netto em Campanha
Por
está época, Netto com 63 anos, foi tomado de forte febre,
em conseqüência da qual veio a falecer, cerca de 40 dias
depois de Tuiuti, no Hospital Militar de Corrientes, cidade onde foi
sepultado com honras militares. E ainda há quem duvide do patriotismo
de Netto e de seus companheiros que sonharam com a República,
uma realidade desde 1889.
Como últimas vontades manifestou, em vida, o desejo de abrir
mão dos vencimentos de oficial general que lhe eram devidos
desde a Campanha contra Aguirre e de seus restos mortais irem descansar
em mausoléu que em vida mandara construir em Bagé, onde
ligara-se muito à sociedade.
Netto desde o final da Revolução Farroupilha radicara-se
no Uruguai como estancieiro. Casara cinqüentão com a filha
de um estancieiro, de cujo consórcio teve duas filhas, e de
muito pouca idade quando faleceu.
Retorno
ao pago para o sono eterno
Em
1966, no ano do centenário de sua morte, Neto foi exumado em
Correntes. Um avião da FAB aterrou em Bagé transportando
os restos de um dos mais destacados líderes de Cavalaria do Brasil.
Restos endereçados à Chefia do Estado- Maior do III Exército.
Em meio à tocante cerimônia, o general comandante da 2ª
Divisão de Cavalaria, em Bagé, Gen de Brigada Fritz Azevedo
Manso introduziu a urna do grande cavalariano farrapo e depois imperial
e vanguardeiro de Osório, até Tuiuti, na defesa da Integridade
e da Soberania do Brasil, num mausoléu de mármore branco
com o seguinte epitáfio:
"Aqui descansam os restos mortais do Brigadeiro Antônio de
Souza Netto, falecido na cidade de Corrientes, em 1º de julho de
1866."
Entre os discursos pronunciados recolhi estas pérolas:
"O Brigadeiro Antônio Netto, também foi representativo
do torrão continentino e do maior quilate, figura espartana de
soldado e modelo de lealdade."
O historiador Tarcísio Taborda ligado à família
de Silva Tavares, por parentesco, assim falou em discurso no cemitério
em seus trechos mais expressivos:
"Os manes do herói voltam à Pátria. E voltam
à frente da Cavalaria Rio- Grandense. Foi de Bagé que
ele saiu à frente do Exército Brasileiro para lutar no
Paraguai...
Seus restos aqui vem se juntar aos de seu adversário constante
- Silva Tavares, Visconde de Cerro Alegre. Unidos como durante o período
em que lutaram contra nossos vizinhos em defesa da Integridade do Brasil.
Unidos, na morte, como unidos estiveram na glória, dois ilustres
rio-grandense e heróis do Brasil."
E completaríamos dois grandes, valorosos e autênticos soldados
do Brasil, no Rio Grande do Sul exemplares e coerentes, na luta pelas
suas verdades à República e à Monarquia na Revolução
Farroupilha, mas unidos numa verdade comum - à defesa da Integridade
e da Honra do Brasil.
Os Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul trazem interessantes
subsídios sobre Netto.
Descendência
Netto
casou em Paissandu, em 4 de dezembro de 1860, aos 57 anos, com Maria
Medina Escayola. Deste consórcio nasceram no mesmo local em
1862, Teotônia Netto e em 1863 Maria Antônia.
Teotônia casou com o coronel francês Guillards e faleceu
na França, sem descendentes.
Maria Antônia casou em Montevidéu, com o Dr. Domingo
Mendilaharsei, onde faleceu em 1949. É seu único filho
Carlos Mendilaharsei que morava em Montevidéu, com duas filhas.
Antônio Netto foi proprietário no Uruguai das estâncias
Zamora e Queguai.
Segundo Décio Vignole Neves, era irmão de Florisbelo
de Souza Netto, pai do general revolucionário de 1923 Zeca
Netto (José Mattos Netto) com Rafaela de Souza Mattos, por
sua vez, irmão do Tenente-Coronel Teófilo de Souza Mattos,
nosso bisavô e comandante dos canguçuenses na Guerra
do Paraguai e casado na família Borba com ramos em Canguçu
na Armada e em Bagé.
Nesta ano em outubro ser;a comemorado os 80 anos da conquista de pelotas
por alguma horas pelo General Zeca Netto, numa imitação
de feito do seu tio ilustre realizado na Revolução Farroupilha
,quando sua Divisão Liberal acantonou no Teatro 7 de Abril
.
(X) Presidente da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil (AHIMTB)do Instituto de História e Tradições
do Rio Grande do Sul e da Academia Cnguçuense de História