Bento
Gonçalves da Silva.
por
Cláudio Moreira Bento
A
excelente minisérie da Casa das sete mulheres da Globo tem focalizado
justamente ,como herói maior do seu enredo, num misto de História
e Fantasia ,o General Bento Gonçalves da Silva. E como vilão
numa brutal desfiguração de sua real imagem o paulista
de Sorocaba, General Bento Manoel Ribeiro que o Almanaque de Zero Hora
de 2 de fevereiro sintetiza em artigo -Um guerreiro pintado de vilão.
Apresentamos
a seguir ,como já o fizemos com o General Bento Manoel, o perfil
histórico de Bento Gonçalves ,para que o leitor e pesquisador
interessado tenha uma visão da real dimensão do líder
da Revolução Farroupilha e presidente da República
Rio Grandense 1836-1845. Esta, foi a única experiência
republicana efetiva no Brasil ,antes da Proclamação da
República do Brasil ,há 113 anos . Republica Rio Grandense
que exerceu grande influência sobre o Marechal Deodoro da Fonseca,
como Presidente da Província do Rio Grande do Sul ,durante a
Questão Militar, através da pregação de
Júlio de Castilhos e de Assis Brasil , conforme ele reconheceu.
O último foi o 1º a escrever sobre a Revolução
Farroupilha e República Rio Grandense do ponto de vista dos que
as lideraram .
Em
que pese as lideranças farrapas haverem lutado em defesa da Integridade
e da Soberania do Brasil na Guerra do Paraguai como foi o caso dos sobreviventes
farrapos Canabarro ,Netto ,Silveira, José Gomes Portinho e outros
menos graduados persitiu na historiografia uma imagem distorcida ,fruto
de uma monarquista irradiada do Sudeste ,sem levar em contra o quanto
a Republica Rio Grandense contribui para a Republica Brasileira adotada
entre nos há 114 anos contra os 67 anos que durou o Império.
Este artigo procura iluminar e conciliar nos integrantes do Exército
o quanto Bento Gonçalves contribuiu para as suas gloriosas Tradições
.
Significação
histórica
Prestou assinaladas serviços militares à preservação
da Soberania e Integridade do Brasil nas Guerras de 1881-1812 ( Campanha
do Exército pacificador da Banda Oriental ), guerras contra Artigas
1816-17 e 1821, 1 Guerra da Independência do Brasil na Cisplatina
1822-24 e Guerra Cisplatina 1825-28, na qual teve atuação
destacada na proteção da junção do Exército
do Sul, ao comando de Barbacena nas margens do arroio Lechiguana, em
5 de fevereiro de 1827, em manobra considerada " obra prima de
estratégia". E além na Batalha de Passo do Rosário
, em 20 de fevereiro, no comando da 2ª Brigada de Cavalaria.
Por
isso Bento Gonçalves atingiu a condição de coronel
de Estado-Maior da 1ª linha do Exército Imperial.
Na Revolução Farroupilha foi o seu líder político-militar,
tendo sido eleito Presidente da República Rio-Grandense e seu
segundo general, mesmo preso, no Rio.
Bento
Gonçalves foi um grande estudioso de História Militar
Romana e da Revolução Francesa de onde tirou muitas inspirações
para a sua atuação militar, circunstâncias que compensavam
não haver cursado a Academia Real Militar de Largo de São
Francisco, no Rio de Janeiro.
Em
reconhecimento a seus serviços foi condecorado com a medalha
da Campanha 1816-1821 contra Artigas e com as ordens de Cristo e da
Rosa.
Para
Arthur Ferreira Filho, grande intérprete do heróico espírito
militar do Rio Grande do Sul - " Bento Gonçalves da Silva
foi o maior rio-grandense do período, herói autêntico,
figura de romance e a encarnação das melhores virtudes
de nossa raça.
Personagem
sem contrastes, brilhou como sol entre as luminárias de uma época
em que o Rio Grande se notabilizou pela superioridade moral de seus
filhos."
Confirmar
esta afirmação do mestre é obra de simples verificação,
da ligação do nome de Cel Bento Gonçalves usada
como denominação de uma cidade e ruas, além de
patrono do Regimento de Cavalaria da histórica e briosa Brigada
Militar do Rio Grande do Sul, dentre outras justas homenagens recebidas
como em curso a notável minisérie da Globo a Casa das
Sete Mulheres em que se mistura em relação a este herói
História e Fantasia
Naturalidade,
ascendência e laços de família
Bento nasceu em Triunfo-RS, na margem do Jacuí , em 23 de setembro
de 1788, tendo passado sua infância na Estância da Piedade,
próximo a Triunfo, que fora fundado por seus avós maternos.
Foi
o 10º filho do casal Alferes Joaquim Gonçalves da Silva
e de Perpétua, nome que deu a uma das filhas .
Pelo lado materno era neto do paulista de Guaratinguetá, Antônio
Costa Barbosa, e bisneto do casal Jerônimo de Ornelas - o patriarca
de Porto Alegre, que por esta razão foi chamado Porto de Ornelas,
e Lucrécia Leme Barbosa, também de Guaratinguetá,
consangüínea do bandeirante Fernão Dias Pais Leme.
Seu
bisavô, Jerônimo, era da ilha da Madeira e descendente de
fidalgos. Com ele Bento privou, em Triunfo, em sua infância, desde
que Jerônimo se mudara de Porto Alegre para Triunfo, em 1762.
O
pai de Bento que lutara na Guerra 1763-1776 comprou junto ao rio Camaquã
as sesmarias do Cristal, do Cordeiro, do Duro, do Santo Antônio
do Paraíso, e das Sobras. Atingiu o posto de capitão de
Ordenanças, foi vereador da Câmara de Porto Alegre, tesoureiro
da Delegacia Fiscal, tendo servido de exemplo e conselheiro acatado
para Bento Gonçalves até morrer.
Bento
criou-se nas estâncias do rio Camaquã, tornando-se cedo
um expoente nas lides campeiras, a par de apreciável cultura
absorvida sob a orientação do pai, um homem de largos
horizontes como o provou seu currículo sintético.
Bento, além de suas origens familiares distintas em São
Paulo, na ilha da Madeira e Portugal, ligou-se por laços de família
a diversas outras famílias distintas na parte Leste do rio grande.
Eram seus parentes na Revolução Farroupilha entre outros,
Araújo Ribeiro, Gomes Jardim ( primo ), Onofre Pires, Antunes
Soares da Porciúncula, Florentino Souza Leite ( de Canguçu
) e Chico Pedro ou " Moringue " .
Serviu-lhe
de padrinho de batismo o Tenente Manoel Carvalho que levantou a única
planta até hoje conhecida de Fortaleza, Santa Tecla, em Bagé,
antes de ser arrasada em 1776., conforme demonstramos na História
da 3a Brigada de Cavalaria Mecanizada -Brigada Patrício Correia
da Câmara, em Bagé. Seu padrinho foi também o primeiro
sesmeiro das terras onde hoje se ergue a cidade de Pelotas.
De
Triunfo, depois da expulsão dos espanhóis da Vila do Rio
Grande em 7 de abril de 1776 , partiram muitos dos povoadores de Tapes,
Camaquã, Canguçu, Piratini ,Caçapava e Encruzilhada
.
O
filho de Bento Cel da Guarda Nacional Caetano Gonçalves da Silva
teve destacada participação na Guerra do Paraguai tendo
contribuído em Bagé expressivamente para a mobilização
pelo General Osório do 3o Corpo de Exército ,conforme
abordamos na citada obra em que abordamos a atuação de
seu filho Major do Exército Bento Gonçalves da Silva (neto)
no comando do Corpo de Transportes do Exército atacado em Rio
Negro e que dali conseguiu escapar e foi participar da defesa de Bagé
sitiada por federalistas por 46 dias ,no final de 1893 e inicio de 1894.
Furriel
de Auxiliares
Na
Campanha de Pacificação da Banda Oriental, 1811-12, integrou
o Exército ao comando de D. Diogo de Souza. Assistiu à
fundação de Bagé por D. Diogo e, de lá,
aos 23 anos, escreveu ao pai " que tudo corre bem e que a experiência
correspondida `as minhas expectativas" , depois de apresentar-se,
em 15 de julho de 1811.
Sua primeira missão militar foi logística. Foi promovido
a furriel de Auxiliares e colocado por D. Diogo, como Alcaide ou Juiz
de Paz de Cerro Largo, ou Melo atual, para dali ajudar a suprir o Exército
Pacificador, em operações.
Terminada a campanha se estabeleceu no local como comerciante. Ali conheceu
, aos 26 anos a sua futura esposa a oriental Caetana, em 1814.
Em
Cerro Largo trabalhou e estabeleceu largo círculo de amizades.
Em Las Canas, afluente do rio Jaguarão, próximo à
fronteira do Rio Grande, estabeleceu a sua estância de criar e
invernar gado.
Com a esposa manteve modelar ligação, conforme correspondência
disponível que não corresponde à falsa imagem de
conquistador que a TV Bandeirantes vinculou em 2 de dezembro de 1985
no programa Guerra dos Farrapos.
Informante da Fronteira do Rio
Grande
Face
à difícil situação no Prata, Bento Gonçalves
tornou-se agente de informações, no Uruguai, para o célebre
fronteiro Manuel Marques de Souza, atual denominação histórica
da 8a Brigada de Infantaria Motorizada em Pelotas ,conforme nosso obra
A História da 8a Brigada de Infantaria Motorizada .Marques de
Souza era o comandante da Fronteira do Rio Grande, herói da expulsão
dos espanhóis da Vila do Rio Grande, em 1º de abril de 1776,
como Ajudante- de - Ordens, do General Böhn e padrinho de batismo
do Almirante Tamandaré .e avô do futuro Conde de Porto
Alegre.
E, assim, Bento enviou informes, posteriormente confirmados, alguns
com riscos pessoais, sobre as movimentações de Artigas.
Mantendo
comércio com o Brasil, foi atingido duramente por medidas decretadas
por Artigas, no sentido de impedir a passagem para o Brasil, de gado,
couros e sebo da Cisplatina.
Capitão de Milícias
contra Artigas
Acreditando
que outras medidas restritivas seriam adotadas, uniu-se ao mais tarde
Coronel de Milícias Albano de Oliveira Bueno, seu amigo e compadre,
para o seguinte oferecimento, caso o Brasil invadisse a Cisplatina.
" Avisados com o tempo, desarmariam a guarnição de
Cerro Largo, tirando-lhe os cavalos. Colocariam à disposição
das Tropas do Brasil 600 cavalos e reuniriam 60 homens armados, desertores
e foragidos, desde que fossem perdoados ou anistiados."
O
Coronel Albano era filho de um paulista de Guaratinguetá. Na
Revolução Farroupilha se colocou do lado do Império.
Preso em Pelotas, no combate de passo dos Negros, foi morto no arroio
Velhaco pela escolta, não se sabe em que circunstâncias.
Albano deu o nome de albanesa a uma partida de espadas que adquiriu
para seus homens .Foi com uma espada albanesa que Bento Gonçalves
iria ferir de morte ,em duelo ,o Cel Onofre Pires ,próximo a
Santana atual .
A oferta de Bento e Albano foi aceita mas as operações
evoluíram.
Segundo
interpretações dominantes, Bento foi eleito Juiz de Paz
e Alcaide de Cerro Largo , localidade que foi invadida por artiguenhos.
Estes saquearam e incendiaram suas vendas.
Antes
dessa ação, em carta ao pai Bento escreveu em 4 de setembro
de 1816:
" Estar estabelecido em Cerro Largo com negócios de fazendas
e bebidas, haver comprado uma estância por 30 mil cruzados, com
12 mil de aviso, a qual possuía 15.000 reses, cavalos, carretas,
escravos etc... e em dois anos pretendo estar livre de dívidas."
Durante
a guerra contra Artigas 1816-17, Bento iniciou sua carreira militar,
com 28 anos, que o conduziu, 13 anos depois, à sua promoção
a coronel de 1ª linha e de Estado - Maior do Exércitp .
E, em 1836, decorridos 20 anos de vida militar, a general de República
Rio-Grandense e Comandante -em - Chefe de seu Exército.
Atuação
nas Guerras contra Artigas
A
partir de Cerro Largo apoiou logisticamente a Divisão de Voluntários
Reais, que invadiu o Uruguai, ao comando de Lecor, pelo litoral, e na
qualidade de alcaide e juiz de paz.
Foi alvo de represália que destruiu e saqueou sua casa comercial.
Obrigado a ir para o Serrito do Jaguarão ( Jaguarão atual
) foi colocado è frente de uma guerrilha.
Em
fevereiro de 1817 destroçou partida inimiga que saqueava Herval.
Em 22 de abril de 1817, a partir de Encruzilhada do Sul, recrutou guerrilheiros
de Encruzilhada, Canguçu, Piratini, Pinheiro Machado, Herval
e Jaguarão atuais para liderar a defesa móvel da Fronteira,
no rio Jaguarão, depois de a medida ser aprovada pelo Marques
de Souza (I), Comandante da Fronteira, em Rio Grande.
Com
esta tropa e o título de Comandante da Partida Volante da Fronteira
de Jaguarão ingressou, em 22 de setembro de 1817, no serviço
militar, em caracter oficial, através de ato do Marquês
de Alegrete Capitão General do Rio Grande(atual RGS) e que sintetizo:
"
Ordem para organizar de novo a guerrilha do Capitão Bento Gonçalves
da Silva, com homens desde que não desertores, a partir de hoje.
O
ponto de reunião deve ser ao sul do Jaguarão, na faixa
entre Jaguarão e Bagé. Bento terá liberdade de
interiorizar-se no Uruguai e lá praticar todas as hostilidade
permitidas pelo direito de guerra. " Terminava dizendo que Bento
" pelas provas de valor e lealdade, iria bem cumprir os deveres
do bom português". 5
Dentro desse contexto Bento Gonçalves participou das seguintes
ações:
Em 1818 em Currales derrotou o oriental Moreira. Em 20 de julho de 1818,
em Las Canas, derrotou e aprisionou Delgado. Em 6 de maio de 1815, em
Cordovez bateu e aprisionou Ortoguez. Em 25 de julho de 1815, em Carumbé
destroçou " Lopes Chico". Em janeiro de 1820, no arroio
Olimar, derrotou o coronel Aguiar.
Estava, pois, formado guerreiro, na Academia Militar dos Coxilhas da
Fronteira do Vai e Vem 6 " vendo, tratando e pelejando", segundo
Camões.
Traços
de seu perfil militar
Sobre
seu perfil militar escreveria em Canguçu mais tarde uma testemunha
ocular na Revolução Farroupilha, o Tenente Caldeira:
"
Foi o primeiro general da república, tanto pela tática
militar, como pelo prestígio na Província do Rio Grande.
Era um cidadão muito atencioso, prudente e valente como os mais
valente dos generais do Exército ( Rio-Grandense ).
Era de boa estatura e bem feito de corpo. Tinha a cabeça pequena
e redonda. Era a primeira espada da Província e tinha conhecimento
da História Romana."
Noutra
oportunidade o mesmo depoente o definiu melhor ainda:
"
Bento Gonçalves era um homem prudente, não só frente
ao inimigo e também no círculo de seus amigos. Em combate
ele era o primeiro visado pelo inimigo. Sabia o momento de atacar e
vencer, bem como o da retirada, quando julgada conveniente. Era um homem
popular e apreciado. Era bem apessoado, mais alto do que baixo. Possuía
ombros largos e corpo bem desembaraçado e flexível. Era
bonito de rosto e simpático. Era uma das primeiras espadas do
seu tempo. Desconhecia homem que lhe impusesse condições.
Por tudo, o povo o seguia como se fora ele a alma dos rio-grandenses...
Ele era símbolo de Liberdade, como João Antônio
Silveira era o da Prudência.
Era um perfeito patriota! Possuía predicados desconhecidos pelo
homem normal. Não era um homem de cultura comum. Era ilustrado
e dava-se muito à leitura de obras de peso. "
Aqui ressalta a importância da cultura geral do líder e
especialmente em História Romana. Esta, fonte e inspiração
de sua cultura militar notável.
Morivalde
Calvet em estudo sobre o líder farrapo apresentou os dados a
seguir:
Bento Gonçalves foi mestre consumado de todos os esportes campeiros.
Sobre ele escreveu Garibaldi:
" Bento Gonçalves cavalheiro errante do ciclo de Carlos
Magno, irmão pela alma dos Olivérios e Rolandos, vigoroso,
leal, ágil com eles. Era um verdadeiro centauro, manejando um
cavalo como eu nunca vi ser manejado, senão por outro gaúcho
rio-grandense, o general Neto. "
Penso
que esta circunstância por si só naquele tempo assegurara
o status de ídolo popular a Bento Gonçalves.
Sobre sua rusticidade atesta a sua alimentação diária
em campanha, " churrasco e água pura" - frugalidade
espartana.
Francisco Sá Brito, ex-ministro farrapo em Memória da
Guerra dos farrapos, concluída em 1875 em que pese reservas a
Bento Gonçalves sobre ele escreveu:
"
Devo aqui fazer justiça ao nobre caracter e suma bondade do chefe
da Revolução. Se estudos regulares ornassem seu espírito
para os quais tinha uma imensa agilidade, esta condição
somada ao seu caracter enérgico tão generoso e vistas
elevadas e perspicaz e ,teria feito dele um homem destinado para grandes,
gloriosos e proveitosos feitos ."
É o testemunho de um jurista que estudou em Coimbra e São
Paulo de 1826-32 e foi jornalista de o Echo -:Porto Alegrense e O Continentista
e a quem Bento Gonçalves convocou de pois da vitória de
20 de setembro para dizer-lhe e a outros líderes civis:
"
A força já fez o que lhe cumpria fazer. Agora compete
aos senhores, como pessoas inteligentes, encaminhar a governança
do país."
Foi
ainda numa assembléia presidida por Sá Brito e secretariada
pelo Major do Exército José Mariano de Mattos que Bento
Gonçalves deu prova eloqüente de sua grandeza de espírito
e autoridade moral.
Tratava-se de uma manobra revanchista liderada por Pedro Boticário,
como Juiz de Paz. Inicialmente foram relacionados 400 nomes de adversários,
em maioria portugueses, que deveriam ser apontados. Entregue esta relação
a uma comissão ela reduziu o número a 140 depois de três
dias. Mais dois dias de estudo ficou reduzida a 40 nomes.
Ao Bento Gonçalves retornar de Rio Grande foi-lhe apresentada.
Ele a leu calmamente. E tranqüilo e serenamente a atirou embaixo
da mesa e disse a todos os presentes: " - Isto não tem lugar
! Passemos ao próximo assunto!." E ninguém voltou
com o projeto revanchista.
Bento
Gonçalves havia retornado de Rio Grande onde depois de obter
a adesão de sua Câmara fez proclamação aos
seus companheiros recomendando .
"
Usai moderação depois do triunfo . O menor insulto às
pessoas e bens de vossos inimigos será uma mancha em vossa glória."
O
seu conceito nacional foi assim interpretado por Evaristo da Veiga na
Aurora Fluminense, o que dificulta negar a sua condição
de ídolo e herói popular do Rio Grande com projeção
nacional alegada por alguns estudiosos.
"O
Coronel Bento Gonçalves da Silva tem por seu valor adquirido
um nome brasileiro ( projeção nacional ) : Valente defensor
de sua Pátria contra o inimigo estrangeiro, por sua probidade,
coragem e retidão conquistou entre os povos da fronteira do Rio
Grande, onde mora, um tal conceito que por seu nome toda aquela população
se move para o combate, certa de que marcha para a vitória e
de que possuem um chefe leal e um brioso companheiro de armas."
Repare-se
as expressões probidade, retidão reconhecidas pela imprensa
da capital do Império.
Depoimento dos que com ele conviveram referem a sua religiosidade equilibrada,
sincera, sem fanatismo e a sua simplicidade no vestir quase sempre à
paisana com uma jaqueta de brim. Nunca usando fardão com medalhas
e condecorações que possuía.
Quando era impositivo fardar-se envergava jaqueta de pano azul da Cavalaria
ou verde da Infantaria, conforme tivesse que homenagear uma ou outra
arma , e sem insígnias.
Segundo
conclui de Fontoura em seu Diário , Bento Gonçalves durante
marchas noturnas e acampamentos dava assistência cerrada a tropa,
percorrendo todos os grupos e comunicando e convencendo seus soldados
de seus projetos.
Segundo se conclui do Tem Cel Oscar Wiedrsphan ao biografá-lo,
assim escreveram sobre Bento Gonçalves seus superiores nas guerras
contra Artigas:
"
Muito desembaraçado e prestimoso para o serviço desta
campanha ( uruguaia ) em que é sumamente prático ( Marquês
de Souza, Comandante da Fronteira do Rio Grande ). "Subordinado
ativíssimo e valoroso" ( Do Ajudante-de-Ordens do Marques
de Alegrete). "Prestou relevantes serviços. É valente
" ( Conde da Figueira ).
Compõe
seu perfil militar e atesta seus serviços, decreto de 24 de janeiro
de 1834 da Regência que lhe concedeu pensão de 1.200$000
réis anual.
"
Atendendo aos relevantes serviços que tem prestado por longos
anos nas trabalhosas campanhas do Sul, onde sacrificou toda sua fortuna,
a maior parte dela despendida ao serviço da Pátria e,
tomando em consideração que esse benemérito oficial,
possuindo fazendas no Estado Oriental, as abandonou ao inimigo que corajosamente
debelara, desprezando seus convites ( ofertas ) com brio e honra, o
que lhe são próprios , portando-se em todo o tempo com
a maior firmeza de caráter, amor e adesão à Independência
do Império, à sua Constituição e ao Sr.
D. Pedro II, tendo sempre, em maior conta, o serviço da Nação,
do que a sua numerosa família, que com ele passara as maiores
privações."
E
reconhecendo a Regência que estes serviços tão importantes,
até então não foram premiados ou compensados, foi-lhe
concedida a pensão que foi aprovada pela Assembléia.
Quando
Bento Gonçalves foi promovido general da República, em
12 de novembro de 1836, a justificativa da República Rio - Grandense
escudou-se no seguinte argumento que compõe seu perfil militar:
"
Por merecimento, valor, acrisolado patriotismo, perícia militar
e relevantes serviços prestados è causa da liberdade rio-grandense."
Caldeira
para comparar Bento e Netto diz que o primeiro sabia combinar as três
armas e que Netto não, pois só sabia empregar Cavalaria.
Domingos José de Almeida que conviveu intimamente com Bento Gonçalves
assim traçou seu perfil por volta de 1850:
"
Aprendeu apenas as primeiras letras. Sendo criado no exercício
do campo, se fez insigne cavaleiro. Era de estatura ordinária
e proporcionada, mas dotado de força e destro ( hábil
) no manejo de diversas armas. Era de fisionomia regular e simpática
e muito popular.
Cultivou com grande assiduidade seu grande talento no estudo da História.
Principalmente sobre a vida dos grande homens, dos quais sempre trazia
alguns casos em suas conversações particulares."
Vê-se que foi um autodidata. Outro contemporâneo refere
aos estudos de Bento Gonçalves de História Romana. Em
correspondência ele referiu a personagens da História Romana
e da Revolução Francesa.
Aí estão algumas de suas inspirações.
Almeida confirmou noutra oportunidade o que afirmara. Escreveu que Bento
Gonçalves iniciou a vida como furriel de Auxiliares em 1811-1816
e, o mais importante:
" Que era um homem incapaz de dirigir uma revolução
porque seu coração de mulher ( bondoso ) estava sempre
em luta com seu espírito forte e superior a todas as vicissitudes.
Depois de afirmar que seu " coração bondoso predominava
a maior parte das vezes sobre o seu espírito forte e resoluto"
concluiu que as decisões de Bento Gonçalves" eram
sempre rápidas e enérgicas", seja sobre influência
da bondade ou de seu espírito forte e superior.
Ação na Guerra Cisplatina
1825-28
Bento
Gonçalves saiu major de Milícias na guerra contra Artigas.
Participou ativamente, em Serro Largo, da incorporação
do Uruguai ao Brasil como Província Cisplatina e mais tarde em
1824, do dispositivo militar que consolidou, em Montevidéu, a
Independência do Brasil, na Província Cisplatina.
Desde
de 1824, Bento Gonçalves, como tenente coronel de Milícias
radicado em Serro Largo, passou a comandar, dali, aquela Fronteira,
com apoio no Regimento de Cavalaria de Milícias que organizou,
com sede em Jaguarão. Regimento que com a criação
do Exército Brasileiro em 1º de dezembro de 1824, passou
a ser o 39º Regimento de Cavalaria de 2ª Linha a seu comando.
Antes
de irromper a guerra Cisplatina 1825-28 , Bento Gonçalves já
havia vendido sua estância Leonche, em Serro Largo.
Mudou então sua família para estância do Cristal,
junto ao rio Camaquã, hoje, sede do Parque Histórico Bento
Gonçalves.
Em 12 de outubro de 1825, aniversário de D. Pedro I, Bento Gonçalves
foi promovido a coronel, no mesmo dia em que, na Cisplatina, no combate
de Sarandi, conheceu o sabor da derrota, ao comando do seu tocaio o
Coronel Bento Manuel Ribeiro.
Em
24 de maio de 1827, no Passo São Diogo, bateu força argentina.
Em 22 de junho seguinte, na Estância do Sego, bateu destacamento
do General La Valle.
Por
ocasião das marchas estratégicas dos Exércitos
do Brasil, ao comando do Marquês de Barbacena e o republicano,
ao comando de Alvear, para a Batalha do Passo do Rosário, em
20 de Fevereiro de 1827 e, nesta histórica batalha, teve papel
de relevo no comando da 2ª Brigada de Cavalaria.
Inicialmente
cobrindo o flanco; a partir de Jaguarão, da coluna do general
Brown que de Pelotas rumou para operar junção com Barbacena
que marchava desde Santana, protegida no flanco direito por Bento Manuel.
Depois, em Santa Tecla cobriu o Exército de Barbacena e em seguida
protegeu a homérica transposição do Camaquã
- Chico, da citado Exército de Barbacena, quando impediu a interferência
de Alvear.
Cobertura decisiva para o Exército do Sul operar junção
em região de serra, no arroio Lechiguana. Posição
interposta entre Alvear e os principais centros gaúchos da época.
Finalmente, na Batalha de encontro de Passo do Rosário, na proteção
do flanco direito do Exército, e cobertura da retirada estratégica
para o Passo São Lourenço, no rio Jacuí, para fugir
ao incêndio, conforme estudamos na revista a Defesa Nacional .
15 e agora com mais detalhes na obra 2002-Os 175 anos da Batalha do
Passo do Rosário ,no prelo
Antecedentes da Revolução
Farroupilha
Em
1825 Bento Gonçalves foi promovido a coronel de 1ª Linha
e de Estado - Maior do Exército , cabendo-lhe o comando da Fronteira
do Jaguarão e da unidade de 1ª Linha - 4º Regimento
de Cavalaria, com parada em Jaguarão ( Serrito ), não
confundir com Serrito do Piratini (Vila Freire).
O
espírito liberal gaúcho tendia para o ideal de república-federativa,
desde 1889 uma realidade no Brasil. Idéias propagadas no século
19 e que se projetaram no Brasil e no espírito da revolução,
conforme estuda Calvet Fagundes, no fundamental instrumento de trabalho
do historiador gaúcho A Maçonaria e as forças secretas
da Revolução, 16 que não pode ser desconhecido
do historiador político, ao tratar do século citado, tão
marcado pela influência da Maçonaria.
Isto, sob pena incorrer em falsas visões e interpretações.
Bento Gonçalves passou por suas qualidades a se impor como líder
e o catalisador espírito rio-grandense.
Este
inconformado através de lideranças de charqueadores e
estancieiros com os exorbitantes impostos sobre charque, couro e légua
do campo; alta taxa de importação do sal de Cadiz para
as charqueadas; fechamento da fronteira, ao ingresso de gado uruguaio
no Brasil, e depois liberado com pesados impostos; não protecionismo
do charque gaúcho, nos portos do Brasil, onde não podia
concorrer com charque uruguaio.
Esta
situação depois da guerra Cisplatina1825-28, em que os
campos gaúchos foram talados pelo invasor e pelo Exército
Imperial, não fazia justiça aos rio-grandenses e, inclusive,
aos chefes militares locais, que foram preteridos no comando do Exército
do Sul.
A
República Federativa, vitoriosa no Prata, influi muito no ânimo
de muitos rio-grandenses, segundo se conclui de Ferreira Filho.
Ela era uma alternativa válida dentro daquele quadro de discriminação
do Sudeste com o Sul, após a Independência.
Bento Gonçalves, inclusive, fora duramente atingido pelas medidas
econômicas adotadas pelo Império sob a forma de impostos
e protecionismo ao charque uruguaio.
Nas
guerras contra Artigas perdera suas propriedades na Cisplatina. Ao tentar
recuperar-se financeiramente, na estância do Cristal, em Camaquã,
uma situação fiscal adversa que provocou recessão
da economia gaúcha, o colheu em cheio, como outros no seu caso.
Na
guerra Cisplatina 1825-28, inúmeros estancieiros que sofreram
prejuízos não foram indenizados pelo Império. Tiveram
seus campos talados pelos exércitos em luta.
A
Revolução de 7 de abril de 1831, que depôs D. Pedro
I , pareceu à primeira vista que traria em sua esteira conseqüências
benéficas à aflitiva situação dos rio-grandenses.
Bento
Gonçalves mantinha, na fronteira, ligações com
Lavaleja e outros líderes platinos através de canais maçônicos.
Denunciado na Corte, foi chamado ao Rio, onde foi defendido pelo Major
João Manuel de Lima e Silva(mais tarde elevado ao posto de 1o
general da República e cunhado de Corte Real), junto ao seu irmão
regente - Francisco, pai do futuro Duque de Caxias.
Bento
Gonçalves retornou depois de contato pelos canais maçônicos,
segundo Calvet Fagundes 18 com diversos liberais, inclusive com Evaristo
da Veiga, jornalista de A Aurora Fluminense.
Com
o Ato Adicional, de 12 de agosto de 1834, foram eleitos para a Assembléia
Legislativa do Rio Grande que foi instalada em 12 de abril de 1835,
cinco meses antes da Revolução Farroupilha, entre outros
liberais, os seguintes oficiais da 1ª Linha do Exército:
Bento
Gonçalves, Bento Manuel, José Mariano de Mattos e José
Pinheiro de Ulhoa Cintra ( suplente ) desgostosos com a política
de erradicação e sucateamento do Exército e Marinha
, desde 7 de abril de 1831. Em reunião da Assembléia,
o Presidente da Província acusou nominalmente Bento Gonçalves:
"
De combinação com Lavaleja e seu mentor o padre Antônio
Caldas e, ambos, em território do Brasil, estarem trabalhando
para separar o Rio Grande do Império e federa-lo ao Uruguai.
"
O padre Antônio Caldas era alagoano, constituinte de 1824, que,
preso na Fortaleza de Santa Cruz, dela fugiu e foi acolhido pelos líderes
argentinos e uruguaios em nome da Maçonaria, conforme estudamos
na Revista do Museu do Açúcar.
Esta
atitude acendeu a fogueira. Bento recolheu-se à sua estância
no Cristal. Em Alegrete, Bento Manuel Ribeiro foi substituído
no comando da Fronteira do Rio Pardo .
A fogueira aumentou com a lenha lançada pelo incidente Major
João Manoel de Lima e Silva x Visconde de Camamu, Major Egídio
Barbuda Gordilho.
Camamú acusou falsamente João Manoel pelo jornal. Este
processou Camamú que foi condenado à prisão comum.
O radical irmão do Presidente da Província, Pedro Chaves,
tentou relaxar a prisão.
Aí entrou em cena o advogado português Pedro Boticário,
que conseguiu, derrotando o Presidente e seu irmão, que Camamú
fosse entregue e recolhido à prisão comum.
Disto tudo segundo Ferreira Filho, a Revolução Farroupilha
estourou, graças, em grande parte, à intolerância
radical de alguns governantes.
Entre estes se encontrava o Marechal Sebastião Barreto, comandante
das Armas ( inimigo do marechal José de Abreu que morreu em Passo
do Rosário),e que votava ódio a Bento Gonçalves.
20 e a Bento Manoel .
Plano para início da
Revolução Farroupilha
Bento Gonçalves, como Comandante Superior da Guarda Nacional
da Província, cujos principais líderes eram estancieiros
e charqueadores ( sendo que muitos seus parentes e amigos), desenvolveram
o seguinte plano militar, que com apoio em Alfredo Varela procuro interpretar
e sintetizar:
Finalidade:
Derrubar o Governo da Província, representado pelo Presidente
e seu suporte militar, o Comandante das Armas e o Comandante da Fronteira
do Jaguarão e assumir o controle político -militar de
toda a Província.
Objetivos:
- Conquistar Porto Alegre e derrubar o Governo da Província substitui-o
por um revolucionário.
- Neutralizar as ações do Comandante - das - Armas e do
Comandante da Fronteira do Jaguarão ( cargo do qual Bento Gonçalves
fora demitido pelo Comandante - das - Armas desde 30 de dezembro de
1834 ), na oportunidade em que eles se encontravam tratando de interesses
particulares, em suas estâncias.
- Conquistar o controle de Alegrete, São Borja, Cruz Alta e respectivas
áreas de influência, sob a liderança de Bento Manoel
e com o concurso do 8º BC de Linha de São Borja, ao comando
do Major João Manoel de Lima e Silva ( tio de Caxias ), e irmão
do Ministro da Guerra do Império ..
- Conquistar o controle político - militar das seguintes localidades,
além de Alegrete: Jaguarão, Bagé, São Gabriel
na fronteira com o Uruguai e, mais a retaguarda - Herval, Canguçu
e Piratini, na Serra dos Tapes e Encruzilhada e Caçapava, na
Serra do Herval; no corte do Jacuí, Rio Pardo , importante centro
provincial e Cachoeira e Triunfo; em torno de Rio Grande, ao Sul, Povo
Novo ( terra de Netto ) e ao norte Mostardas Estreito e, em trono de
Porto Alegre, Guaíba ( na época Pedras Brancas ), Viamão
e Santo Antônio da Patrulha.
Não foram incluídas Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas,
São José do Norte e a Colônia de São Leopoldo,
núcleos sob controle dos imperiais, bem como Herval.
Bento
Gonçalves contava com o apoio das unidades de linha do Jaguarão,
Bagé, São Gabriel, Rio Pardo e São Borja, pois,
dois comandantes delas, João Manoel de Lima e Silva e José
Mariano de Mattos, estavam comprometidos com a Revolução.
Eram os únicos com curso na Academia Real Militar do Largo de
São Francisco, no Rio.
No dia do início da Revolução julgava-se Bento
Gonçalves distante e em licença em Entre - Rios.
Mas ele encontrava-se em seu QG revolucionário, em Guaíba
( Pedras Brancas ), acolhido na casa do primo Gomes Jardim, dando os
últimos retoques e instruções para que o movimento
fosse simultâneo. Sua última instrução foi
dirigida a Canguçu, para seu amigo e parente Florentino Souza
Leite.23 Dali ele poderia acompanhar o lance decisivo - a conquista
de Porto Alegre.
Execução
do Plano
Em
19 de semtebro de 1835, forças ao comando dos parentes de Bento
Gonçalves, Onofre Pires e Gomes Jardim, cerram sobre Porto Alegre.
Onofre,
depois de concentrar, em Viamão, elementos locais de Osório,
Santo Antônio e Gravataí atuais. Gomes Jardim depois de
atravessar o Guaíba, com elementos que reuniu em Pedras Brancas
(Guaíba ) uniu-se a Onofre Pires, mais tarde morto em duelo com
Bento Gonçalves, a quem coube dirigir a ação, a
partir de posições hoje ocupadas pelos cemitérios,
junto à ponte Azenha ( ponte do moinho ).
O
ataque teve lugar à noite, com vantagens para os revolucionários
que penetram em 20 de setembro , no perímetro, sem reação,
com adesão da Guarda Nacional e reforço de cerca de 300
homens do Capitão Manuel Antunes de Porciúncula ( concunhado
de Bento ), que este propusera para comandar os Permanentes antes de
30 de novembro, no que foi recusado pelo Presidente Braga. Aumentada
a pressão, a Polícia ( Corpo de Permanentes ) desertou.
O Presidente Braga procurou reagir no Arsenal de Guerra.
No
desamparo, embarcou na escuna " Rio-Grandense" e rumou para
Pelotas à procura de apoio. Lá prendeu, sob suspeita de
querer atuar sobre ele, o mineiro Domingos José de Almeida, que
transportou preso para Rio Grande, soltando-o, somente, quando vitoriosa
a Revolução e embarcou forçado para o Rio de Janeiro.
Em
todos os outros lugares a revolução impôs-se, sem
resistência, à exceção dos seguintes:
Rio Pardo resistiu até 30 de setembro, sob a liderança
do Marechal João de Deus Mena Barreto. E capitulou na presença
de Bento Gonçalves e com reforços da Guarda Nacional,
de Cachoeira e Triunfo.
Em São Gabriel houve resistência até 4 de outubro
de 1835, quando o 3º Regimento de Cavalaria de Linha aderiu à
revolução, ali liderada pelo tenente-coronel e mais tarde
general farrapo João Antônio da Silveira.
São Gabriel revolucionária, dissuadiu a reação
do Comandante das Armas, seguida de seu internamento no Uruguai, ao
ver, em Batovi, o 2º RC de linha de Bagé aderir à
Revolução. Foi substituído na função,
pela revolução vitoriosa, pelo Coronel Bento Manoel Ribeiro,
seu desafeto.
A
reação mais forte foi, em Herval, do Tenente-Coronel João
da Silva Tavares, que passou a dominar a área entre o Jaguarão
e Pelotas, com um grupo de homens de sua família.
Lançou-se
contra o Capitão Domingos Crescêncio de Carvalho, que havia
aderido à revolução com o 4º RC de 1ª
Linha, de Jaguarão, obrigando-o a emigrar. Mais tarde, em 16
de outubro, o Capitão Crescêncio bateu Silva Tavares, no
Retiro, no arroio Pelotas, junto a Pelotas atual.
O
Major Manuel Marques de Souza protegia Pelotas que reagia à revolução
por ter sido muito prestigiada pelo Presidente Braga que a elevara à
cidade com o nome de Pelotas.
Ao
Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre, coube a última
reação, ao vencer, em 14 de outubro de 1835, no arroio
da Várzea, próximo a Pelotas, o Capitão Manuel
Antunes de Porciúncula.
Bento Gonçalves decidiu numa ampla manobra estratégica,
submeter ao mesmo tempo Pelotas, Rio Grande e São José
do Norte.
Enviou
Onofre Pires, a partir de Porto Alegre, contra São José
do Norte, para servir de bigorna ao papel que ele faria de martelo,
para submeter Rio Grande, abrigo do Presidente Braga deposto.
Assim,
a partir de Porto Alegre, através de passo da Armada, no Camaquã,
depois de reunir recursos em Camaquã, Encruzilhada, Canguçu
e Pelotas ,ocupou esta última cidade forte de 400 homens, forçando
a que sua Câmara reconhecesse o Governo Revolucionário
em 15 de outubro.
A
seguir transpôs o Passo dos Negros, no São Gonçalo.
Em 20 de outubro cercou Rio Grande. Rendido, e sem condições
de resistência, o Presidente Braga deixou Rio Grande, em 23 de
outubro, depois da Câmara local reconhecer o Governo Revolucionário,
bem como a de São José do Norte.
Com
o reconhecimento do Governo Revolucionário pelas câmaras
de Pelotas, Rio Grande e São José do Norte coroava-se
de êxito o plano revolucionário farrapo.
Bento
Manoel assumiu o Comando - das - Armas revolucionário. Os 8º
BC de Lima e Silva e o 1º Corpo de Artilharia a Cavalo de Mattos
retornaram de São Borja, e Rio Pardo para o esquema de segurança
do Governo Revolucionário, em Porto Alegre.
Assim,
em cerca de 1 mês, a Revolução Farroupilha havia
dominado e empolgado todo o Rio Grande do Sul e, particularmente, seus
mais importantes e estratégicos pontos: Rio Grande, Porto Alegre
e Rio Pardo e com apoio das cinco unidades de Linha: 3 Regimentos de
Cavalaria ( Jaguarão, Bagé e São Gabriel ), Batalhão
de Caçadores e 1 Corpo de Artilharia a Cavalo, a mais importante
guarnição do Exército.
Fora do Rio Grande estavam os maiores obstáculos e a causa próxima
da Revolução: O Presidente Braga e o Marechal Sebastião
Pereira Barreto .
Toda
esta trama liberal republicana é explicada por Morivalde Calvet
Fagundes na obra A Maçonaria e as forças secretas da revolução,
instrumento de trabalho fundamental ao historiador do século
XIX em geral ,repetimos.
Reviravolta
na Revolução
Depois
de consolidada a Revolução com domínio de todo
o Rio Grande do Sul de então, o quadro vai alterar-se substancialmente,
a partir da posse, em janeiro de 1836, do novo Presidente Araújo
Ribeiro, em Rio Grande. Contou com o Coronel Bento Manuel Ribeiro para
lutar pelos imperiais, o que se deu ( dezembro de 1835 a março
de 1837 ).Muitos revolucionários se satisfizeram com a derrubada
do governo provincial ,como foi o caso do Tenente Osório futuro
Patrono da Cavalaria do Exército .
E
por uma hábil e incruenta manobra política a estratégica
, a cidade do Rio Grande voltou definitivamente ao Império, junto
com São José do Norte. Serviu para o Império ali
estabelecer inexpugnável base terrestre e naval, aberta a reforços
de toda a natureza e protegida pelo canal São Gonçalo.
Porto
Alegre foi reconquistada em definitivo, em 15 de junho de 1836, com
a prisão de 36 líderes revolucionários. Este fato
fez abortar a idéia de reconquistar Rio Grande e criou condições
de apoio mútuo de Porto Alegre e Rio Grande, através das
forças navais que em pouco dominaram toda a navegação
interior do Rio Grande ( 23 de agosto de 1836 ).
Este fato veio agravar-se ainda, mais quando Bento Gonçalves
foi preso na ilha do Fanfa, quando retirava-se do sítio de Porto
Alegre, e ao atravessar o rio Jacuí . Isto por insistência
imprudente de Onofre Pires, desde então seu inimigo, ao ser criticado
por ele Bento.
Estas
circunstâncias adversas foram amenizadas com a vitória
de Netto, em Seival, em 10 de setembro de 1835,com a sua Brigada Liberal
integrada por gente de Piratini e de seus distritos Canguçu,
Cerrito e Bagé ate o Pirai , seguida da Proclamação
da República no dia seguinte, no Campo do Menezes.
Bento
Gonçalves fora favorável a bater por partes o adversário.
Primeiro Bento Manuel, depois de conquistar Rio Grande e, finalmente,
Silva Tavares. Mas foi voto vencido pelo Major João Manoel que
decidiu que Bento Manuel e Rio Grande fossem atacados ao mesmo tempo,
segundo Canabarro Reichardt ao biografar Bento Gonçalves ( Ed.
Globo, 1933 ).
Prisão
e fuga de Bento Gonçalves
Em
4 de outubro de 1836, Bento Gonçalves foi obrigado a render-se
sem aceitar as condições que lhe foram oferecidas.
Elas implicavam na cessação da Revolução.
Ele, estava ferido a bala desde Viamão.Foram presos com ele,
Onofre Pires e o Conde Tito Lívio Zambecari. Bento Gonçalves
e os demais foram levados para o Rio, para a Fortaleza de Santa Cruz.
Ali já se encontravam vários aprisionados em Porto Alegre,
quando esta foi tomada pelo Império.
Bento
Gonçalves recriminou Onofre Pires como responsável, pelo
peso de sua opinião, pela armadilha da ilha do Fanfa. Teve com
ele uma discussão, ao ponto de quase irem às vias de fato,
não fora a intervenção de Greenfel, segundo testemunhou
Caldeira.
Esta
inimizade se acentuou em Alegrete. Isto quando Onofre Pires integrou
a minoria oposicionista na Assembléia Constituinte, instalada
em 1º de setembro de 1842, em Alegrete, o que provocou a renúncia
tempos depois de Bento Gonçalves à Presidência e
ao Comando - em - Chefe.
Ela
foi terminar em 27 de fevereiro de 1884. Tudo por haver se deixado,
cego pela paixão, ser manipulado por um grupo, que nem sequer
prestou-lhe assistência nos seus últimos momentos.
Quando
Bento Gonçalves retornou da Bahia de onde fugira, Onofre Pires
recusou a entregar -lhe o Comando do sítio de Porto Alegre ,
conforme registrou Caldeira, em seus "Apontamentos".
Bento, Onofre e Zambecari foram levados ao Rio, à Fortaleza de
Santa Cruz, para fazerem companhia aos presos, em Porto Alegre, e mais
Corte Real, preso em combate por Bento Manuel, no passo do Rosário.
Bento
Gonçalves preso no Rio e Bahia
Bento partiu consciente de que o vácuo de poder gerado com a
prisão e dos demais, com a queda de Porto Alegre, tinha sido
preenchido com a Proclamação da República por Netto.
Em
15 de março de 1837, falhou sua fuga da Fortaleza Lage, em solidariedade
a Pedro Boticário que, por ser gordo, não conseguiu passar
por uma janela. Melhor sorte tiveram Corte Real e Onofre.
Bento
foi transportado para Bahia e preso no Forte do Mar. Comandava o navio,
o mais tarde Visconde de Inhaúma, herói da Guerra do Paraguai.
Em
10 de setembro de 1837, decorridos 13 dias preso na Bahia, Bento, com
auxílio da Maçonaria, evadiu-se do Forte do Mar em operação
com o concurso do Tenente Coronel Francisco José da Rocha que
estudamos pioneiramente em O Exército Farrapo e os seus chefes.
Este,
mais tarde, no Rio Pardo terá um sério incidente de insubordinação
com o General Bento Manuel. E este, em conseqüência, abandonará
a causa republicana para longa neutralidade ( 18 de julho de 1839 a
9 de novembro de 1842 ).
Isto por alegar e com razão haver sido desprestigiado com a promoção
do citado oficial, em que pese as satisfações tentadas
por Bento Gonçalves ,para cobrir erro clamoroso praticado por
subordinados a ele pelo jornal O Povo .
A fuga de Bento Gonçalves foi desvendada por Pedro Calmon e assim
sintetizo:
Do Forte do Mar Bento Gonçalves foi levado à ilha Itaparica.
Foi embarcado num navio que transportava farinha para Pelotas e Montevidéu.
Foi desembarcado em Florianópolis atual. Dali seguiu a cavalo,
em companhia do catarinense Mateus.
Em
3 de novembro de 1837, atingiu Torres e em 10 de novembro de 1837, Viamão
( depois Setembrina ) - Quartel-general do sítio ao Comando de
Onofre Pires.
Isto, decorridos 1 ano e 7 meses de sua prisão e dois meses de
sua fuga da Bahia.
Ambas as prisões no Rio e Salvador eram insalubres e desconfortáveis,
conforme trecho de carta na qual Bento pedia.
" Mais 3 camisas, por estarem em frangalhos as suas, um capote
por sentir frio à noite, pois só tinha um lençol
para cobrir-se e um par de tamancos para passear na masmorra em que
estava preso que é toda uma lagoa cheia imundície e de
péssimo cheiro".
Masmorra sob a muralha externa, com entrada de luz indireta pela porta
de grade.
Estes fatos hoje fantasiados revelam o martírio do líder
farrapo que chegou na Bahia, em 26 de agosto de 1837, conforme observou
o Jornal , local apresentado "ar seco, aspecto melancólico
e sisudo".
Bento
Gonçalves na Presidência da República
Em
Viamão, Bento reassumiu a Presidência e o Coamdo-em-Chefe
do Exército, com a Revolução em melhores condições
em deixara. Onofre Pires apresentou-lhe reação em entregar-lhe
o comando, conforme queixou-se Bento a Caldeira.
Com
célebre incidente de Bento Manuel, pretendo o Presidente da Província,
em Itapevi, Alegrete, quando este ia prendê-lo, a causa republicana
ganhara um novo alento.
No
período de 23 de março de 1837 a 18 de julho de 1839 em
que Bento Manuel lutou pelos farrapos, acrescido do período de
neutralidade 15 de julho de 1839 a 8 de novembro de 1842, ou portanto
durante 5 anos 7 meses e 16 dias, a República Rio-Grandense estruturou-se
e se organizou melhor até 1840, quando começou a declinar,
em razão do grande endividamento interno e externo.
Nessa fase, Bento Gonçalves atuou mais como político e
diretor da guerra no campo estratégico, como Presidente e Comandante-em-Chefe
do que comandante tático.
Grande
endividamento interno e externo
Depois de quase 5 anos de revolução a economia do Rio
Grande a base da pecuária que a sustentava começou a apresentar
sinais de exaustão e a crescer em demasia o endividamento externo
e interno.
Os
créditos internos e externos se retraíram com reflexos
no apoio logístico e administrativo ao Exército da República.
Surgiu oposição a Domingos José de Almeida que
deixou a estrutura de apoio logístico que detinha como Ministro
da Fazenda e Interior, cercado de acusações das mais injustas,
segundo interpretações dominantes.
Os demônios das revoluções, as contradições,
as insatisfações, as injustiças, as calúnias,
osdesejos divergentes, as ambições incontroláveis,
e as frustrações, etc. foram soltos nos campos da República
Rio-Grandense e substituídos pelo gado que sustentara a luta
e as cavalhadas.
Estas,
agora desgastadas, eram a base da mobilidade farrapa e penhor para prolongamento
da luta, e, ela assim, sobreviver e manter acesa a esperança
de uma solução honrosa.
Em
1840 foi eleita a Assembléia Constituinte, em Alegrete, de 36
deputados. Liderou a maioria de 30, Domingos José de Almeida
e a minoria de 6, Antônio Vicente da Fontoura, ambos inimigos:
Fontoura foi apoiado por Onofre Pires.
Foram sessões tumultuadas de 1º de dezembro de 1841 a 16
de fevereiro de 1842, quando tinha lugar a a aproximação
do Conde de Caxias de Alegrete.
Foi
inclusive apresentado um projeto de abolição da Escravatura,
pelo Coronel José Mariano de Matos, mas rejeitado. 26
O Império através de seus agentes procurava minar para
reinar, segundo se conclui de Morivalde Valvet Fagundes, ao custo da
derrubada de Bento Gonçalves.
Bento
foi acusado de autor intelectual do assassinato do Vice - Presidente
Antônio Paulino da Fontoura, caso rumoroso abordado pelos historiadores
da Revolução.
Embora
contando com apoio da maioria, Bento Gonçalves renunciou em 4
de agosto de 1843, passando a Presidência a Gomes Jardim e o Comando
- em - Chefe a David Canabarro. 28
Foi lutar como comandante de Divisão. Ao passar o comando a Canabarro,
referiu-se a este como "benemérito e ínclito rio-grandense".
Exortou
a todos a se reunirem em torno de tão virtuoso patriota, desse
novo Fábio ( Gomes Jardim ), que pela segunda vez deixa a "charrua"
( arado ).
A
renúncia teve lugar em Piratini, novamente capital desde março
de 1843, depois de ter sido em Caçapava e Alegrete.
Nesta fase, Bento como comandante de Divisão, tomou parte dos
dois combates de Canguçu, em 25/26 de outubro de1843 ( Pedras
das Mentiras) e 6 de novembro de 1843 ( Cerro do Ataque ), ao lado do
Cerro da Liberdade, na tentativa de lá desalojar Chico Pedro
de Abreu, desde agosto, instalado em Canguçu com a Ala Esquerda
do Exército de Caxias, conforme estudamos.
Duelo
com coronel Onofre Pires
Logo
depois desses combates de Canguçu , terra de Teixeira Nunes e
de Manoel Alves da Silva Caldeira, 30 ,Bento duelou com Onofre Pires,
que morreu em 3 de março de 1844.
Em carta a Domingos de Almeida de 4 de março, Bento descreveu
o duelo: "fim desastroso de Onofre, que fazia o papel de Santerre"(
da Revolução Francesa ) na minoria ( liderada por Antônio
de Fontoura ) que o incitara "a provocar-me tão atrevidamente...
a paixão dominava a minoria e por isso, vendo aquele homem tão
corpulento, o julgaram um gigante e eu um pigmeu.
Enganaram-se e, depois escondendo todos os rabos, se retiram de Onofre,
ao ponto de não achar-se um só desses malvados a seu lado,
ao menos na hora da morte. Que malvadeza!!!
Eu lamento a sorte de Onofre, mas não tenho o menor remorso,
porque obrei como verdadeiro homem de honra. Em tais casos obrarei sempre
assim, não me importando com o tamanho nem com a fama da pessoa
que se atreva a atacar a minha honra". Bento Gonçalves possuía
54 anos ou a desvantagem de 10 anos a mais que o corpulento e atlético
Onofre Pires.
Escudado
em imunidade parlamentar Antônio da Fontoura acusou Bento Gonçalves
de general sem sorte, que teve a infelicidade, como companheira de seus
passos e operações. Só vencendo as batalhas de
Setembrina, a retirada sobre Gravataí e ação de
Arroio dos Ratos.
Onofre
Pires entre outras acusações genéricas não
provadas, assacou contra seu primo estas palavras - "Ladrão
da fortuna, ladrão da vida, ladrão da honra e ladrão
da liberdade."
Participação
na Pacificação e Final
Bento
Gonçalves participou do encaminhamento da pacificação
em Ponche Verde em 1845, cedendo face "um valor mais alto que se
levantava" - a ameaça de Rosas da Argentina intervir em
apoio ao Rio Grande do Sul, desequilibrando a balança para a
causa republicana, contra o Império, o que o Ministro da Justiça
do Império, Marquês do Paraná, percebeu e tratou
de apressar a paz. Este personagem mineiro e muito conciliador era o
modelo do falecido Presidente Tancredo Neves.
Pobre,
depois de haver perdido seus bens no Uruguai ao lutar contra Artigas
1816-21, apoiar a Independência do Brasil e combater na Cisplatina
(1825-28 ), Bento foi tentar refazer sua vida no Cristal, hoje Parque
Histórico em sua memória. Teve de pedir emprestadas 150
cabeças de gado.
Ele
foi recebido pelo Imperador em 10 de dezembro de 1845.
Em 18 de julho de 1849, vítima de pleurisia, veio a falecer em
Guaíba ( atual ) na casa de Gomes Jardim.
Local onde planejara e dera início à Revolução
de 20 de setembro, marco inicial do processo revolucionário histórico
rio-grandense, encerrado quase um século depois, ainda em Piratini,
no combate de Cerro Alegre ,de 20 de setembro de 1932, assinalado pela
prisão do Dr. Borges de Medeiros e seu envio preso para Pernambuco,
segundo Osório Santa Figueiredo.
Não
fora a morte de Bento Gonçalves, seguramente o teríamos
em campo, à frente de uma Divisão Brasileira, comandando
seus co- provincianos na defesa da Integridade e da Soberania do Brasil,
no Prata, contra Oribe e Rosas, como o fizera com destaque na invasão
de Alvear. Mas seu filho Caetano o representou a altura na Guerra do
Paraguai e seu neto Major do Exército Bento Gonçalves
da Silva como comandante do Corpo de Transportes no sitio federalista
do Rio Negro e de Bagé.
É
um herói nacional por sual contribuição civil e
militar à implantação da República no Brasil,
em 15 de novembro de 1889, regime no qual vivemos há mais de
um século.
Ao
leitor interessado, para um melhor julgamento do herói, recomendamos
a leitura serena do Diário de Antônio Vicente da Fontoura
32 que ao prosseguir de modo obsessivo e altamente meritório
a Paz, tinha sido injusto com Bento Gonçalves e outros líderes
em seus conceitos, desde que passou a liderar a minoria oposicionista
a Bento, em 1841. Prestamo-lhe as homenagens que foram possíveis
em 1985 - Sesquicentenário Farroupilha .O programa Guerra dos
Farrapos da TV Bandeirantes em 2 de dezembro de 1985, penso, distorceu
a imagem sesquicentenária do herói honrado e distinto
chefe de família , o que a minisérie A casa das sete mulheres
restaura no essencial.
"Eu
sou eu e as minhas circunstâncias " afirmou Ortega y Casset.
Bento Gonçalves tem de ser julgado e entendido nas circunstâncias
que enfrentou. Circunstâncias que estudos recentes feitos com
muita seriedade científica e competência por Décio
Freitas, Sandra Jatahy Pesavento e Helga I. L. Piccolo 35 ajudam a bem
entender a eclosão da Revolução Farroupilha que
não poderia ter líder mais representativo do que Bento
Gonçalves, que encarnou o espírito do Rio Grande do Sul.
Trabalhos
que ajudarão a redimi-lo de investidas sensacionalistas , de
distorções da imagem do herói ao tentarem apresenta-lo
como herói ladrão ou um conquistador machista e ditador
barato.
Sabemos
que não foi um Deus, que foi um homem normal com virtudes e defeitos,
mas que correspondeu ao que dele esperaram os rio-grandenses e que dele
fizeram, faz século e meio, seu vulto maior.
E mais do que isto, é um herói do Exército Brasileiro
por sua memorável e distinta atuação na Guerra
Cisplatina em 1825-28. E aí estão eloqüentes as partes
de combate atestando sua significativa contribuição.
Sobre sua opinião sobre a Paz de Ponche Verde transcrevo o seu
pensamento em documento enviado a Davi Canabarro.
Bento
Gonçalves e a Paz
"Cidadão
General David Canabarro General em Chefe do Exército
Em
observação a quanto ordenais em vosso ofício de
21 de janeiro último, chamei a conselho os oficiais superiores
da força de meu imediato mando para emitirem suas opiniões
sobre a transcendente negociação entabolada com o Barão
de Caxias, comandante - em - chefe do Exército Imperial, e pela
Ata que aqui junto envio ,vereis o unânime acordo dos mesmos.
No
dia 18 do corrente marchei do Cristal no empenho de cumprir vossa ordem,
depois de haver tomado as precisas medidas para a segurança daquela
força, e chegando a Jaguarão no dia 19, uma inopinada
constipação (resfriado) me privou de prosseguir a marcha
a esse campo, e resolvi a ele mandar o cidadão Ismael Soares
da Silva, seguindo o Exército Imperial , a fim de ser informado
do ponto que ocupais e estado da negociação pendente.
Ele acaba de regressar voltando do campo deste por saber que só
aguardavas a minha chegada, e ser isto impossível segundo meu
estado de saúde.
É
pois de meu dever dirigir-vos esta para anunciar-vos quanto venho de
responder e habilitar-vos com meu voto para conclusão de tão
apetecido arranjo.
Minha
opinião , Sr General, é e será aquela que adote
a maioria de seus irmãos de armas, sempre que esteja nas raias
do justo e do honesto, e, ainda, mesmo, quando no caso vertente estes
sagrados objetos deixem de ser observados, nem por isso serei capaz
de a ela opor-me, tendo eu outros meios em semelhante caso ,para deixar
ilesa minha honra e consciência.
A
paz é indispensável fazer-se , o país altamente
a reclama pois infelizmente vítima de nossos desacertos nada
temos a lucrar com os azares da guerra .
Eu
vejo, mau grado meu, que hoje não podemos conseguir vantagens
que estejam em harmonia com nossos sacrifícios, por se haver,
a despeito de meus incessantes conselhos, perdido a melhor quadra de
negociar-se uma conciliação honrosa.
Nada
sei das condições em que se tenha a paz lavrado, e mesmo
das instruções que conduziu o comissionado da Corte do
Brasil, e sendo tudo para mim misterioso me abalanço a lembrar-vos
que uma das primeiras condições deve ser o pleno esquecimento
de todos os atos que individual ou coletivamente tenham praticado os
Republicanos durante a luta, não sendo em nenhum caso permitido
a instauração de processo algum contra estes, nem ainda
para reivindicação de interesses privados.
Tendo
emitido minha opinião, resta-me repetir-vos que a paz é
absolutamente necessária, que os meios de prosseguir na guerra
se escasseiam, o espírito público(opinião pública)
está contra qualquer idéia que tende a prolongar seus
sofrimentos, classificando de guerra caprichosa a continuação
da atual.
Uma
conciliação é sempre preferível aos azares
de um derrota; a história antiga e a moderna nos fornecem mil
exemplos que não devemos desprezar. ( O grifo é do autor
)
Compenetrai-vos
desta verdade e evitai quando puderdes os funestos sucessos que vão
aparecer se prevaleceram as bravatas contra os conselhos da sã
razão.
Lembrai-vos
que muitos que os propalam vos abandonarão no momento do perigo.
Eu pretendo esperar aqui vossa ulterior resolução, e só
depois dela poderei mover-me quando minha saúde o permita.
É portador o Tenente José Narciso Antunes por quem espero
uma resposta categórica destes negócios.
Deus vos guarde. - Estância do Velho Neto , 22 de fevereiro de
1845. Ass:Bento Gonçalves da Silva ."
Depois de 6 dias de feita a Paz em honrosas escreveu a Dionísio
Amaro da Silva :
...Por fim temos uma paz que só conseguimos algumas vantagens
pela generosidade do Barão de Caxias ,deste homem verdadeiramente
amigo dos rio-grandenses ,que nào podendo fazer-no publicamente
a paz, por causa da péssima escolha e da estupidez sem igual
dos que a dirigiram , nos fez o Barão do caxias o que já
não podíamos esperar ,salvando assim em grande parte a
nossa dignidade .E finaliza :
"Sigo para a minha pequena fazenda ,unicamente com a ingente glória
de achar-me o homem ,talvez ,mais pobre do pais."
(x)Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil
e do Instituto de História e Tradições do RGS bento@resenet.com.br
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