Marechal
BENTO MANOEL RIBEIRO (1783-1855)
(Na História e na Fantasia da Casa das sete mulheres)
por
Cláudio Moreira Bento(x)
Na minisérie A Casa das sete mulheres ,o Marechal Bento Manoel
Ribeiro foi escolhido como o vilão ,na fantasia de 60% que ela
representa. E mui justamente como herói o General Bento Gonçalves
da Silva ,5 anos mais moço do que Bento Manoel , e que focalizaremos
noutro artigo .
Mas para que não se confunda a fantasia com a realidade, apresentamos
ao leitor e pesquisador interessados o perfil histórico desta
personalidade singular para que seja apreciada dentro das circunstâncias
complexas que ele vivenciou e coerente como Ortega Y Gasset : "Eu
sou eu e as minhas circunstâncias!"
Abordagem histórica da vida e obra de um grande a guerreiro e
dos maiores que o Brasil possuiu , segundo se conclui de análise
de Osvaldo Aranha em 1946 na Revista Província de São
Pedro
Significação
histórica
Bento Manoel Ribeiro prestou relevantes serviços militares, de
soldado a marechal do Exército Imperial, á Integridade
e a Soberania do Brasil, colônia e independente, nas guerras do
Sul de 1801, 1811-12, 1816 e 1821, 1825- 28 e 1851-52, onde se afirmou
entre as maiores espadas de seu tempo.
Foi militar de raros méritos como estrategista, tático,
profundo conhecedor do terreno e grande capacidade de nele orientar-se.
Possuía grande capacidade de liderança em combate e de
bem combinar Infantaria e Cavalaria, além de conhecimento apreciável
da psicologia de seus homens e dos adversários e dentre estes
dos caudilhos platinos .
Durante a Revolução Farroupilha 1835-1845 , em função
de seu temperamento singular, segundo Sanmartim, mentalidade "
mais caudilhesco do que militar ", adotou posições
até hoje controvertidas e a aparentemente inexplicáveis.
Isso, ao combater, ora ao lado dos farrapos, ora ao lado dos imperiais,
mas sempre desequilibrando, acentuadamente, o prato da balança,
em favor da causa que defendia.
Inicialmente como farrapo, depois como imperial, novamente como farrapo
e, finalmente, depois de mais de dois anos de neutralidade , lutou pela
Unidade do Império até o final da Revolução,
" como vaqueano - mor de Caxias".
Por esta razão, entrou para a História do Rio Grande do
Sul como a mais controvertida personalidade do ponto de vista político
e psicológico, com defensores a explicar seus gestos como Osvaldo
Aranha e acusadores impiedosos, até na poesia popular da época
o que a fantasia da minisérie citada reflete com extremo exagero
.
Mas Bento Manuel é um raro caso histórico de alguém
que iniciando a vida como pião de estância e soldado miliciano,
atingiu por seus excepcionais méritos militares e pendores comercias
e políticos o posto de Marechal de Campo (atual General de Divisão)
do Exército Imperial e general da República Rio-Grandense
.
E mais , haver acumulado enorme fortuna, cercada, inclusive, pela lenda
gaúcha da Salamandra do Jarau, local da estância do bem
- sucedido paulista de Sorocaba, em Quaraí ,próximo da
fronteira com o Uruguai
Seu biógrafo Olhynto Sanmartim e o General Souza Docca o ensaiaram
do ponto de vista psicológico. Forneceram dados interessantes
para os psicólogos explicarem melhor Bento Manuel num Tribunal
da História que se impõe lhe seja propiciado e, particulamente
quanto a sua segunda adesão à Revolução
Farroupilha que foi grandemente festejada pelos farrapos .
Personagem que a novela A Casa das 7 mulheres da TV Globo arrasou na
visão dos brasileiros que acreditaram ser aquela belíssima
fantasia a verdade histórica .
Vamos tentar pois minimizar este prejuízo causado a sua memória
histórica em concordância com o grande brasileiro Osvaldo
Aranha que o defendeu de forma notável .
Naturalidade,
Ascendência, Descendência
Bento Manuel nasceu em 1783, filho do tropeiro Manuel Ribeiro de Almeida,
na histórica cidade dos tropeiros, Sorocaba- São Paulo.
Com 7 anos veio para o Rio Grande como piá (menino) na estância
do Major Antônio Adolfo Charão ( corruptela Scharam ),
em Rio Pardo.
O Major Charão era dos Dragões do Rio Grande, em Rio Pardo
e natural do Rio de Janeiro, filho do médico alemão João
Adolfo Scharam .E casou com a filha do mineiro Capitão João
Carneiro Fontoura, dos Dragões de Rio Pardo, com ilustre descendência.
Assim, aos 18 anos, nas fileiras do citado regimento de Dragões
onde ingressara como soldado raso em 1800, teve início a cintilante
e muito movimentada carreira de Bento Manuel que durou 54 anos e foi
encerrada no posto de marechal de Campo do Exército Imperial
Brasileiro.
Bento Manuel pelo lado materno descendia do bandeirante Anhanguera e
do português João Ramalho .E pela linha paterna de Pedro
Taques. Era ligado à família Bueno, de Amador Bueno que
fora proclamado rei de São Paulo, segundo se conclui de Olhynto
Sanmartim.
Pelos Bueno ligava-se por parentesco ao General farroupilha Antônio
Netto, e depois brigadeiro do Exército Imperial que comandou
a vanguarda do Exército Brasileiro na guerra do Paraguai e ambos
assim de boa cepa.
Bento Manuel casou em 15 de setembro de 1807,aos 24 anos , em Caçapava
do Sul atual, com Maria Mâncio da Conceição.
Desde consórcio nasceram 11 filhos ( 5 mulheres e 6 homens ).
Sua filha, Benevenuta, casou com o pernambucano, mais tarde General
Victorino José Carneiro Monteiro e Barão de São
Borja, do qual descendia o General Bento Manuel Ribeiro Carneiro Monteiro
, destacado Chefe do Estado - Maior do Exército que criou a Missão
Indígena da Escola Militar de Realengo, em 1919.
Nas
Guerras do Sul 1801-1824
Em
1801, sob o comando do Coronel Patrício Correia Câmara,
tomou parte, como soldado de Milícias ,ao lado dos Dragões,
da expulsão dos espanhóis de Batovi ( São Gabriel
primitivo ), da fortaleza de Santa Tecla ( reocupada ) e da concentração
defronte o passo N.S. da Conceição do Jaguarão
( Centurión ) , para barrar ali uma possível reação
do Marquês de Sobremonte, governador de Montevidéu, contra
a expansão de Portugal sobre o território entre os rios
Piratini e rio Jaguarão, conquistados por Portugal nesta guerra
,junto com os Sete Povos das Missões.
Em
1808, aos 25 anos , foi promovido a furriel de Milícias. Mas
voltou-se também para a conquista da fortuna o que conseguiu
ao final de algum tempo.
Tornou-se um dos maiores e até lendários estancieiros
rio-grandenses, no disputado território entre Portugal e Espanha
,compreendido pela antiga estância jesuítica Japejú
, em território atualmente compreendido pelos atuais municípios
de Alegrete, Uruguaiana, Quaraí e Barra do Quarai que ele ajudou
a incorporar ao Brasil .Lendário , através principalmente
da lenda Salamandra do Jarau, colhida por J. Simões Lopes Neto.
Na guerra 1811-12 , integrando O Exército Pacificador da Banda
Oriental ao comando de D. Diogo de Souza , Capitão General e
Governador do atual Rio Grande do Sul se destacou no ataque a Paissandú,
na liderança de 60 milicianos. Isto lhe valeu a promoção
a tenente, em 17 de dezembro de 1813.
Na
guerra contra Artigas 1816-17, o Tenente Bento Manuel evidenciou o seu
valor, ousadia e intrepidez em diversas ações. Foi citado
nominalmente em diversas ordens do dia. Por haver derrotado em Belém,
na linha do Quaraí, em 7 de setembro de 1817, o chefe oriental
D. José Verdum, que ele capturou com outros oficiais e todo o
armamento, foi efetivado no posto de capitão de Milícias
" pelo distinto comportamento com que se houve na ação
".
Atuou
no combate de Guabiju, em abril de 1818, onde Aranda sofreu pesada derrota
que veio reforçar o arsenal e remonta do Império.
Em 26 de maio ele dirigiu, na outra margem do Uruguai, bem sucedida
surpresa contra Artigas. Trouxe farta presa de guerra ( cavalos, armas,
munições etc. ).
Em
seqüência foi elogiado e promovido a major. Repetiu este
feito em Queguai-Chico. Em 28 de fevereiro de 1815 infligiu pesada derrota
a Frutuoso Rivera, no Arroio Grande, com grandes presas de guerra. Isto
lhe valeu a promoção, em 17 de março de 1820, a
tenente coronel " por distinção no combate de Arroio
Grande " . Aí teve a instruir - lhe o Marechal Joaquim Xavier
Curado, filho de Pirenópolis Goiás..
A independência do Brasil vai encontrá-lo na defesa da
Fronteira do Brasil, com base em suas estâncias junto a fronteira
em Quarai e Alegrete atuais .Foi promovido aos 39 anos a coronel graduado
do 22º Regimento de Milícias de Rio Pardo. Regimento Integrado
por estancieiros e seus homens que haviam se estabelecido no antigo
distrito espanhol de Entre Rios (entre os rios Uruguai,Ibicui,Santa
Maria e Quaraí ). A esta altura já era um mestre na Guerra
à gaúcha que ele aprendeu na Academia Militar das Coxilhas
" vendo, tratando e pelejando ".
Esta guerra, segundo o Barão do Rio Branco, foi o período
áureo de Bento Manuel, tendo se destacado nas ações
de Belém, Calera de Berquió, Perucho-Berin e Arroio de
La China.
Guerra
Cisplatina 1825-1828
Nesta
guerra colocou-se na frente de seu 22 o Regimento de Milícias
e internou-se na campanha da Província Cisplatina do Brasil (
o atual Uruguai ).
Em 3 de setembro de 1825 bateu Frutuoso Rivera no arroio d' Aquila,
sendo recebido em triunfo, em Montevidéu.
No
dia 12 de outubro de 1825, por várias circunstâncias adversas,
provou o sabor de derrota, em Sarandi, junto com o Coronel Bento Gonçalves
,conforme foi contado pelo Alferes Manoel Luiz Osório que dela
participou.
Durante
a retirada, segundo a tradição, conta-se que o Coronel
Bento Manuel, admirado da atuação do Alferes Osório
,hoje patrono da Cavalaria do Exército, e semelhante a sua quando
na mesma idade, teria dito. " É para aquele que vou deixar
um dia a minha lança na certeza que ele a levará mais
longe do que eu a levei "
Em 5 de novembro de 1826, derrotou na Capela do Rosário ( Corrientes
), depois de atravessar o rio Uruguai, o inimigo lá concentrado.
Capturou farta presa de guerra. Comandava desde 9 de março de
1826 uma brigada, como coronel efetivo.
Durante
as marchas estratégicas dos exércitos argentino de Alvear
e o imperial de Barbacena, Bento Manuel Ribeiro ,na vanguarda , com
sua brigada integrada por dois regimentos de Milícias afastou-se
em demasia do grosso do Exército do Sul ao comando do Marquês
de Barbacena.
E acreditou num movimento inimigo feito para iludi-lo. Em função
dessa falsa possibilidade inimiga, que teria transmitido ao Marquês
de Barbacena, terminou por ausente da batalha de Passo do Rosário,
em 20 de fevereiro de 1827, onde deveria estar ocupando a Ala Esquerda
do Exército, o ponto crítico da defesa brasileira.
Em
seu local foi colocada a vanguarda do Barão do Serro Largo Marechal
José de Abreu, constituída de um punhado de desertores,
paisanos mal montados e sem efetivo preparo para receber os ataques
de Cavalaria inimiga.
Disto
resultou o Marechal Abreu vir morrer com os seus homens, vítimas
dos tiros amigos e das lanças e espadas inimigas em choque.
Esta ausência de Bento Manuel da batalha teve imensa repercussão
tática negativa, para a sorte das armas brasileiras. Por isto
tem sido muito discutida a sua atuação entre os estudiosos
do assunto. O que focalizamos no nosso livro a ser lançado breve
2002-Os 175 anos da Batalha do Passo do Rosário .
Bento
Manuel, o fiel da balança na Revolução Farroupilha
A
situação de Bento Manuel imediatamente anterior à
Revolução era a seguinte : Desde 27 de agosto de 1825
ingressara na 1ª Linha do Exército Imperial, como coronel
de Estado - Maior.
Era já um homem opulento estancieiro em Quaraí e Alegrete
atuais e bastante relacionado e respeitado por seu valor militar e liderança
política .
Seu
perfil era o de um caudilho, a que foi obrigado pelas suas circunstâncias
a se tornar um deles para se defender, tratar e vencer caudilhos argentinos
correntinos e missioneiros e orientais do outro lado do Quarai e Uruguai
que disputavam a posse do já citado território entre os
rios Uruguai. Ibicuí, Santa Maria e Quaraí .Território
sobre o qual incidiam interesses geopolíticos argentinos, paraguaios,
orientais e espanhóis .Estes assumidos pela rainha Carlota de
Portugal em defesa de seu irmão D .Fernando rei de Espanha, prisioneiro
de Napoleão .E neste território a atuação
de Bento Manoel na defesa vitoriosa de interesses da rainha Carlota
que coincidiam com o seus , se tornou um ícone.
Bento
Manoel possuía temperamento incomun merecedor de um ensaio psicológico,
por mestres do assunto, para ajudar a explicar-lhe .E o General Souza
Docca o ensaiou sob este aspecto. E também sua ação
integral nesta área esta a merecer um estudo.
Com
a Abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831 e até
dezembro de 1834,Bento Manoel comandou a guarnição e a
Fronteira do Rio Pardo.
Foi substituído na função por um desafeto, por
ato do Presidente da Província Fernandes Braga, e seguramente
por indicação do comandante - das-Armas da mesma, o Marechal
Sebastião Barreto Pereira Pinto.
Esta circunstância muito pesou na decisão de Bento Manuel
de ajudar a derrubar o governo, aderindo à Revolução
Farroupilha feita contra ele .
Sobre ele escreveu mais tarde o veterano farrapo Ten Caldeira ,em Canguçu
que privou com todas as lideranças farrapas .
"
Bento Manuel era um militar de muita tática na guerra. E possuía
muito conhecimento dos habitantes da campanha da nossa Província
e também era de muito prestígio. O procedimento dele durante
a Revolução é público e notório.
Quando a legalidade estava caída ele com sua presença
dava-lhe vida e quando a causa da República precisava alento,
ele lhe dava."
Como
se verá, seu apoio, ora à Revolução Farroupilha,
ora Império, sempre desequilibrou o fiel da balança para
o lado que ele lutava. Assim tomou parte ativa e proeminente na revolução
de 20 de setembro a dezembro de 1835, que derrubou o Presidente Fernandes
Braga e o Marechal Sebastião Barreto, Comandante - das - Armas
, e em cujas funções ele foi colocado pela revolução
que passou a dominar por completo toda Província do Rio Grande.
Ao
passar para o lado legal a convite do novo Presidente enviado pela Regência
e seu amigo, o Dr. José de Araújo Ribeiro, mais tarde
Visconde do Rio Grande, desequilibrou as forças em luta, em favor
do Império. Pois lhe satisfizera a derrubada do Presidente da
Província e seu comandante de Armas ,cujas funções
passou a ocupar .E o Tenente Osório ,futuro patrono da Cavalaria
se satisfez com a solução e não prosseguiu na revolução
embora republicano por estar convicto que o momento para a República
não era o ideal .
Durante sua primeira luta pela causa imperial de dezembro de 1836 a
23 de março de 1837, ou por cerca de 13 meses, sua participação
foi decisiva no campo estratégico:
A reconquista Imperial da cidade do Rio Grande, foi incruenta e por
hábil manobra política sua e do novo presidente que lá
assumiu suas funções.
Reconquista de cidade de Rio Grande que assim se projeta:
- Passou a servir de base de partida de reforços navais e terrestres,
enviados pela Regência, para combater a Revolução,
além de negar aos revolucionários um porto marítimo
para desenvolverem suas marinhas de guerra e mercante, ou seu poder
marítimo.
- Para distrair atenções para si, engajando forças
ao comando de Bento Gonçalves, essenciais à tentativa
de conquista do Rio Grande.
E disto resultou por manobra política incruenta repito :
- A queda definitiva de Porto Alegre em mãos imperiais e prisão
de 36 revolucionários importantes e liberação da
ligação lacustre imperial, Porto Alegre - Rio Grande.
- A prisão de Bento Gonçalves, na ilha do Fanfa, em 4
de outubro de 1836, com o concurso naval.
- A desistência do ataque a Rio Grande, a partir de Pelotas, pelo
Major João Manuel de Lima e Silva que o substituiu, no Comando
- das - Armas revolucionário .
- A proclamação da República Rio-Grandense, em
11 de setembro de 1836, no Campo do Menezes.
- O abandono de Pelotas pelos agora republicanos revolucionários,
em direção da Serra dos Tapes, para Piratini, então
escolhida capital da nova República.
- A retirada dos farrapos de Piratini, em direção à
fronteira, sob o comando do então do 1o general farrapo João
Manoel, seguida de internação , ao comando de Antônio
Netto, no atual Uruguai, tudo sob ameaça de Bento Manoel em Caçapava.
Esta
atuação estratégica brilhante valeu-lhe promoção
a brigadeiro do Império.
E com a Revolução Farroupilha nos estertores foi lutar
por ela mais uma vez. E isto ocorreu de 23 de março de 1837 a
18 de julho de 1839, pelo espaço de cerca de 2 anos e 3 meses,
período áureo da República com capitais em Piratini
e Caçapava e quando ela implantou sua estrutura.
E
além foi conquistada Laguna -SC em julho de 1839 e lá
proclamada a República Juliana.
Quando cobria a Fronteira do Uruguai, contra o General Netto e suas
forças lá emigradas, conheceu a substituição
humilhante do Presidente Araújo Ribeiro, seu amigo, com o que
não concordou.
Entrou em rota de colisão com o novo presidente da Província,
o Brigadeiro Antero José Brito que ordenou que Araujo Ribeiro
deixasse logo a Província para não atrapalhar e foi extremamente
inábil politicamente e radical com Bento Manuel , acusando-o
de incompetente por incapaz de por logo um fim a Revolução
.E decidiu o destituir do Comando - das - Armas. E foi mais além
- tentou prendê-lo!
Era uma homem impulsivo ! Antes da proclamação da Independência
por um levante que tentou liderar em Porto Alegre foi preso e condenado
por lesa majestade. Mais tarde foi o encarregado na Bahia de efetuar
a prisão do Marechal Pedro Labatut.
E
saiu a campo para prender o Brigadeiro Bento Manoel .Mas ao pretender
tosquiar saiu tosquiado .Pois foi aprisionado por Bento Manoel junto
a uma de suas estâncias no passo do Itapevi ,em 23 de março
de 1837, em Alegrete atual, onde Bento Manoel era o maior líder
político e o mais próspero estancieiro.
E como medida de segurança para si entregou o presidente Antero
a generais orientais em cujas mãos ele permaneceu por 9 meses
até ser trocado em Viamão por um oficial farrapo .E o
Brigadeiro Antero retornou para o Rio onde exerceu funções
burocráticas pelo resto de sua carreira .
Fora
enorme o prejuízo causado com sua inabilidade política
classificada como "burrice emocional", antônimo de inteligência
emocional tão em moda hoje e o que lhe faltou.
Os farrapos que estavam na pior acolheram Bento Manoel com o maior entusiasmo
.
Em 21 de abril de 1837, um mês decorrido da prisão do Brigadeiro
Antero foi instaurado pelo Império um processo contra Bento Manuel
e seu filho Sebastião " por crime de sedição
e rebelião e também cúmplice de roubo ".
Entre
passar a situação de fora da lei perseguido pela República
e pelo Império , aceitou o convite de aderir a causa farrapa
.Não lhe restava outra alternativa .
Na
explicação de seu comportamento contra o Brigadeiro Antero
sugeriu ao vice presidente da Província Marechal Chagas Santos
que a presidência fosse passada para o vice presidente da Província
que mais voto recebera para o cargo e como Comandante das Armas um brigadeiro
filho do Marechal João de Deus Nunes e visconde de São
Gabriel .E não foi considerada e nem resposta teve sua idéia
E o Império teve um imenso prejuízo com o prolongamento
da Revolução Farroupilha que estava internada no Uruguai
sob pressão de Bento Manoel .E ela retornou ao Rio Grande e se
agigantou com Bento Manuel .
Pela
segunda vez no lado revolucionário
Os
farrapos em mais lençóis o receberam , com imenso júbilo.
Foi nomeado comandante das divisões da Direita e do Centro do
Exército da República Rio - Grandense. Exército
cujo comandante - em - chefe interino, na ausência de Bento Gonçalves,
era o General Antônio Netto. E ele mostrou serviço:
Em
7 de abril de 1837 reconquistou Caçapava. Em 8 de junho de 1837
bateu-se com Sebastião Barreto no arroio Santa Bárbara,
em Cruz Alta, sendo ferido na ação. Em 30 de outubro de
1837, na coxilha dp Espinilho, bateu seu aliado de ontem ,o Cel Manoel
doa Santos Loureiro.
Enquanto
isto, Netto mantinha sob cerco terrestre Porto Alegre. Em 16 de dezembro
de 1837, Bento Gonçalves retornou da prisão aonde fora
colocado depois de preso por Bento Manuel.
Decorridos
15 dias, de seu retorno , em 29 de dezembro de 1837, ele promoveu Bento
Manuel brigadeiro pelo Império a general da República.
E continuou no comando das divisões da Direita e Centro e diretamente
subordinado, a Bento Gonçalves, como Presidente e Comandante
- em - Chefe do Exército, mas cercado de todas as atenções,
respeito e considerações.
Em
31 de janeiro de 1838, no Caí, Bento Manuel tomou em ação,
duas canhoneiras. Elas foram incorporadas à Marinha da República
ao comando do então Giusepe Garibaldi e mais tarde o herói
,maior da reunificação da Itália, além de
" o homem de ação de seu século "
.
Em
30 de abril 1838 comandou o Exército da República na vitória
de Rio Pardo , a maior dos republicanos e caracterizada por combinação
de armas e até da construção de uma ponte ,conforme
abordamos junto com a Batalha do Seival em O Exército farrapo
e seus chefes v.2 .E ali derrotou seu grande desafeto o Marechal Sebastião
Barreto que o levara a aderir a Revolução.
Reconquistar
Porto Alegre era o sonho dos dois Bentos que se encontraram em Encruzilhada.
Mas faltava cavalhadas e os imperiais se fortificavam e mantinham aberta
a linha de suprimento geral lacustre Rio-Grande Porto Alegre, a despeito
da interferência de Garibaldi, com sua pequena esquadra Seival
e Farroupilha neutralizada com a navegação imperial em
comboios.
E sobre este assunto produzimos Porto Alegre memória dos sítios
farrapos e da Administração de Caxias .Brasília
:ECCGF,1989.
Os
farrapos dominavam a campanha e recebiam apoio externo pelas fronteiras
com Uruguai e Argentina. Os imperiais dominavam o Rio Grande, São
José do Norte, Porto Alegre e a navegação interior
do Rio Grande.
Em 25 de julho de 1839, David Canabarro proclamou, em Laguna, a efêmera
República Juliana que serviria para um porto de mar de onde a
República, recorrendo à guerra de corso, pudesse prejudicar
a navegação imperial, em alto mar.
Abandono
definitivo dos farrapos
Em 18 de julho de 1839, quando a causa farrapa se desenvolvia ainda
bem, Bento Manuel a abandonou através de carta circunstanciada
dirigida ao Ministro da Guerra da República, José Mariano
de Mattos. Este carioca com curso de Artilharia na Escola Militar do
Largo do São Francisco ,comandante da unidade de Artilharia do
Exército da Província e que a revoltara .Mais tarde foi
Ajudante General de Caxias na guerra contra Oribe e Rosas 1851/52 .Foi
Ministro da Guerra do Império em 1864.O brasão do Estado
do Rio Grande do Sul é de sua autoria e se constitui no primitivo
brasão farrapo adotado pela Constituinte de 1891.
Basicamente
Bento Manoel alegou haver recebido ingratidões do Brasil, depois
de sacrifícios superiores ao esforço humano , na defesa
de sua Integridade, como a desconsideração do Marechal
Antero de Brito que o tentou prender. Que pressagiava ingratidões
semelhantes dos farrapos que hoje o lisonjeavam
Protestou contra a promoção a tenente coronel e nomeação
para comandante do 2º Batalhão de Caçadores, do baiano
Francisco José da Rocha que havia repreendido asperamente por
insubordinação.
Fatos que tomou conhecimento através da leitura do jornal farrapo
O Povo . Creio que chefe militar nenhum que se preze aceitaria isto
.O tenente coronel Rocha que biografo em O Exército Farrapo e
os seus chefes v.2 ,era a maior autoridade maçônica na
Província .
Bento
Manuel havia sido decisivo na prisão de Bento Gonçalves
e seu envio para o forte do Mar, de onde fora libertado acreditamos
com a ajuda do oficial baiano citado ,o qual teria acompanhou Bento
Gonçalves ao Sul.
E concluiu Bento Manoel em sua carta em que se exonerou dos serviços
à República:
" Hoje, já próximo da sepultura (54 anos) e cheio
de cãs ganhadas em árduos serviços à pátria
prestados, não posso nem devo tolerar que, por um obscuro baiano,
fira. V. Excia e Exmo governo minha honra e pundonor militar "
.
Bento
Gonçalves tentou de tudo para demovê-lo, mas sem resultado
.E desistiu ao ver a carta de Bento Manoel publicada . Foi um grande
e gravíssimo cochilo do Governo Farrapo .
Em
realidade, Bento Manuel foi desautorado e sem outra alternativa, que
não deixar o serviço da República.
Assim, de 18 de julho de 1839 a 9 de novembro de 1842, chegada de Caxias,
ou por cerca de 3 anos e 4 meses, Bento Manuel permaneceu neutro ora
no Uruguai ,ora em sua estância no Jarau e sob a ameaça
de ser preso pelo Império.
Com
a chegada de Caxias, Bento Manuel foi anistiado pelo Governo Imperial
e assim ele e seu filho deixaram de responder por crime de rebelião
sedição e roubo , passando a colaborar no combate aos
republicanos.
A mancada da promoção ,exaltação e de confiar
um comando ao Ten Cel Francisco José da Rocha ,sem consultar
Bento Manoel ,foi mortal para o destino da Revolução .
Foi outra burrice emocional agora dos farrapos , que não deixou
nenhuma chance para Bento Gonçalves corrigir .
Em
26 de maio de 1843 ele lutou, pelo Império em Ponche Verde, onde
foi ferido duas vezes no peito , tendo, em movimento dificílimo,
uma inspiração tática que adotou e o salvou da
derrota certa.
Em 29 de julho de 1844, evitou combate no Bai-Passo, com os revolucionários
mais fortes que ele.
Bento
Manuel segundo Caxias
Bento
Manuel recebeu de Caxias o comando de uma Divisão. Desempenhou
então decisiva ação militar na perseguição
aos republicanos, até a conclusão da Paz de Ponche Verde,
em 1º de março de 1845.
Caxias, julgava impolítico dar-lhe comando, mas acreditava que
Bento Manuel lhe seria útil, como de fato o foi, " suprindo-me
naquilo que me faltava, que é o conhecimento prático do
Rio Grande e com suas relações na campanha, de que espera
obter mais alguma gente de Cavalaria e Cavalos " .
Ao
Caxias dirigir proclamação aos farrapos, em 9 de novembro
de 1842, o jornal farrapo Americano assim a comentou em certo trecho:
" Caxias não traz a faculdade de atemorizar com pragas,
mas traz Bento Manuel e seu filho, que valem por todas as pragas do
Egito. Se o nome de V. Excia, Caxias, pela fama de sua habilidade estratégica,
era capaz de nos inspirar temor , que receio não incutirá
agora..."
Caxias em ofício de 31 de março de 1843 escreveu:
" Até hoje nenhum dos chefes a quem Bento Manuel escreveu,
e com os quais contava se apresentou. Pelo contrário, continuam
a servir a favor da revolta como dantes, sendo suas respostas dadas
bocalmente ao portador das cartas do referido brigadeiro . E não
mereciam resposta nenhuma, suas proposições , dando a
entender que nada com ele haviam tratado a semelhante respeito.
"
Caxias, em ofício de 4 de maio de 1844 ao Ministro da Guerra
esclareceu:
" Logo que fiz junção com a 1 a Divisão,
um requerimento me foi dirigido em nome dos soldados pedindo serem desligados
do comando do Brigadeiro Bento Manuel... Não dissimularei a V.
Excia que esta mostra de desobediência e má vontade de
alguns chefes dessa Província... provém, como é
notório, da indisposição e ódio que votam
a pessoa do Brigadeiro Bento Manuel, com quem não desejam servir.
Ódios que com bastante esforços e persistência tenho
conseguido dissipar, se não em todos os filhos dessa Província,
ao menos na maior parte do Exército. "
Vale lembrar que em 27 de agosto de ele ingressara na 1ª linha
do Exército Imperial como Oficial de Estado -Maior.
Com a abdicação de D. Pedro I , em 7 de abril de 1831,
ele passou a comandar a Fronteira do Rio Pardo que abrangia Alegrete,
o qual por seu prestígio passou a vila e município por
lei da Regência de 25 de outubro de 1831
Município e vila de Alegrete a que passaram a pertencer todas
as terras do primitivo Distrito Espanhol de Entre Rios abrangendo além
de Alegrete atual mais os atuais Santana , Quaraí , Uruguaiana
, Barra do Quaraí e parte do de Rosário e D. Pedrito .
Área conquistada e povoada por luso-brasileiros de 1801 a 1828,
quando passou em definitivo a pertencer ao Brasil com a Independência
do Uruguai pelo Tratado Preliminar de 1828.
A partir de 1812 D. Diogo de Souza passou a doar terras nesta região
a militares que passaram a povoá-la, desenvolvê-la e defendê-la.
Mas desde a Guerra de 1801 luso -brasileiros começaram a nela
estabelecer suas estâncias e entre eles Bento Manoel .
A
influência cultura castrense gaúcha na atual área
da 2ª Bda C Mec
Com apoio em interpretação de Oliveira Vianna
A interpretação a seguir de Francisco José de Oliveira
Vianna na obra Populações Meridionais do Brasil:Rio de
Janeiro,1952 ,caiu como uma luva na para entender-se a atuação
e a liderança política, econômica e militar de Bento
Manoel na mencionada região . Senão vejamos o que escreveu
Oliveira Vianna.
"Na verdade , educada sob o regime da premência guerreira
e de uma férrea disciplina militar aquela população
acabou tendo pelo homem de espada uma espécie de respeito religioso
e uma confiança integral. Todos acorriam a eles nas suas dúvidas
e acatavam os seus julgamentos e conselhos com submissão mista
de veneração e orgulhos: "
E
mais adiante ao abordar antigos militares aos quais D .Diogo de Souza
doou terras nesta região .
"
Egressos da farda, esses homens levaram, destarte, para a vida das estâncias,
o vinco da disciplina militar, o hábito da obediência,
o sentimento da hierarquia e da autoridade.
Incorporados
à classe aristocrática dos pampas- à sua oligarquia
estanciaria - foi neles que os altos representantes do poder colonial
ou imperial encontraram os mais austeros respeitadores da sua autoridade.
Não foi só . Dessa aristocracia pastoril , os elementos
que não tinham, como os militares acima nomeados, uma origem
militar, tinham, em regra, uma educação militar. Porque,
se havia soldados que se faziam estancieiros, havia estancieiros que
se faziam soldados E eram quase todos.
Já
vimos que todos os estancieiros da fronteira, por ocasião das
guerras e das invasões platinas, eram naturalmente levados a
se tornarem poderosos caudilhos, valentes capitaneadores dos bandos
da peonagem recrutada de improviso, formada do centro de agrupação
da população da campanha, tornados em falanges particulares
de paisanos ou guerrilheiros. Incorporados aos exércitos em marcha
. Eles eram verdadeiros soldados, sujeitos aos rigores da disciplina
militar.
Terminada
a guerra, esses caudilhos paisanos tornavam aos seus pagos amados, em
companhia dos seus numerosos guerrilheiros.
Estes
ensarilhavam as suas lanças, mas continuavam a ser aqueles caudilhos
improvisados em face da agressão , os seus mesmos chefes civis
,os seus mesmos capitães dos tempos de guerra.
E continuavam a ser os seus mesmos patrões nos tempos de paz.
O
caudilho de há pouco era agora, cessada a guerra, apenas o dono
da estância que os conduzira à guerra.
Camarada e amigo dos seus antigos soldados, estes, agora tornados à
sua faina de peões e capatazes, continuavam a manter a mesma
obediência militar.
Como lha prestavam no campo da guerra, continuavam agora a prestá-la
já em pleno regime de paz e de trabalho.
Pondo
agora em jogo as leis da imitação social, atuando numa
sociedade em que eram extremas as predileções militares
, podeis agora imaginar que esplêndidos, que inestimáveis,
que eficacíssimos agentes de transmissão de hábitos,
de hierarquia e disciplina não eram para o resto da população
estes galhardos guerrilheiros licenciados, vindos das campanhas do Prata!
"
E Bento Manuel Ribeiro que se estabelecera com várias estâncias
na região, mais David Canabarro em 1833 , próximo a Santana
atual e Chico Pedro de Abreu, traduzem o que Oliveira Viana Interpretou
.
Na falta de unidades militares naquela movimentada e ameaçada
fronteira eles supriram esta lacuna transformando o pessoal e sede de
suas estâncias em pequenos pontos ativos de vigilância da
fronteira e as mobilizando com as demais ao primeiro sinal de perigo
sob a forma de Regimentos de Milícias .
Foi esta uma solução eficaz e econômica para o Império
manter a Soberania e a Integridade em suas fronteiras nos rios Uruguai
e Quaraí .
Bento
Manoel e Alegrete
Vencida a Revolução Farroupilha e assumindo Bento Manoel
Ribeiro o Comando das Armas do Rio Grande tratou de conseguir como citado
a transferência do 3ª Regimento de Cavalaria para Alegrete
e para ali reforçar as forças militares milicianas .Assunto
que se insere no seguinte contexto que encerra preciosas lições
de história .
No Rio de Janeiro a Regência se empenhava em sustentar as doutrinas
e os liberais que lideraram em 7 de abril de 1831 a revolução
que obrigou D. Pedro I abdicar em favor de seu filho. Revolução
que teve o apoio constrangido do Exército ,como alternativa para
preservar a Monarquia .
Dentro
deste contexto, tendo como falsa justificativa um possível conflito
entre o Paraguai e Corrientes, o Executivo da Província transferiu
o 3º Regimento de Cavalaria de Porto Alegre para Alegrete, onde
se constitui na primeira unidade de linha a ali estacionar. E esta a
pedido do Coronel Bento Manoel Ribeiro ao Presidente da Província
Araujo Ribeiro.
E
por sua vez a Regência transferiu de Porto Alegre, por ordem de
22 mar 1834 mais as seguintes unidades.
O 8 o Batalhão de Caçadores para São Borja ,ao
comando de Major João Manoel Lima e Silva que veria a ser o primeiro
General da Republica Rio Grandense e tio futuro Barão de Caxias
e que o estudamos em O Exército Farrapo e seus chefes.
O
1º Regimento de Artilharia de Porto Alegre, para o Rio Pardo ,ao
comando do Major José Mariano de Matos , já abordado antes
.
Ele
figura com o 1º comandante do atual 22º Grupo de Artilharia
de Campanha -Grupo Uruguaiana ,conforme a obra De São Gabriel
a Uruguaiana. Santa Maria: Pallotti,2001 .Obra editada por comissão
presidida pelo Cap Antônio Carlos dos Reis e nomeada pelo Cel
José Júlio Dias Barreto comandante do Grupo.
Em realidade a Revolução Farroupilha que evoluiu para
Republica Rio Grandense foi sustentada pela guarnição
do Exército e os fazendeiros e charqueadores.
E
os militares motivados pela disfarçada e irresponsável
redução dos efetivos do Exército promovida pelas
lideranças liberais do 7 de abril.
E
tudo resultado das atitudes hostis e antimilitares de lideranças
liberais influentes na Sociedade Brasileira , logo após a Independência,
adeptos das políticas de erradicação" do Exército
e da Marinha, partindo das seguintes premissas:
"Forças Armadas numerosas e permanentes são uma
ameaça
- À liberdade
- À democracia
- À prosperidade econômica
- À paz ".
No
esforço de constitucionalizar-se a monarquia em 1823, três
anos antes de Passo do Rosário, projeto neste sentido procurava
reduzir o Exército à posição mais insignificante,
confiná-lo nas fronteiras e litoral, para segurança externa,
afastá-lo dos centros de decisões políticas e descentralizar
o seu controle entre a Assembléia Legislativa e os Presidentes
de Província.
Os
últimos por possuírem capacidade presumida, auxiliados
por milícias encarregadas da segurança interna, de neutralizar
qualquer ação do Exército, em caso grave de conflitos
entre poderes e de tentar recompor, no Executivo ou no Imperador, a
Unidade Nacional ameaçada.
A abdicação de D Pedro I forneceu os argumentos para aquelas
mesmas lideranças liberais , 4 anos após Passo do Rosário,
para erradicar o Exército, sob a acusação de indisciplina
que elas próprias fomentaram e criar uma Guarda Nacional mais
forte que o Exército e ,servil a interesses menores de grupos,
se comparados com o interesse nacional.
Para
adeptos influentes da erradicação do Exército,
no 1º Império, significava desarmar o Poder Central ou Imperador,
para que não viesse a usar a força contra movimentos de
autonomia regionais e tentativas de subverter o regime monárquico.
O
ciclo revolucionário 1831-1841 em que a Unidade Nacional foi
seriamente ameaçada, foi uma conseqüência da malfadada
política liberal de erradicação do Exército,
que assumindo formas claras ou sutis, perdurou por mais de um século.
Situação
que alguns pensadores atuais apontam insistentemente estar em curso
desde que o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiu o governo há
8 anos e ora continuada pelo atual Governo o que precisa ser confirmado
ou negado nos termos da análise a seguir do Cel Art Pqdt Ref
Adalto Luiz Lupi Barreiros, extraída de alentado estudo que nos
chegou e que merece ser refletido e considerado se esta de volta ou
não a política de erradicação das Forças
Armadas do Brasil como na Regência de 1831-45 e que tão
graves e sangrentas conseqüências trouxe para a Família
Brasileira .E escreveu o Cel Adalto.
"A alteração da estrutura militar, caracterizada
pelo seu ápice(a criação do Ministério da
Defesa), nada teve a ver com uma mudança para aumentar a operacionalidade
das forças de mar, terra e ar, propiciar uma significativo avanço
nos sistemas de planejamento da defesa, de material ou de equipamento
militares, no sistema de armas, nos sistemas logísticos das Forças
Singulares ou no adestramento do contingente recrutável pelo
sistema de serviço militar.
Foi a forma encontrada para prover o afastamento dos militares do processo
de decisão governamental. Atendeu, portanto, aos paradigmas da
globalização para as FAAA. Atendeu, em segundo, à
revanche política agregada a falsa defesa dos preceitos da vida
democrática.
Houve, de início, uma tentativa solerte de mudar a destinação
constitucional das FFAA, na Constituinte de 1988 . Ainda bem que infrutífera.
A pretensa submissão ao poder civil, que teria surgido com essa
mudança, não passa de um grande equívoco político,
uma armadilha que deserve ao país, e vendida como se fosse um
instrumento de preservação do regime democrático.
..
... Acessoriamente, atende à voracidade do revanchismo político,
que não fez, nunca, jus à grandeza do espírito
da anistia dos brasileiros .
Associada e feita quando haveria escassez de recursos orçamentários
para sua dotação, imposta pelas políticas de governo,
foi um golpe completo em sua capacidade operacional! ....
....Mas, pior que isso, de um sucateamento de meios militares que ultrapassou
todos os limites da sensatez com problemas de segurança
Para sermos claros, nenhum poder dissuasório real restou efetivamente
capaz de prover a defesa externa e restaram mínimos os meios
para cumprimento de suas missões constitucionais, tal as restrições
que foram impostas às Forças Singulares, durante décadas
No meio dessas limitações de toda ordem, passou-se a atingir
os quadros, com forte desestímulo profissional, embrionado por
desacertos salariais sucessivos, descaso com políticas de carreira,
restrições crescentes na parte assistencial, ameaças
e falácias sobre seu sistema de previdência e desprestígio
notório.
Por fim, descaso completo com a razão de ser do soldado - o preparo
diário e perene para a guerra, ainda que jamais aconteça.
O corpo militar da nação pode ficar por anos sem entrar
em um conflito, mas não pode ficar um só dia sem se bem
preparar para ele. Este preparo implica em material e treinamento. Ambos,
foram sonegados ao Brasil .Nesta última campanha sucessória
até a extinção do serviço militar entrou
na pauta dos "democratas", além de ser defendida, estranhamente,
em comemorações de centrais sindicais, sem que, sequer,
qualquer deles soubesse, ainda que por noção primária,
quais as conseqüências ou do que se trata uma medida dessa
natureza, num pais como o Brasil .
A moldura e fecho de tudo isso foi fornecido, permanente e universalmente,
pela mídia, numa enxurrada diária de agressões
e acusações, a maioria das vezes sem fundamento nenhum,
por anos a fio.
Os governos militares abrigaram todos os demônios da nação
e os militares foram os vampiros dos direitos civis. Aos adversários
do regime pós movimento de 64, a anistia forneceu a canonização
de seus santos- todos patriotas imaculados - e a idolatria de suas vitimas,
ainda que, entre eles, o tal esquecimento unilateral não consiga
esconder que foram de seu meio que surgiram os vendilhões do
país e os fabricantes das monumentais dívidas que os companheiros
de agora herdaram pelo voto majoritário, com todas as suas conseqüências.
Segue-se as iniciativas do novo governo. Engajamento no Fome Zero,(depois
de ela ser evitada nas Forças Armadas com a dispensa de 40.000
recrutasno governo anterior ) suspensão da compra de aeronaves
e emprego na recuperação da malha viária do país,
também destruída pelo descaso, corrupção
e despreparo do governo que findou, com as mesmas falácias com
que nos brindou com a desconstrução do sistema energético
brasileiro, nos legou o apagão da luz (e da inteligência
nacional), os negócios escusos e as tarifas crescentes que engordaram
os lucros dos seus compradores estrangeiros.
De quebra, não sem objetivos escusos, as novas, velhas e enganosas
justificativas sobre a previdência dos militares, jogando-os contra
os trabalhadores.
Vamos tratar deles. Mantida a estrutura militar ineficiente e deformada,
a começar pelo organismo da Presidência da República
(o gabinete de Segurança Institucional), o programa Fome Zero,
embora eivado de realidade social, pretende usar o sistema militar para
alavancar parte do conjunto de ações dessa iniciativa
governamental...
Certamente no transporte e distribuição de alimentos!
Uma missão complementar. Dizem os falsos "entendidos"
em questões militares - as ameaças à nossa integridade
territorial ou à soberania, justificam e permitem que a atividade
- fim seja relegada a um segundo plano por um tempo (...mais um tempo),
de forma que os contingentes militares podem se engajar numa atividade
complementar, até que os objetivos do governo sejam alcançados
e promessas políticas sejam resgatadas."
Enfim estas considerações do Coronel Adalto merecem serem
debatidas e esclarecidas pelos nela envolvidas e pelos atingidos pelas
conseqüências das mesmas.
Daí
podemos lembrar o seguinte ensinamento da História, como mestra
das mestras:
A expressão militar do Poder Nacional não pode ser improvisada.
Ela exige um esforço de toda Sociedade ,como o seu braço
armado ,no sentido de bem organizá-la, equipá-la, motivá-la
e adestrá-la. Enfim uma Doutrina Militar dinâmica que assegure
o seu eficiente emprego e, sobretudo, resultados positivos.
Como
Bento Manoel explicou em Alegrete a sua saída da Revolução
em 1836
Feita as considerações do Cel Adalto recordo que vereadores,
fazendeiros e militares de Alegrete desejavam entrar em acordo com seu
líder Bento Manoel também deputado provincial por Alegrete
,com vistas a pacificar a Província.
Deixando a Revolução em apoio ao novo presidente da Província,
Dr. Marciano Pinto Ribeiro, nomeado pela Regência para substituir
o presidente que ajudara a depor, o Dr. Fernandes Braga, Bento Manoel
sugeriu a Câmara de Alegrete que fizesse uma proclamação
ao seu povo para apoiar o novo Presidente, o que ela fez, proclamando
a certa altura.
"Proclamação"
Habitantes do Termo de Alegrete. A Pátria está em perigo
e no mais eminente e ruinoso que a poderia ameaçar...
... Habitantes do Termo de Alegrete. A causa (da pacificação)
é de interesse público e de conveniência de todos.
É com alguns sacrifícios que se conseguem os bons finais.
Se vós prestardes, a apoiarem os alucinados (farrapos) desanimarão
de sua empresa. Se vos negardes (a apoiar) a este útil trabalho
(a pacificação) eles (farrapos) se julgarão com
forças bastante e levarão avante seus planos e então
todos abismaremos.
"As armas, cidadãos! As armas, brasileiros!"
Sala da Câmara Municipal de Alegrete, 5 de janeiro de 1836.
Ass.: Joaquim dos Santos Prado Lima - Presidente e mais 6 vereadores.
Bento Manoel na Guerra contra Oribe e Rosas e morte
Bento Manoel foi convidado por Caxias para defender a Integridade e
a Soberania do Brasil na Guerra contra Oribe e Rosas 1851-52 ,aos 68
anos de idade .
Coube-lhe o comando da 1a Divisão integrada por 4 brigadas comandadas
pelo brigadeiros Francisco Arruda Câmara, Manoel Marques de Souza
(futuro Conde de Porto Alegre) e coronéis João Propício
Mena Barreto e Jerônimo Jacinto Pereira .
Ele
faleceu em Porto Alegre ,em 1859 .Seu túmulo notável se
encontra na entrada do Cemitério de Uruguaiana ,capital hoje
da região cenário de suas glorias e brasileira graças
em grande parte ao seu valor militar .
E entrou para História controvertido por suas posições
ora a favor dos farrapos ora ao lado do Império
Ao lado da sua condenação popular injusta para a História
o tem defendido em sua atuação o Brigadeiro José
Joaquim Machado de Oliveira seu contemporâneo na Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro .v.31,n o 36,p.384/402,1868;
Alfredo F. Rodrigues no Almanaque ...do RGS de 1907,o General Souza
Doca na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do
Rio Grande do Sul , nos 11 e 12 em 1923 ,no 68 o aniversário
de seu falecimento e principalmente Osvaldo Aranha na Revista Província
de São Pedro , n o 5, em 1946 , onde em artigo a Revolução
de 35 e a Unidade Nacional escreveu entre outras coisas .
"Garibaldi
colocava a sua Pátria ,a Itália, acima dos partidos e
das formas de governo .Republicano convicto ,depois de um certo período
isto não o impediu de aceitar uma Itália monárquica
,sob o cetro de um soberano que lhe garantisse a Unidade.. Essa é
a meu ver a melhor forma de patriotismo .
Na Revolução Farroupilha tivemos um homem com a mesma
formação moral : Bento Manoel Ribeiro .
O grande farroupilha foi até certo ponto a figura mais caluniada
de nossa História .Não lhe compreendiam as aparentes variações
e transigências .Não lhe perdoavam o monarquismo destoante
do espírito da Revolução .
Investigações mais profundas permitiram reconstituir a
verdadeira figura moral deste soldado .Esteve com a Revolução
enquanto foi necessário desafrontar e libertar o Rio Grande do
Sul .Quando a metrópole caiu em si e decidiu fazer-lhe justiça
,quando os farrapos receberam o ramo de Oliveira trazido por Caxias
, a sua missão estava finda .Não iria fazer o jogo do
estrangeiro .
Bento Manoel embora nascido acidentalmente fora dos pagos , é
um dos maiores tipos do Rio Grande .Guerrilheiro e soldado a sua fé
de ofício não inveja a de ninguém. Lutou pelo Rio
Grande sem nunca perder de vista a Integridade do Brasil ."
E ao finalizar este artigo creio que fornecemos os argumentos para que
Bento Manoel Ribeiro seja submetido a um Tribunal da História
para que se resgate a verdadeira dimensão de sua vida e obra
,ora seriamente comprometidas pela minisérie da A Casa das Sete
Mulheres que o apresenta como um filho do demônio capaz de todas
as maldades e a encarnação do Mal .
E tudo com o esquecimento da sua grande projeção em defesa
da Unidade, da Soberania e da Integridade do Brasil e ainda de haver
contribuído para que o Brasil conquistasse, pelas armas e pela
diplomacia ,o rico território entre os rios Uruguai, Ibicuí,
Santa Maria e Quaraí onde funcionou a estância jesuítica
de Japeju .
História é verdade e justiça ! Urge que se separe
o Bento Manuel histórico do Bento Manoel da fantasia que é
a minisérie A Casa das Sete Mulheres que penso deveria fazer
por imperativo de ética e de justiça a seguinte ressalva
ao seu término
Qualquer semelhança com Bento Manoel
da História do Rio Grande com o da fantasia que ele encarna da
minisérie A Casa das Sete Mulheres não tem apoio na realidade
histórica a não ser a sua grande capacidade militar
.
E mesmo assim seria como recolher-se um saco de penas que foi jogado
na ventania como a que demonstrava desprezo pela raça negra ,
o que não tem amparo na História .E para melhor se entender
o que escrevo é o responsáveis pela minisérie enxergarem
um familiar seu no lugar de Bento Manuel .Como se sentiriam ? Teriam
a consciência que o público separaria a verdade da fantasia
?
Reafirmo que a minisérie , como fantasia é exepcional
e talvez um marco notável na cinematografia brasileira e que
terá grande aceitação internacional .Voltarei se
Deus quiser focalizando o General Bento Gonçalves da Silva na
História .
(x)
Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil(AHIMTB)
e do Instituto de História e Tradições do Rio Grande
do Sul(IHTRGS)
.
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